Itália

Os donos do espetáculo

Você pode discutir se o Milan terá forças para seguir na liderança até o final, se a Inter será mesmo a principal adversária dos rossoneri, se o Napoli pode voltar aos dias de glória ou se a Roma enfim deixará de ser o time do “quase”. Mas algo difícil de questionar neste momento da temporada é a grande fase da Udinese, tanto pelos resultados quanto pela qualidade do jogo.

A vitória por 3 a 1 sobre a Internazionale não apenas acabou com a invencibilidade de Leonardo no comando dos nerazzurri, como ainda levou a Udinese a 33 pontos, na oitava posição, a onze pontos do líder e a apenas quatro da zona de classificação para a Liga dos Campeões. Algo impressionante para uma equipe que perdeu os quatro primeiros jogos do campeonato e terminou a quinta rodada com apenas um ponto somado.

Os números deixam clara a ascensão: nas últimas quatro rodadas, 10 pontos conquistados e 13 gols marcados, incluindo quatro no Milan em um incrível empate em San Siro. Há oito rodadas a equipe não deixa de balançar as redes. O último jogo em branco foi a derrota por 2 a 0 para a Roma, dia 20 de novembro.

Tudo isso acompanhado por um futebol de altíssimo nível, o mais vistoso da Serie A neste momento. Quem disser que a Udinese pode brigar por uma vaga na Champions não será chamado de louco. Pelo menos este colunista espera não ser.

Em uma cidade que vibrou com os gols de Bierhoff e Amoroso e se deliciou com o talento de Zico, o momento é de desfrutar da eterna consistência e eficiência de Antonio Di Natale e da magia nos pés de Alexis Sánchez, o chileno que já despertou interesse de grandes clubes dentro e fora da Itália, mas que a Udinese promete segurar – pelo menos até o fim da atual temporada.

O esquema com três zagueiros é fundamental para exaltar as características ofensivas dos alas sul-americanos (o chileno Isla, pela direita, e o colombiano Armero, pela esquerda). Sánchez, antes habituado a jogar pelos lados do ataque, transformou-se em uma espécie de “ponta central”, com o perdão da incoerência, e encosta em Di Natale para caracterizar um esquema 3-5-1-1.

Remanescentes das últimas campanhas, como o goleiro Handanovic e o volante Inler, seguem jogando em bom nível e recompensando o clube por resistir ao assédio de times maiores por eles. Na zaga, onde outro colombiano, Zapata, já se destacava, também apareceu com força o franco-marroquino Benatia, contratado sem alarde no ano passado e agora uma peça fundamental da equipe.

Benatia foi importante para a campanha da Udinese por outra razão: foi dele o gol, aos 48 minutos do segundo tempo, que valeu a primeira vitória da temporada: 1 a 0 sobre o Cesena, pela sexta rodada. Talvez tenha sido aquele o gol a garantir a sobrevida do técnico Francesco Guidolin, que já levava consigo a pressão de cinco jogos sem vencer.

Manter Guidolin, técnico de currículo vasto e vitorioso nas “provinciali”, as equipes do interior da Itália, mostrou-se um acerto da direção. Guidolin apareceu nos anos 90 à frente do Vicenza, que subiu para a Serie A sob seu comando, venceu uma Copa da Itália em 1997 e chegou à semifinal da Recopa europeia contra o Chelsea na temporada seguinte. Depois, teve passagens positivas por times como Bologna, Palermo e Parma, além de uma experiência no exterior à frente do Monaco, essa sem tanto sucesso.

Guidolin é um daqueles treinadores que os grandes clubes estranhamente ignoram, mas tem uma carreira muito consistente. As dificuldades no início da Udinese passaram, segundo ele próprio admite, por necessidade de aparar arestas na relação com Di Natale, que prefere seguir um programa próprio de treinamentos. O treinador acabou compreendendo que seu goleador precisava dessa liberdade para render o máximo. Hoje o chama de “Maradona da província”, mas faz a ressalva de que é um jogador humilde e que respeita as hierarquias do vestiário.

O atual técnico da Udinese esteve muito perto da Juventus em 2004, mas na ocasião a Vecchia Signora, compreensivelmente, preferiu Capello. Hoje, ele próprio afirma não ter mais ilusões quanto a dirigir um grande clube (“Não é necessariamente verdade que os melhores diretores estejam em Hollywood”, explica). Afirma que, caso venha a deixar a Udinese, gostaria de uma nova tentativa fora da Itália, mas em clubes que buscam retornar às grandes competições, como Hertha Berlim ou Nottingham Forest.

Por enquanto, Guidolin já ganha pontos por conquistar aplausos e mostrar estilo em um campeonato quase sempre pobre em novidades. Ainda vamos descobrir se haverá a consistência necessária nos resultados para seguir sonhando alto, mas não há motivos para duvidar.

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Equipe Trivela

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