Itália

Pode chamar de Pardal

As reações intempestivas de José Mourinho não são mais novidade na Itália. Afinal de contas, já faz mais de um ano que o técnico português está à frente da Inter – tempo suficiente para saber que só há algo fora do comum quando ele deixa de se envolver em polêmicas.

Na semana que antecedeu a abertura da Serie A, no entanto, Mourinho exagerou até para seus padrões. Resolveu atacar o treinador da seleção italiana, Marcello Lippi, pelo simples fato de ele ter apostado na Juventus como campeã da temporada. Foram dois dias consecutivos de duras críticas a Lippi, acusando-o de faltar com o respeito e até de ser menos inteligente que outros técnicos de seleções.

Na primeira rodada do campeonato, Mourinho não fez muita coisa para provar que Lippi estava errado. A Inter que empatou por 1 a 1 com o Bari foi decepcionante, menos pelo resultado – o mesmo das duas últimas estreias – e mais pela atuação da equipe. E as decisões do português ao longo dos 90 minutos colaboraram para o mau desempenho da equipe.

Não dá para dizer que a Inter subestimou o Bari. Pelo contrário, os nerazzurri estavam cientes de que havia pela frente um adversário empolgado pela volta à primeira divisão depois de oito anos. De qualquer forma, a diferença técnica entre as equipes dava aos donos da casa a obrigação da vitória.

Ainda esperando a chegada de um meia de ligação, Mourinho escalou Stankovic na função em que não rende seu máximo. Na outra ponta do losango, Vieira foi escolhido como substituto de Cambiasso, que só jogará novamente em outubro. Completando o meio-campo, Thiago Motta e Muntari.

Na primeira meia hora de jogo, a Inter simplesmente não conseguiu fazer o jogo fluir. O Bari se protegia bem, com os marcadores Gazzi e De Vezze posicionados logo à frente da defesa, dificultando a penetração interista.

Mourinho considerou já ter visto o suficiente e mudou ainda durante o primeiro tempo, substituindo Muntari por Balotelli. Depois da partida, o técnico daria o argumento de que o ganense sofria os efeitos do Ramadã, período em que os muçulmanos costumam fazer jejum durante o dia. Certamente o português já sabia disso antes do jogo, mas preferiu escalar o jogador mesmo assim. Ao contrário, por exemplo, do que fez o Genoa ao deixar Kharja, também muçulmano, no banco de reservas durante toda a partida contra a Roma.

Desculpas à parte, a Inter passou a atuar melhor com três atacantes, e Stankovic recuado para sua posição natural no meio-campo. Nos minutos finais do primeiro tempo, a Inter conseguiu abrir o campo, dar mais opções a Milito e Eto’o, e fez com que o Bari vivesse seu momento mais difícil em campo.

Apesar dos sinais promissores, Mourinho decidiu alterar a formação da Inter pela segunda vez na volta do intervalo. Saiu Vieira, entrou Quaresma, recebendo mais uma oportunidade para tentar convencer a torcida. O time estava montado em um 4-2-4, com Quaresma e Balotelli abertos.

A equipe não se encaixou perfeitamente com o novo sistema, mas o gol acabou saindo aos 11 minutos, quando Milito – melhor nerazzurro em campo – recebeu a bola de Balotelli e sofreu pênalti, que Eto’o converteu. Era a hora ideal de recompor o meio-campo, mas não foi o que fez Mourinho.

O técnico preferiu trocar Materazzi por Córdoba, temendo que o zagueiro titular levasse um cartão vermelho que já poderia ter recebido no primeiro tempo, gastando assim sua última alteração. Mesmo vencendo, a Inter seguia com quatro atacantes, deixando Stankovic e Thiago Motta obrigados a cobrir muitos espaços vazios no meio-campo e deixando a defesa exposta, sobretudo após as entradas dos velozes Langella e Rivas no Bari.

É verdade que esse discurso não seria feito se Eto’o aproveitasse a oportunidade que teve para ampliar o placar – uma que não costuma perder –, mas é inegável que a Inter deu sopa para o azar. Ou para a competência do Bari, que em um instante de desorganização da zaga interista, com Lúcio mal posicionado, chegou às redes com o ex-milanista Kutuzov. E os visitantes só não saíram com a virada porque Rivas falhou sozinho diante de Júlio César nos acréscimos.

Se o pré-campeonato sugeria um dérbi desequilibrado a favor da Inter na segunda rodada, bastou um fim de semana para colocar alguns pontos de interrogação. Até a temporada passada, mesmo quando atuava mal quando na partida contra o Bari, os nerazzurri eram capazes de se safar com um lance de brilhantismo de Ibrahimovic. Agora já não se pode mais contar com isso.

Talento que desequilibra

Dois jogadores que atualmente estão fora da órbita da Seleção Brasileira brilharam na primeira rodada do Campeonato Italiano. No sábado, Ronaldinho participou ativamente da vitória por 2 a 1 do Milan sobre o Siena, com passes decisivos nos lances dos gols de Pato. No domingo, foi a vez de Diego brilhar, em sua estreia oficial pela Juventus, inspirando o apertado 1 a 0 em cima do Chievo.

O caso de Ronaldinho requer cautela. Em sua primeira temporada no clube, também houve momentos de brilho nas primeiras rodadas, antes de começar a cair de produção até acabar no banco de reservas. Portanto, antes de exaltar seu retorno, é necessário aguardar uma regularidade. Ponto positivo é ter feito toda a pré-temporada com a equipe e aparentemente estar em melhor condição física de um ano atrás. Mesmo que não volte a ser o mesmo de antes, Ronaldinho pode ser determinante para os rossoneri. Depende mais dele que dos outros, apesar de Berlusconi não resistir às cornetadas táticas habituais.

O mesmo discurso vale para o Milan como um todo. As previsões catastróficas pelo desempenho do time na pré-temporada não corresponderam à realidade, pelo menos por um jogo, mas o time ainda tem deficiências que o impedem de ser considerado candidato sério ao título. A começar pelo gol, sem um titular absoluto que transmita confiança, e pelas laterais, com jogadores que já deixaram seus melhores anos.

Diego, pelo contrário, está apenas começando sua aventura italiana, mas já conta com um time construído a seu redor. Por isso, sabe que precisa corresponder desde o início. Contra o Chievo, não apenas cobrou a falta que resultou no gol de Iaquinta, como também ditou o ritmo da equipe e coordenou as ações. Foram bons 45 minutos, seguidos por um segundo tempo apenas razoável, mas o suficiente para merecer os aplausos da torcida ao deixar o campo.

Apesar do placar magro, a Juve de Ciro Ferrara não pareceu em momento algum ter o resultado ameaçado, já que Buffon não chegou a ser seriamente exigido. Ponto para a parceria de Cannavaro e Chiellini, tão criticada (justamente) pelas últimas atuações na seleção, mas elogiável no início com a Juve.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo