Itália

O time da virada

Um mês atrás, o Milan vivia seu momento mais delicado na temporada. Jogando em San Siro, teve de se dar por satisfeito em empatar por 0 a 0 com um Bari que havia dominado a partida. Dias depois, perderia para o fraco Zürich pela Liga dos Campeões. Naquele momento, muita gente seria capaz de cravar que os dias de Leonardo no comando da equipe estavam contados. Somente uma sequência de bons resultados seria capaz de reverter o quadro – e foi justamente o que aconteceu.

Em um espaço de oito dias, o Milan venceu seus jogos contra Roma e Chievo pela Serie A, e neste intervalo alcançou a façanha de derrotar o Real Madrid em pleno Santiago Bernabéu, algo que nem os maiores esquadrões da história rossonera haviam conseguido. Há que se destacar ainda o fato de o time ter mostrado poder de reação nas três ocasiões, já que em todas foi para o intervalo em desvantagem e virou no segundo tempo.

O Milan cruza a metade do primeiro turno empatado com Palermo e Fiorentina na quarta posição. Desde a pré-temporada, com as modestas contratações feitas pelo clube, ficou claro que o objetivo seria a classificação para a Liga dos Campeões – se puder vir algo além disso, ótimo, mas do contrário a temporada não seria considerada um fracasso.

Neste momento, o time de Leonardo está a cinco pontos da vice-líder Sampdoria, que tem bons titulares, mas logo deve pagar a falta de elenco, e a três da Juventus, terceira colocada, que interrompeu uma série de quatro jogos sem vitória, mas permanece em declínio técnico e perdeu peças importantes por contusão.

Obviamente, vencer o Chievo no sufoco com um gol no último lance não é nada digno de entrar para a história. Até porque alguns problemas do início da temporada se repetiram: o desequilíbrio tático da equipe, a irregularidade de Pato, o brilho apenas esporádico de Ronaldinho, a total estranheza de Huntelaar ao jogo, entre outros pontos a corrigir.

O principal ponto positivo foi a dupla de responsáveis pela vitória. Alessandro Nesta, que pela primeira vez na carreira fez dois gols no mesmo jogo, foi recompensado por ser o principal jogador rossonero da temporada até o momento. O zagueiro esteve em campo durante todos os minutos da campanha na Serie A, depois de uma temporada quase inteira longe das quatro linhas por causa de problemas físicos. Não é exagero dizer que Nesta é o principal “reforço” do Milan, até por formar uma dupla respeitável com Thiago Silva, bem recuperado do vacilo na semana anterior contra a Roma.

O restante do mérito pela vitória vai para Dida, que teve uma semana difícil após a incrível falha em Madri, quando deu o primeiro gol de presente para Raúl. Com o placar em 1 a 1, em um dos últimos lances, o brasileiro fez uma defesa espetacular na cabeçada de Granoche, impedindo que o Milan fosse não o quarto colocado, mas o décimo-primeiro na tabela. Um lance digno dos tempos em que seu nome não era sinônimo de desastre.

Há, neste caso, um mérito importante de Leonardo. Sem grandes opções, já que Storari ficará um mês fora e Abbiati não tem data para voltar, o técnico brasileiro saiu em defesa do compatriota após o episódio no Bernabéu e chamou para si a responsabilidade, alegando ter pedido ao goleiro que se apressasse nas reposições.

Também existe um elemento importante sobre a personalidade de Dida, que nunca foi de demonstrar empolgação acima da média ou abalos excessivos. Com contrato terminando no fim da temporada, ele parece querer apenas encerrar de forma digna sua história no clube, que será mais lembrada pelas conquistas do que pelas falhas. Talvez por isso tenha fugido de seu padrão ao vibrar com a defesa decisiva diante do Chievo.

Dida não voltou a ser um goleiro impecável da noite para o dia, e nem o Milan corrigiu de repente todos os seus problemas. Mas a boa fase dos últimos dias é fundamental para dar tranquilidade ao ambiente em Milanello e transmitir confiança à comissão técnica e aos jogadores. Dentro desta realidade, mesmo sem se transformar em um grande time e com um técnico que passa fatura de sua inexperiência na função, o Milan pode pelo menos pensar em se fixar entre os quatro primeiros.

Bari impenetrável

Nem a Inter de Júlio César e Lúcio, nem a Juventus de Buffon e Cannavaro, nem o Milan de Nesta e Thiago Silva. A melhor defesa da Serie A é do Bari, da jovem dupla de zaga formada por Ranocchia e Bonucci, duas revelações da temporada até o momento. O time recém-promovido sofreu apenas cinco gols no campeonato, só perdeu uma vez, e em nenhuma ocasião levou mais de um gol na mesma partida. Está invicto fora de casa, incluindo empates com Inter e Milan.

A boa campanha é surpreendente para quem começou como candidato a lutar contra o rebaixamento – e ainda deve se considerar assim –, sobretudo pela turbulência vivida no pré-campeonato. O clube renovou o contrato do técnico Antonio Conte, artífice do acesso na última temporada, mas desavenças provocaram sua saída antes do início da Serie A. Foi contratado Giampiero Ventura, técnico rodado, mas sem histórico recente de grandes resultados.

Fora de campo, também havia motivos para preocupação. A venda anunciada para o empresário norte-americano Tim Barton não se concretizou por falta de pagamento de prazos. Isso depois de Barton desembarcar como messias na cidade do sul italiano, recebido como popstar pelos torcedores.

Nada disso tem afetado a equipe, que conta com jovens valorosos e surpreende pelo bom rendimento de jogadores que não conseguiram brilhar em passagens recentes por times da primeira divisão, como o brasileiro Barreto, o bielorrusso Kutuzov, o hondurenho Alvarez e o argentino Almirón. Assim, permanecer na elite se torna cada vez menos sonho e mais possibilidade concreta.

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Equipe Trivela

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