Itália

Reação diabólica

Leonardo se apresentou como técnico do Milan com ideias bem claras sobre como gostaria de ver seu time jogar. Ele gostaria que a equipe aliasse a vocação ofensiva da Seleção Brasileira de 1982 e a eficiência dos times comandados por Fabio Capello, um vencedor comprovado, com histórico de defesas sólidas e confiáveis. Trocando em miúdos, Leonardo queria um Milan eficiente, equilibrado e bonito de se ver. E o início do seu trabalho mostrou que a tarefa seria das mais complicadas, especialmente com o elenco que lhe foi oferecido.

O mau rendimento nos amistosos (oito derrotas consecutivas) parecia o prenúncio de uma temporada desastrosa, e as primeiras rodadas na Serie A confirmaram os temores. Logo na segunda partida, uma goleada de 4 a 0 para a Internazionale no dérbi. O Milan chegou à sétima rodada ocupando apenas a 12ª colocação, com 9 pontos, e apenas quatro gols marcados. Os rossoneri haviam passado em branco em quatro das sete partidas até então. O time havia acabado de empatar por 1 a 1 com a Atalanta, em Bérgamo, e Leonardo parecia estar no fio da navalha.

Pode-se dizer que a vitória por 2 a 1 sobre a Roma, no estádio Olímpico, foi o que livrou o técnico brasileiro de uma pressão que poderia se tornar indispensável, apesar de ele sempre ter contado com o apoio e a confiança daqueles que o escolheram para o cargo. Mas foi ao vencer o Real Madrid por 3 a 2, em pleno Santiago Bernabéu, pela Liga dos Campeões, que a temporada milanista tomou outro rumo.

Naquela ocasião, Leonardo voltou a se arriscar com três atacantes, esquema usado na maioria das derrotas da pré-temporada. Desta vez, no entanto, com uma diferença fundamental. Em vez de usar um volante recuado para armar o jogo desde trás – função exercida por Pirlo desde os tempos de Ancelotti, o time passou a ter um meia de ligação na figura de Seedorf. Na frente, Ronaldinho atua pela esquerda e Pato pela direita, apoiando um centroavante – seja Borriello ou Inzaghi, já que ninguém mais acredita em Huntelaar.

Traduzindo em números, é um 4-2-1-3, que o homem-forte do clube, Adriano Galliani, andou até chamando de 4-2-4 em suas declarações, para exaltar a tração dianteira do time.

Ronaldinho e Pato, que foram figuras negativas durante o mau momento da equipe, se transformaram em peças fundamentais. Pato recuperou o faro de gol e passou a mostrar o sentido coletivo que parecia ter abandonado. Ronaldinho, por sua vez, parece ter outra disposição em campo, e, ainda mais importante, se mostra em melhor forma física, correndo e ajudando os companheiros.

Resultado: nas últimas cinco rodadas, o Milan somou 13 pontos dos 15 possíveis, ganhando nove posições e alcançando o terceiro lugar na tabela, objetivo mínimo declarado no início da temporada.

O problema dos gols parece ter sido resolvido. A média de 0,57 gol por jogo nas primeiras sete rodadas se transformou em 2 gols por jogo nas últimas cinco. Ofensividade solucionada, falta agora encontrar o equilíbrio.

O Milan levou gol em quatro destes cinco jogos, por motivos óbvios: o time é muito propenso ao ataque, sobrecarregando o sistema defensivo. Tem funcionado porque Nesta e Thiago Silva são dois zagueiros de nível mundial e têm provado isso a cada rodada, e porque Dida se recuperou brilhantemente da falha de Madri para se mostrar novamente um goleiro confiável.

A dupla de volantes é formada por Ambrosini e Pirlo, que não são exatamente garotos, e a carga de trabalho de ambos também é alta para fazer o esquema funcionar. O revezamento se fará necessário, e aí entra a preocupação com as condições físicas de Gattuso, que voltou a se lesionar, deixando apenas Flamini como opção aos dois titulares. Nesse aspecto, a chegada de Beckham em janeiro pode se mostrar importante.

Como não poderia deixar de ser, Leonardo ainda mostra inexperiência em alguns momentos. Demora a fazer alterações, como no jogo do último domingo contra a Lazio, quando tardou a notar o crescimento dos donos da casa e reforçar o sistema de marcação. No entanto, parece competente em administrar seu elenco, sobretudo no que diz respeito aos brasileiros do grupo.

Ronaldinho, antes visto com desconfiança entre os colegas, vai ganhando ares de liderança à medida que seu futebol cresce. Esperar que ele seja o mesmo jogador do Barcelona é inútil, mas ele ainda tem o talento para decidir partidas em momentos de inspiração. E Leonardo vê essa influência como algo positivo, especialmente pelo fato de seu time titular hoje ter quatro brasileiros.

Diante deste cenário positivo, Milanello passou a irradiar otimismo. Fala-se em disputar o título com naturalidade, apesar de a distância de sete pontos para a Inter ser pesada, especialmente se considerarmos a regularidade do time de José Mourinho. No entanto, ainda é cedo demais para tratar o Milan como candidato ao scudetto. Os nerazzurri têm um elenco mais diversificado, um técnico mais experiente e um time fisicamente mais inteiro.

O pensamento do Milan, neste momento, tem de ser o de consolidar seu lugar entre os três primeiros. Se a distância se mantiver ou diminuir até janeiro, quando chegarão Beckham e o ganense Adiyiah, principal nome do último Mundial Sub-20, o clube pode pensar em rever seus objetivos. Por enquanto, ainda é cedo.

Testes para valer?

Marcello Lippi deve ter comemorado a queda de produção de Antonio Cassano, que coincidiu com a queda da Sampdoria nas últimas três rodadas. Assim, desta vez não houve tanto barulho com mais uma ausência do atacante na convocação da seleção italiana, que fará amistosos com Holanda e Suécia nos próximos dias.

O outro atacante blucerchiato, Giampaolo Pazzini, voltou a ser lembrado pelo treinador, e terá a oportunidade de cavar seu lugar no grupo para o Mundial. Luca Toni parece carta fora do baralho, e as fases ruins de Giuseppe Rossi, no Villarreal, e Fabio Quagliarella, no Napoli, podem abrir espaço para o “Pazzo”.

As novidades da lista são Davide Biondini, volante do Cagliari, e Antonio Candreva, meia do Livorno. Dois jogadores que merecem a convocação, mas teriam de fazer muito para conquistar espaço nos planos de Lippi para o Mundial. Ainda que não pense neles a curto prazo, o comandante da Azzurra procura ao menos mostrar que acompanha o campeonato. A cotação de Biondini, no entanto, pode crescer caso Gattuso siga com dificuldades físicas.

Por outro lado, não seria o caso de olhar com mais atenção para a defesa do Bari, que com apenas 7 gols sofridos é a menos vazada das quatro principais ligas europeias? A dupla de zaga formada por Ranocchia e Bonucci é jovem e impressionante, e dar uma olhada neles poderia ser mais interessante do que apostar em Legrottaglie, de quem já sabe o (pouco) que se pode esperar.

Na lateral-direita, o espaço dado a Mattia Cassani, do Palermo, se explica pelo “rebaixamento” de Davide Santon à seleção sub-21. O interista, tratado como fenômeno por suas ótimas atuações na temporada passada, foi mal nas vezes em que foi utilizado na atual campanha e passou a ser ignorado por Mourinho, minando suas chances de disputar a Copa.

Uma curiosidade sobre a convocação: a presença de três jogadores do Genoa (Criscito, Bocchetti e Palladino) é um fato inédito nos últimos 70 anos. Não acontecia desde novembro de 1939, quando a Azzurra enfrentou a Alemanha em Berlim. Na ocasião, o técnico Vittorio Pozzo chamou sete jogadores dos Grifoni, porque o time estava mais adaptado ao módulo tático que ele pretendia adotar.

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