Itália

Ofensas homofóbicas de técnico do Napoli revoltam Mancini: “Não deveria estar no futebol”

A Internazionale venceu o Napoli por 2 a 0, nesta terça-feira, pela Coppa Italia, e avançou às semifinais da competição. Apesar da importância do duelo, o resultado do jogo acabou virando detalhe diante da discussão entre os técnicos das duas equipes. Segundo Roberto Mancini, Maurizio Sarri fez ofensas homofóbicas a ele quando o treinador da Inter reclamava dos acréscimos dados pelo árbitro da partida. O desentendimento acabou se estendendo nas entrevistas pós-jogo, com Mancini detonando a atitude do colega de profissão e Sarri dando aquela famosa justificativa esfarrapada, que não deverá livrá-lo de alguma punição.

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Em entrevista à Rai, após o jogo, Mancini foi taxativo ao falar do ocorrido em campo e não escondeu seu posicionamento diante da ofensa homofóbica do técnico dos partenopei. “Você tem que perguntar ao Sarri o que aconteceu, já que ele é um racista. Homens como ele não deveriam estar no futebol. Levantei-me para perguntar sobre os cinco minutos de acréscimo, e ele gritou ‘bicha’. Eu ficaria feliz de ser, se o que ele é é considerado um homem”, afirmou.

O treinador da Inter aproveitou para dar uma cutucada na falta de medidas mais enérgicas das pessoas que administram o futebol italiano diante de incidentes discriminatórios. “O quarto árbitro ouviu tudo, mas não disse uma palavra, e eu fui expulso. Este incidente ofusca o restante da partida e é uma vergonha. Ele (Sarri) tentou me encontrar após a partida para se desculpar. Mas ele deveria estar envergonhado. Na Inglaterra, alguém como ele não poderia sequer estar em um campo de treinamento”, encerrou.

Napoli e Inter fizeram um duelo apertado no San Paolo. O jogo foi definido apenas no fim. Mertens foi expulso aos 43 minutos do segundo tempo, quando a Inter ainda vencia por 1 a 0. Os nerazzurri chegaram ao 2 a 0, aos 47 do segundo tempo, com Ljajic. Mancini então reclamava que o tempo de acréscimo dado pelo árbitro já havia passado, quando Sarri interferiu e atacou verbalmente Mancini.

O treinador do Napoli defendeu-se após a partida, afirmando que o que acontece em campo deve permanecer lá mesmo e explicando a fonte de sua raiva naquele momento. “Eu estava nervoso por causa da decisão sobre o Mertens e me estranhei com Mancini. São coisas de campo, que devem ficar por ali. Era melhor que não tivesse acontecido, mas são coisas do futebol. Eu pedi desculpas para ele, mas ele recusou. Espero que mude de decisão amanhã, porque não é certo não aceitar as desculpas dos outros”, afirmou Sarri.

“Não me lembro do que disse ao Mancini, foi tudo muito rápido, em segundos, mas acho que insultos homofóbicos são exageros. Foi apenas um momento de raiva por conta do nervosismo, por acreditar ser injusto o que se passou com Mertens”, completou o técnico.

A justificativa de Sarri, entretanto, cai por terra quando seu histórico não muito antigo é puxado. Em 2014, quando comandava o Empoli, o técnico se irritou com a expulsão de Mario Rui durante a vitória por 1 a 0 sobre o Varese e demonstrou sua faceta preconceituosa quando poderia se ater apenas a reclamações técnicas. “O futebol virou um esporte de bichinhas. Sofremos duas vezes mais faltas, mas tivemos mais cartões amarelos. É um esporte de contato na Itália, mas o apito é soprado mais do que na Inglaterra, porque o esporte está sendo interpretado por homossexuais”, disse, à época, o treinador, conforme lembrou a Gazzetta dello Sport.

A Federação Italiana, no momento, investiga o incidente, conversando com testemunhas da discussão, como o quarto árbitro e um dos profissionais da transmissão de TV, que estavam próximos dos dois treinadores. Se a entidade concluir que houve comportamento discriminatório de Sarri, o técnico do Napoli poderia acabar suspenso por quatro meses, além de ter que pagar uma multa entre € 15 mil e € 30 mil. Ainda assim, segundo a Gazzetta dello Sport, a provável sanção será de apenas duas partidas, com o argumento de que, como Mancini não é gay, tratou-se apenas de uma ofensa, e não um ato discriminatório.

Se há provas das palavras de Sarri, duas partidas de suspensão parece uma punição muito leve, sobretudo considerando as próprias do futebol italiano. Aparentemente, os esforços do país para brecar comportamentos preconceituosos no futebol, que a Federação Italiana tem tentado ressaltar ultimamente, estão longe de ser na prática da maneira como são anunciados em teoria.

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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