Itália

Quem vive de passado…

Luca Toni foi campeão do mundo pela seleção italiana. Foi um dos mais temidos atacantes do futebol europeu durante um determinado período, e foi fundamental para os clubes que defendeu nesta época (Palermo, Fiorentina, Bayern). Era letal no jogo aéreo, tinha certa velocidade para alguém do seu tamanho, e conseguia proteger bem a bola dos defensores adversários. Repare nos tempos verbais. Tudo passado.

Toni passou anos em peregrinação pelas divisões inferiores e explodiu tardiamente, mas a tempo de viver grandes momentos na Serie A e também na Bundesliga, com a camisa do Bayern, além da glória maior com a Azzurra. Hoje, aos 33 anos, é um atacante decadente. Passou pelo Genoa e deixou apenas três gols, um deles de pênalti, em 16 partidas que disputou no campeonato. Isso depois de a Roma não ter se esforçado minimamente por sua permanência após uma breve passagem por empréstimo na temporada passada.

Apesar do histórico recente, a Juventus decidiu apostar em Toni quando perdeu Quagliarella por lesão até o fim da temporada. Difícil compreender as razões para a Vecchia Signora acreditar que ele poderá ser o jogador que não é mais há pelo menos dois anos. O Genoa ficou feliz em liberá-lo gratuitamente, para desonerar a folha salarial sem aquele que era seu maior investimento para a temporada. Toni ganhava € 4 milhões/ano e ficou tão contente (surpreso?) com o interesse de um grande clube que aceitou reduzi-lo em mais da metade para assinar pela mesma duração, ou seja, até junho de 2012.

O torcedor bianconero tem razões para se preocupar com as opções que tem na frente. Iaquinta sofre com a falta de continuidade por causa das lesões. Del Piero é craque, mas as pernas já têm dificuldade para acompanhar o raciocínio e os gols custam mais a sair. Amauri, bem… Amauri não faz um gol na Serie A há quase um ano. E a Juve precisaria de um nome capaz de marcar pelo menos 20 no campeonato.

Tudo se resolveria com um nome como Dzeko, mas a mudança feita às portas do início da temporada pela federação italiana, obrigando os clubes a inscrever no máximo um novo extracomunitário, fecharam as portas para o bósnio. A vaga foi ocupada por Krasic, que começou brilhantemente, mas tem sido um vagalume nas últimas partidas. A oferta financeira do Manchester City por Dzeko era inquestionavelmente melhor, mas o ex-jogador do Wolfsburg provavelmente teria feito um sacrifício pela Juve, considerando seu assumido desejo de atuar no futebol italiano.

Mas a solução talvez estivesse mesmo à vista, dentro da Serie A. Os bianconeri sentiram na pele no último domingo, quando Cavani marcou os três gols do Napoli na vitória por 3 a 0, com uma atuação soberba. O uruguaio de 23 anos teria sido uma peça perfeita para o ataque juventino, mas o Napoli foi mais esperto (vencendo a concorrência do Tottenham) e pagou € 17 milhões (€ 5 milhões pelo empréstimo de um ano e € 12 milhões da compra em definitivo a ser executada em julho) para tirá-lo do Palermo. Cavani já marcou 20 gols nesta temporada, sendo 13 na Serie A, igualando sua marca em todo o campeonato passado pelo time rosanero. Para efeito de comparação, a Juve gastou € 12 milhões por outro uruguaio, o meia Jorge Martínez, do Catania.

E ainda: se Trezeguet não servia no início da temporada, agora serve Toni?

Na realidade atual, não seria melhor que contratar um jogador decadente fazer uma aposta em um nome da casa? A fracassada campanha na Liga Europa deveria ter servido ao menos para identificar jovens capazes de colaborar com o time. No empate por 1 a 1 com o Manchester City, o garoto Niccolò Giannetti marcou o gol da Juventus, mas desde então não ganhou oportunidades para mostrar seu valor na Serie A. Quando o jovem dinamarquês Sorensen entrou na lateral-direita, por pura falta de opções, os resultados foram satisfatórios.

Na temporada passada, a Juventus sinalizou com uma política de valorização da base ao escolher Ciro Ferrara para o comando da equipe, mas o ex-defensor não resistiu e caiu no início do segundo turno. Curiosamente, a Juve de Ferrara terminou a primeira parte do campeonato com 33 pontos, e a atual, de Luigi Del Neri, com 31.

A falta de coragem dos grandes para apostar em garotos é chocante. O Milan parece esboçar um passo em outra direção, com Allegri utilizando Strasser (autor do gol da vitória para o Cagliari) e Merkel nas últimas partidas. Merkel, um meia de passaporte alemão nascido no Cazaquistão, se destacou nos jogos de pré-temporada e ali já parecia pronto para dar o salto ao time principal. Mas é possível que uma nova contratação (Lazzari, do Cagliari, interessa aos rossoneri), mande Merkel de volta à base.

A confiança no talento precisa ser maior que o temor de queimar uma promessa, ou o futebol italiano continuará vivendo de apostas no passado.

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Equipe Trivela

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