Futebol italiano

Amorim: ‘O elenco do Milan é inadequado ao meu estilo de jogo? Em parte, sim’

Treinador diz que o Milan ainda não tem todas as características necessárias para executar seu futebol, duas semanas depois de dar nota 10 ao mercado do clube

Rúben Amorim costuma dar respostas curiosas. O técnico do Milan voltou a demonstrar isso após a derrota por 2 a 0 para o Benfica, na estreia da Liga Europa, mas desta vez sua franqueza abriu uma questão incômoda: até que ponto o elenco montado pelo clube é compatível com o futebol que ele pretende implementar?

Questionado durante entrevista coletiva se o plantel é pouco adequado ao seu estilo de jogo, Amorim foi direto:

“Em parte, sim. Não tenho as características perfeitas porque é impossível chegar a um novo clube e ter tudo pronto.”

A declaração chama atenção principalmente pelo momento em que acontece. Apenas duas semanas antes, na véspera do clássico contra a Juventus, o português havia dado nota 10 ao mercado do Milan e afirmado que os jogadores contratados eram “perfeitos para esta caminhada”.

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Um Milan que ainda não parece com a ideia de Rúben Amorim

A discussão chega justamente quando o desempenho do Milan começa a levantar dúvidas. Depois de duas vitórias nas duas primeiras rodadas da Serie A, a equipe empatou com a Juventus por 1 a 1, não merecendo vencer segundo o próprio Amorim, e depois buscou um 2 a 2 contra a Lazio após sair perdendo por 2 a 0. Na estreia europeia, porém, não houve reação: o Benfica venceu por 2 a 0 em San Siro, em uma atuação que deixou os torcedores vaiando o time.

A principal dificuldade está justamente na distância entre a ideia do treinador e aquilo que a equipe consegue executar. Amorim quer um Milan dominante, capaz de controlar o jogo com a bola e pressionar o adversário, mas reconheceu depois da derrota para o Benfica que sua equipe atualmente cria tantos problemas para si mesma com a posse quanto o adversário consegue criar.

“Temos a bola, mas não criamos problemas. Falta criatividade perto da área. Jogamos apenas por dentro, ninguém ataca a profundidade“, disse.

Rúben Amorim em jogo do Milan
Rúben Amorim em jogo do Milan (Foto: IMAGO / Ball Raw Images)

A dificuldade também aparece na instabilidade durante as partidas. Contra a Lazio, o Milan precisou estar perdendo por 2 a 0 para reagir após as mudanças feitas no intervalo. Diego Moreira, que começou no banco, marcou duas vezes na segunda etapa e garantiu o empate. O próprio Amorim admitiu que esse padrão já o incomoda.

“É o segundo jogo consecutivo em que não estamos no jogo no primeiro tempo”, afirmou depois da derrota para o Benfica. O português também reconheceu que precisa encontrar soluções, mas reforçou que não pretende abandonar sua ideia de futebol.

Agora, o treinador não está apenas dizendo que precisa de tempo para desenvolver mecanismos. Ele está reconhecendo que alguns dos jogadores à sua disposição não apresentam exatamente as características que considera necessárias.

A “Gazzetta dello Sport”, por exemplo, cita, como possibilidades dentro dessa discussão, jogadores como Bartesaghi, Jashari, Saelemaekers e Tomori. A questão levantada pelo treinador é mais ampla: o elenco não foi construído exclusivamente segundo as exigências do seu modelo.

Se eu tiver que fracassar, é melhor que fracasse em grande estilo

O aspecto mais preocupante para o Milan talvez seja a maneira como Amorim vem falando sobre o futuro do trabalho. Depois da derrota para o Benfica, o português afirmou: “Se eu tiver que fracassar, é melhor que fracasse em grande estilo.”

Em seguida, acrescentou: “Quero ajudar este clube, não sei se terei o tempo necessário, mas os jogadores me escutam muito nos treinos e isso me dá esperança.”

Ruben Amorim durante Juventus x Milan (Foto: Imago/IPA Sport)
Ruben Amorim durante Juventus x Milan (Foto: Imago/IPA Sport)

Amorim está há apenas cerca de dois meses no cargo. Falar abertamente em “fracasso” tão cedo não significa necessariamente que o treinador esteja antecipando uma saída, mas revela que ele já considera esse cenário suficientemente possível para colocá-lo publicamente na mesa.

Durante sua passagem pelo Manchester United, Amorim também demonstrou disposição para defender suas convicções mesmo diante de resultados ruins. A famosa frase de que “nem o Papa conseguiria fazê-lo mudar seu sistema” tornou-se um símbolo da rigidez de suas ideias naquele período.

A imprensa italiana já começou a questionar suas escolhas. O “Corriere dello Sport”, por exemplo, criticou a escalação diante do Benfica e apontou que Amorim repetiu problemas vistos contra a Lazio.

Amorim, portanto, está diante de uma situação delicada: precisa fazer o Milan jogar de acordo com suas ideias, mas admite que não possui um elenco perfeitamente moldado para isso. Ao mesmo tempo, foi justamente ele quem, poucos dias antes, classificou o mercado como nota 10 e disse ter à disposição jogadores “perfeitos” para sua proposta.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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