Itália

Razões para acreditar

Noite de domingo em Nápoles. No hotel em que estava hospedado para uma reunião política, Silvio Berlusconi tem um breve encontro com Aurelio De Laurentiis, presidente do Napoli. Coincidência ou não, era a oportunidade ideal para ambos celebrarem a vitória por 1 a 0 dos partenopei sobre a Internazionale. Para o Napoli, era o fim de um jejum de vitórias que se arrastava desde janeiro. Para o Milan de Berlusconi, o sinal de que ainda há esperanças de brigar pelo scudetto até o fim. Cortesia de Roberto Donadoni, histórico rossonero.

Muita gente – incluindo este colunista – já dava o título da Inter como certo. Não é que a opinião da coluna tenha mudado, mas é claro que as últimas rodadas permitem pelo menos ficar com uma pulga atrás da orelha sobre o que pode acontecer nos cinco jogos que restam aos dois rivais de Milão. A tabela do Milan é mais complicada que a da Inter, mas o momento de forma é melhor.

Há razões para a torcida do Milan acreditar na virada? Vejamos.

# O Milan está em ótima fase. Em nenhum outro momento da temporada o time venceu e convenceu como tem feito nos últimos jogos. Se nas últimas três rodadas o time tirou sete pontos da Inter, não haveria razão para duvidar que a mesma diferença seja desfeita em cinco.

# Kaká. A atuação do brasileiro na vitória por 3 a 0 sobre o Palermo mostra o que ele é capaz de fazer pelo time quando está em boas condições físicas. Inevitável imaginar que as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse passado toda a temporada livre de lesões.

# Inzaghi. Se o Milan venceu seis e empatou um dos últimos sete jogos, deve muito aos dez gols marcados por SuperPippo, que confirmou a tradição de crescer nos finais de temporada. Com assistentes de luxo como Kaká e Beckham, então…

# O rendimento da defesa. Na série invicta de sete partidas, o time só sofreu dois gols, ambos em goleadas de 5 a 1, contra Siena e Torino. Dida mostrou segurança e acabou com as preocupações levantadas na época da lesão de Abbiati, e a entrada de Flamini na lateral-direita foi um ótimo achado de Ancelotti.

# O mau momento da Inter. Não foi por acaso que o time de Mourinho somou apenas dois pontos nas últimas três rodadas. Antes, já havia vencido a Udinese ganhando um gol contra de presente. Nos empates com Palermo e Juventus, a culpa foi da desconcentração do time nos minutos finais. Na derrota para o Napoli, os nerazzurri pagaram o esforço físico no jogo do meio da semana contra a Sampdoria pela Copa da Itália.

# Se, no Milan, Kaká não hesita em ligar seu futuro ao clube, em meio a tantas especulações sobre o interesse de times como Real Madrid e Manchester United, a história é diferente com o principal jogador da Inter. Ibrahimovic deu entrevista admitindo que quer mudar de ares, o que não pode fazer bem ao ambiente em uma reta final de campeonato.

# A Inter tem histórico de complicar campeonatos no fim. Em 2002, no fatídico 5 de maio, o time perdeu para a Lazio no Olímpico e viu o título ficar com a Juventus – que estava seis pontos atrás a cinco rodadas do fim. No ano passado, a vantagem da Inter sobre a Roma chegou a ser de 11 pontos. Na última rodada, era de apenas um: foi necessária a entrada de Ibrahimovic para salvar o título em Parma.

Se são motivos suficientes para que o interista se preocupe, por outro lado ele pode encontrar conforto em outros argumentos.

# A Inter só precisa de mais nove pontos para ser campeã, e dos cinco jogos restantes não há nenhum que possa ser considerado difícil: Lazio (casa), Chievo (fora), Siena (casa), Cagliari (fora) e Atalanta (casa).

# O Milan, por sua vez, não terá nenhum passeio, e ainda joga três vezes como visitante. A tabela rossonera marca Catania (fora), Juventus (casa), Udinese (fora), Roma (casa), Fiorentina (fora). Os adversários, em especial Roma e Fiorentina nas duas últimas rodadas, estão envolvidos em uma briga ferrenha pelas competições europeias. É improvável que o Milan some 15 pontos.

# José Mourinho. A experiência do técnico português não permite acreditar que o time sofra uma queda física e psicológica irreversível justamente nos momentos decisivos do campeonato. Se a autoconfiança transmitida em suas declarações se traduziu em relaxamento na atitude dos jogadores, ele saberá como reverter o quadro rapidamente.

# O Milan pode ter se recuperado em campo, mas a incerteza nos bastidores ainda reina. Ancelotti tem de conviver não apenas com as sombras de Rijkaard e Allegri, mas também com a de Leonardo, que Berlusconi insiste em convencer a assumir o time já na próxima temporada.

# Júlio César. O melhor goleiro da temporada cresce em momentos decisivos, e a Inter pode contar com ele quando está com a faca no pescoço. Se a Inter tem a melhor defesa do campeonato, com 25 gols sofridos em 33 jogos, o mérito é muito do brasileiro.

Duelo de bastidores

Em campo não haverá mais dérbis entre Inter e Milan na temporada, mas a guerra de declarações entre os máximos dirigentes tem bastado para ocupar as páginas dos jornais.

Berlusconi levou a público a lembrança do lance polêmico que decidiu o clássico do segundo turno a favor da Inter – o gol de mão de Adriano. “Adriano Galliani me lembrou que estaríamos apenas um ponto atrás se não fosse por aquele gol de mão. Mas disse a ele que com ‘se’ não se chega a lugar nenhum”, comentou, ironicamente.

O presidente interista Massimo Moratti poderia lembrar que a diferença seria de quatro, e não de um ponto, já que sem o gol de Adriano o dérbi terminaria empatado. Mas preferiu colocar ainda mais lenha na fogueira, dizendo que estava mais preocupado em contar os pênaltis já marcados a favor da Inter na temporada.

De fato, ninguém teve tantos pênaltis para bater quanto o Milan: 12 ao todo, alguns deles generosos. A Udinese, segunda colocada na classificação, teve 9. Em compensação, a Inter é a única equipe que não teve nenhum pênalti marcado contra. Os pênaltis a favor dos nerazzurri foram 4, assim como os assinalados contra os rossoneri.

Enquanto isso, os dois canais oficiais dos clubes esquentam o clima mostrando os lances polêmicos da arbitragem nos jogos dos rivais, com o claro objetivo de pressionar os juízes escalados para as partidas que restam. Uma picuinha que tende a crescer se a diferença na pontuação diminuir nas próximas rodadas.

E a Juventus?

Não era a Juventus a anti-Inter? Os últimos jogos acabaram com qualquer esperança da Vecchia Signora, que lutará apenas pela honra do segundo lugar. A Copa da Itália, que era a única esperança realista de título, escapou com derrota em casa para a Lazio na semifinal, dando início a uma série de protestos da torcida.

É verdade que o mercado da Juve para esta temporada poderia ter sido melhor, mas é preciso levar em conta o crescimento gradativo da equipe. Como bem disse Didier Deschamps, técnico que dirigiu o time na Série B, quem volta à primeira divisão não pode brigar pelo título em dois ou três anos. O plano da Juventus tem de ser quinquenal. Difícil, no caso, é convencer a torcida.

De qualquer forma, não quer dizer que a manutenção de Claudio Ranieri no comando seja o caminho a seguir. Renovar o elenco, mesclando espaço aos jovens e contratações de peso, é necessário para a próxima temporada, e um treinador menos ultrapassado seria importante para comandar este processo.

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Equipe Trivela

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