Pecado por excesso

Trecho da seção “Tabellino” desta coluna na semana passada: “Pirlo, Beckham, Seedorf, Kaká e Pato ao lado de Ronaldinho? Para o gaúcho, é possível o Milan jogar desta forma. Ele só não explicou de que jeito”. No último domingo, Carlo Ancelotti quis fazer acreditar que sabia como solucionar o dilema, colocando os seis juntos em campo contra a Roma no estádio Olímpico.
É interessante observar que Ancelotti foi contra uma imagem que se construiu no público brasileiro de que ele seria um técnico “retranqueiro”, que privilegia os sistemas defensivos, apesar de ter provado o contrário diversas vezes nos últimos anos. No entanto, ele foi longe demais ao mandar a campo um time que não contava com nenhum meio-campista com características de marcação.
No sábado, o técnico rossonero havia dito que Beckham começaria no banco de reservas, mas ali ele já tinha planos de escalá-lo desde o primeiro minuto, satisfeito com o que viu durante a preparação em Dubai. Assim, sobrou para Flamini, que em teoria é o jogador mais adequado a ocupar a lacuna criada pela grave lesão sofrida por Gattuso.
Por mais que Beckham tenha tido uma atuação suficiente – e surpreendente, pelo fato de ter resistido 90 minutos –, não se pode desequilibrar uma equipe de tal forma. Se o Milan tivesse pela frente um adversário mais forte fisicamente, como a Juventus, ou mesmo uma Roma com um Totti a mais, os problemas teriam sido ainda maiores.
A presença de jogadores tão técnicos em campo exigiria um pouco mais de sacrifício de todos eles, o que não se viu no primeiro tempo. A construção de jogo do Milan foi lenta e previsível, e não foi surpresa quando Vucinic abriu o placar para a Roma. Também faltou empenho, especialmente de Seedorf, que pouco correu. Exposta, a defesa central milanista só não teve mais dificuldades porque não teve a quem marcar – Júlio Baptista, escalado como centroavante, foi uma figura apagada.
Do lado romanista, Luciano Spalletti também cometeu seus pecados. A escalação de Taddei, que há tempos não joga um futebol convincente, foi um deles. No eixo Cassetti-Taddei-Mexès saíram os dois gols do Milan que viraram o jogo no começo do segundo tempo. Na ausência do francês Menez, que em pouco tempo passou de reserva a peça indispensável do time, teria sido melhor acrescentar qualidade à armação com Pizarro, um erro que só foi corrigido depois da virada.
O fato de o gol de empate da Roma, marcado novamente por Vucinic, ter saído logo depois da entrada de Ambrosini no lugar de Ronaldinho pode levar a uma interpretação distorcida. Não foi por causa da alteração que o Milan cedeu o empate: foi por causa dela que a Roma não virou o jogo. Não se faz um time de futebol sem alguém disposto a sujar o calção.
Se Ancelotti tiver a consciência de que um entre Flamini e Ambrosini tem de jogar sempre, ficará mais fácil até tirar o melhor de Beckham, que terá de fazer um pouco menos de sacrifício e colaborar mais ofensivamente.
No fim das contas, o Milan deixou o campo com os mesmos nove pontos de desvantagem para a Internazionale, perdendo a chance de aproveitar o inesperado tropeço da rival contra o Cagliari. Melhor para a Juventus, que bateu o Siena e agora está a apenas quatro pontos da líder. Graças a ele, de novo: Alessandro Del Piero.
Um dos maiores?
São seis gols de falta na temporada, metade do total. Antes do Siena, haviam sido vítimas Zenit, Palermo, Roma, Real Madrid e Chievo. Del Piero já superou sua melhor temporada neste quesito – a de 2005/06, quando fez cinco. O capitão juventino chegou a 36 gols de falta em um total de 253 com a camisa da Vecchia Signora.
É inevitável, então, a pergunta: é possível colocar Del Piero entre os maiores cobradores de falta de todos os tempos? A concorrência é alta – basta lembrar de nomes como Zico, Rivellino, Didi, Platini, Maradona, Mihajlovic, Juninho Pernambucano, Pirlo e Ronaldinho. Na atualidade, porém, não há ninguém batendo na bola como ele.
Melhor para a Juventus, que é capaz de arrancar pontos mesmo quando não joga para merecê-los. O jogo contra o Siena se encaixa neste caso.
Em boca fechada…
Esta semana, deveria haver apenas motivos para elogiar o clube de Turim, mas o presidente Giovanni Cobolli Gigli perdeu uma chance de ficar calado após a sentença de um ano e meio de prisão ao ex-dirigente Luciano Moggi pelo caso de corrupção e ameaças envolvendo a Gea World, que agenciava técnicos e jogadores.
Cobolli Gigli disse que “se a sentença foi tão branda (em comparação aos 6 anos pedidos pelo procurador), deveriam devolver os dois títulos cassados da Juventus”. Frase totalmente sem sentido, porque justiça desportiva e justiça comum são coisas bem diferentes.
Justamente de quem faz um ótimo trabalho de reconstrução e recuperação da moral do clube, esperava-se outra postura. Apesar de a Juventus ter conquistado os títulos em campo com mérito esportivo (era o melhor time nas duas temporadas em questão), é necessário aceitar que eles fizeram parte de um período negro de sua história.



