Itália

O primeiro passo

O problema dos estádios italianos é sempre colocado em pauta quando se discute a posição de inferioridade dos times da Serie A em relação aos de outros países, sobretudo a Inglaterra, evidanciada pelos recentes fracassos na Liga dos Campeões. Não é para menos: os campos são obsoletos, desconfortáveis para o público e incapazes de gerar receita para os clubes. O primeiro passo para reverter esta situação foi dado pela Juventus, que na última semana colocou em prática os planos de construção de seu novo estádio.

A futura casa da Juve ficará no lugar do Delle Alpi, atualmente em processo de demolição, e repetirá a fórmula de sucesso dos principais estádios europeus. Com capacidade para 40.200 torcedores, o estádio terá estacionamento subterrâneo para 4 mil veículos, centro comercial aberto sete dias por semana, com escritórios, lojas e restaurantes, cem camarotes VIP com televisores de plasma, bares e salas de estar.

A pista de atletismo, que deixava o público distante do campo e prejudicava a atmosfera no Delle Alpi, desaparecerá. A primeira fila de assentos ficará a 8 metros do gramado, contra 28 do antigo estádio. A previsão é de que as obras, previstas para iniciar em junho deste ano, sejam concluídas a tempo para a temporada 2011/12.

O custo total da construção está avaliado em € 155 milhões. E quem paga a conta, afinal? A primeira parte foi assegurada em um contrato com a agência Sportfive, que negociará os “naming rights”, direito cedido a uma empresa de dar seu nome ao estádio, como o Emirates do Arsenal ou a Allianz Arena de Munique. Isso garante à Juve um total de € 75 milhões (€ 6,25 milhões por ano) nas doze primeiras temporadas no estádio. Outros € 30 milhões foram assegurados no acordo com a empresa Nordiconad, que fará a exploração da área comercial.

Os € 50 milhões restantes chegaram na última sexta-feira, quando a Juventus obteve um empréstimo do Instituto para o Crédito Esportivo do governo italiano. O valor será pago ao longo de doze anos, após um período de pré-amortização de três anos. Foram oferecidos como garantias o próprio terreno do estádio, as rendas de jogos futuros e o contrato com a Sportfive. O acordo deve permitir que o estádio “se pague” com a receita que gerará ao longo das temporadas.

Se alguém duvida da importância que tem o dinheiro proveniente dos dias de jogos, basta ver a má posição dos times italianos no último levantamento da Deloitte sobre o faturamento dos clubes. Na “Money League” relativa à temporada 2007/08, nenhum time da Serie A ficou entre os sete mais ricos do mundo. O Milan é o oitavo colocado, seguido por Roma (9ª), Internazionale (10ª) e Juventus (11ª).

A receita de estádio do Milan ficou em € 26,7 milhões, a da Roma em € 23,4 milhões e a da Inter em € 28,4 milhões. Valores que superaram de longe os € 12,5 milhões obtidos pela Juventus no estádio Olímpico de Turim, sua casa provisória, mas nem se aproximaram dos clubes que ficaram à frente na Money League. Entre os sete primeiros, a menor receita foi a do Liverpool, com € 49,5 milhões, e a maior a do Manchester United, com € 128,2 milhões – mais de dez vezes mais que a Juve.

As presenças dos presidentes do comitê olímpico italiano, Gianni Petrucci, e da Lega Calcio, Antonio Matarrese, na cerimônia de apresentação do acordo entre a Juventus e o Crédito Esportivo mostram que a família do esporte na península vê no projeto do clube de Turim um exemplo a ser seguido no país.

Uma boa oportunidade foi perdida quando a violência das torcidas tirou da Itália a organização da Eurocopa de 2012, mas não tem de ser necessário aguardar que o país conquiste o direito de sediar o torneio em 2016 para agilizar a modernização necessária. Se o novo estádio da Juventus for um fato isolado, melhor para a Vecchia Signora. Caso venham outros a seguir, melhor para o futebol italiano.

Todos (ou nem todos) contra Mourinho

Já virou tradição: segunda-feira é dia de conferir a repercussão de alguma declaração polêmica concedida por José Mourinho no fim de semana. O técnico da Inter reconhece sua capacidade de mexer com o ambiente do futebol italiano e o faz de maneira sistemática.

Ainda que às vezes passe dos limites em suas declarações – como quando acusou jornalistas de “prostituição intelectual” após a polêmica arbitragem dos 3 a 3 contra a Roma – o português toca em algumas feridas que vários de seus colegas gostariam de deixar intactas.

No último domingo, sem citar nomes, Mourinho deu a entender que vários treinadores no futebol italiano permitem que o presidente do clube escale a equipe. Bastou para gerar uma verdadeira revolução entre os técnicos, com críticas incisivas como a de Massimiliano Allegri, do Cagliari, que considerou “patético” o comentário. Roberto Donadoni afirmou que Mourinho foi “pouco elegante” em suas declarações. O presidente da associação italiana de treinadores, Renzo Ulivieri, foi mais longe e disse que o português “fez fora do vaso”. Se nenhum deles foi mencionado, seria o caso de carapuças que serviram?

Houve também quem desse razão ao técnico de Setúbal, ainda que indiretamente. Nevio Orlandi, da Reggina, comentou: “Com o presidente se conversa, é o chefe da empresa. É preciso dar ouvidos, mas nada é imposto”. Gianni De Biasi, demitido do Torino em dezembro, acrescentou: “Às vezes acontece de um presidente te lembrar que um jogador em fim de contrato não quer renovar, e portanto é melhor não escalá-lo, mas isso não significa impor a escalação, faz parte da estratégia empresarial”.

Curiosamente, um dos maiores defensores do estilo Mourinho é um técnico que tinha tudo para se tornar seu desafeto. Mario Beretta, que iniciou a temporada no Lecce, foi chamado de “Barnetta” em tom de desdém pelo comandante nerazzurro. Depois eles se reencontraram e se tornaram amigos. É justamente Beretta, que recebeu um SMS de Mourinho após ser demitido do Lecce, quem resume a questão: “Ele diz coisas que muitos de nós gostariam de dizer, e que nunca foram ditas”.

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Equipe Trivela

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