Itália

Passeio de campeão

A semana do dérbi de Milão foi como de costume. Qualquer fato aparentemente inofensivo vira polêmica, como as datas dos jogos da Copa da Itália (com a Internazionale jogando um dia depois do Milan em um gramado mais desgastado), ou o fato de o técnico da seleção Marcello Lippi ter visitado os rossoneri, mas não os nerazzurri, nos dias que antecediam o confronto.

O que incomodava mesmo o treinador da Inter, José Mourinho, era a quantidade de elogios direcionados ao Milan pela crítica especializada. O time que joga mais bonito, que tem Ronaldinho em grande forma e supera seus adversários com facilidade. Diante de seu pragmatismo, o português pensa consigo: “E nós, que somos líderes?”. De fato, a Inter pode até sofrer mais do que poderia em alguns jogos, mas tem uma incrível regularidade.

E na hora do confronto direto que poderia ter reaberto o campeonato, a Beneamata colocou de vez as mãos no seu histórico quinto scudetto consecutivo. Porque se nove pontos (e um jogo a mais) não são uma garantia tão grande do ponto de vista matemático, no aspecto psicológico significam muito.

O Milan poderia ter virtualmente alcançado a rival, desde que vencesse o jogo adiado com a Fiorentina em fevereiro, mas falhou em seu maior teste. Seis gols sofridos e nenhum marcado nos dois clássicos da temporada são a prova clara da diferença de nível entre as duas equipes. Um desnível que as circunstâncias do jogo – expulsão de Sneijder ainda no primeiro tempo, deixando a Inter com um jogador a menos – só ajudaram a acentuar.

A arbitragem de Gianluca Rocchi foi muito discutida, como é natural em um jogo desta magnitude em que um dos times termina com nove homens em campo. No cartão vermelho a Sneijder por aplaudi-lo ironicamente, Rocchi poderia ter sido menos rigoroso e mostrado apenas o amarelo, mas a forma acintosa com que o holandês faz o gesto torna a expulsão aceitável. Já na outra expulsão, a de Lúcio, já no fim do segundo tempo, a interpretação parece equivocada, pois as imagens não caracterizam intenção do brasileiro ao tocar o braço na bola.

Com a bola rolando, ficou clara a impressão de que Mourinho preparou melhor do que Leonardo seus jogadores. O Milan parecia excessivamente entusiasmado pelos últimos jogos, enquanto a Inter jogou como se fosse uma final. Há um grande peso da ausência de Nesta sobre o resultado, mas não seria justo com os nerazzurri atribuir a superioridade apenas a este fato.

A grande vantagem da Inter no confronto esteve nas laterais do campo. Os dois externos defensivos do Milan tiveram uma noite difícil, sobretudo Abate, que falhou no gol de Milito e não se recuperou depois. Do outro lado, Maicon venceu o duelo mais esperado da noite, impondo-se fisicamente sobre Ronaldinho. Antonini levou uma aula de Zanetti, que foi o típico capitão que lidera por exemplo, enquanto Santon, que parece ter recuperado a confiança do Special One, superou Beckham com folgas – admitindo-se que o inglês fez um mau jogo e não deu muito trabalho.

Sneijder foi o melhor em campo enquanto esteve nele, mostrando ser o melhor jogador do campeonato. E a Inter já vencia por 1 a 0 quando o holandês foi expulso, mas Mourinho resistiu à tentação de fazer uma alteração defensiva e manteve o time com um 4-3-2, pedindo apenas que Pandev retornasse sem a bola para acompanhar as saídas de Pirlo, e que Milito ficasse mais adiantado para manter a possibilidade dos contra-ataques. Curiosamente, quando enfim viria a alteração no segundo tempo, com Pandev dando lugar a Thiago Motta, Mourinho pediu ao macedônio que ficasse em campo para bater uma falta antes de sair. E o ex-biancoceleste, que já havia acertado uma bola na trave, colocou nas redes.

Em inferioridade numérica, Cambiasso dobrou suas funções, fazendo o trabalho de marcação e também saindo com a bola para o ataque. Lúcio e Samuel não deram nenhum espaço a Borriello, que vinha em bom momento, mas praticamente não conseguiu se apresentar como opção. E Júlio César foi a garantia de sempre, muito mais pelo que defendeu quando o placar marcava 1 a 0 do que pelo pênalti de Ronaldinho defendido no fim.

No ataque, Pandev provou que o melhor time da Serie A ainda ganhou o maior reforço do mercado de inverno. Ninguém reparou que Eto’o estava em Angola, tamanha a facilidade de sua adaptação – isso depois de ficar meia temporada sem disputar um jogo oficial. Milito, por sua vez, fez jus à sua veia goleadora em clássicos, como já fazia no Genoa.

Do lado do Milan, a ausência de Seedorf, que não vinha sendo sentida contra adversários mais fracos, passou fatura. Pirlo foi o único do trio de meio-campo a ter uma atuação satisfatória, assim como Thiago Silva na defesa. Gattuso e Ambrosini foram facilmente dominados no setor. Na hora de tentar algo diferente no ataque, Leonardo optou por Huntelaar e não por Inzaghi, jogador muito mais temido pelos adversários e mais capaz de fazer a diferença.

O resultado do dérbi só não pode alterar a análise positiva da recuperação do Milan, que para muita gente sofreria até para se classificar para a Liga dos Campeões, e deve terminar em um confortável segundo lugar.

Trocar por quem?

A decisão de substituir Ciro Ferrara já foi tomada pela Juventus há vários dias. E por que ele ainda não foi demitido, mesmo após perder em casa para a Roma em um fundamental confronto direto? Porque a direção não está convencida sobre o nome dos possíveis substitutos.

Hiddink e Scolari foram os primeiros cotados. O brasileiro rechaçou de imediato, e o holandês parece mais entusiasmado com a hipótese de seguir à frente da seleção russa, além de ser um treinador caro.

No mercado, sobram poucos nomes. Esperar pela queda de Rafa Benítez no Liverpool seria uma opção, mas não é garantido que ele esteja disponível antes do fim da temporada. Outra possibilidade seria Gianluca Vialli, ídolo juventino histórico, mas há tempos fora do mercado de técnicos – hoje trabalha como comentarista de televisão.

Se optar por uma mudança no comando, Jean-Claude Blanc será o primeiro dirigente na história da Juventus a mudar três técnicos em quatro temporadas. Começou com Deschamps, que saiu para a entrada de Ranieri, depois substituído por Ferrara. O que pode ser outra razão para o francês, agora presidente do clube, relutar.

Enquanto não se acha um substituto, Ferrara vai ficando. E vai alimentando os rumores de que estaria apenas guardando lugar para o retorno de Lippi após a Copa do Mundo.

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Equipe Trivela

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