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O futebol, a música e a busca pela felicidade, na caneta de Claudio Ranieri

Claudio Ranieri estava no meio da campanha fabulosa com o Leicester quando recebeu uma ligação. Era Andrea Bocelli. “Claudio, eu sinto alguma coisa”, disse o músico. “Quero ir aí e cantar alguma coisa. Quando pode ser?”. O técnico avaliou que 7 de maio, último dia da temporada, seria uma data apropriada. Seria um evento especial para os torcedores comemorarem um ano mágico, com título ou sem título. E, no fim, Andrea Bocelli acabou cantando ao lado do troféu da Premier League.

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A anedota combina com o texto que o técnico do Nantes publicou no Player’s Tribune, site que publica pensamentos, cartas e pensatas de personalidades do esporte. Porque nele, Ranieri explicou o quanto a música influência o seu trabalho. Acredita que são profissões parecidas na essência: o treinador, como o músico, precisa fazer com que os jogadores atuem em harmonia, como se fossem notas musicais.

“Eu sou da Itália”, escreveu Ranieri. “País de Vivaldi, Rossini, Puccini. Quando parei de jogar e me tornei treinador, o futebol tornou-se uma bonita peça de música para mim. E os jogadores, a orquestra. Eu não era mais um instrumento solitário no gramado. Eu não poderia mais olhar para um setor, ou uma nota. Não, não, não. Eu tinha que, de repente, observar tudo. Observar como certos jogadores poderiam se conectar, observar os pontos fortes, as técnicas. Eu aprendi que precisava ouvir… até tudo se reunir. Harmonia. E cada time, eu aprendi, tem o seu próprio… som”.

“Na Espanha, é dominação e posse de bola”, acrescentou. “Na Inglaterra, é mais físico, um estilo mais forte, com desarmes até o fim do jogo. Na Itália, é compactação e muita tática. E, claro, onde você estiver, é importante ter um artilheiro. Porque você consegue pontos. E quando você consegue pontos, os torcedores estão felizes. Quando os torcedores estão felizes, os jogadores estão felizes. Quando os jogadores estão felizes, tudo fica mais fácil. É harmonia. É felicidade. E este é o som mais bonito que você pode ouvir no gramado”.

O ponto central do texto de Ranieri é a felicidade. A busca por ela, pelo menos. O mais importante, para ele, é que todo mundo esteja feliz: jogadores, torcedores, todo mundo que gira em torno do treinador. Se você trabalhar muito duro e der muita sorte, você pode ter a oportunidade de fazer muitas pessoas felizes. Como Ranieri conseguiu no Leicester.

“Em fevereiro, não muito depois da minha demissão, tocaram a minha campainha. Minha mulher e eu vivíamos perto da cidade. Ano passado, quando vencemos o título, eu me lembro de uma grande multidão reunida fora de casa para comemorar. Torcedores na grama, cantando, torcendo”, escreveu. “Mas, quando eu abri a porta desta vez, eu vi algo diferente. Algo que eu nunca esperava. Uma multidão ainda maior do que a de quando vencemos o título. Trouxeram chocolate, champanhe, cartões – tudo! Choraram e me apoiaram. Foi um momento muito emocionante. Nunca vou esquecer o número de pessoas que vieram dizer adeus. Não são apenas os jogadores e os treinadores que fazem parte de algo bonito… são os torcedores também. E o povo de Leicester, eu quero agradecê-lo. Vocês me fizeram um homem muito feliz”.

Ranieri contou que o que o atraiu para o Nantes foi a oportunidade de, mais uma vez, construir algo muito bonito, embora faça a ressalva de que os dois clubes têm duas histórias muito diferentes. “Teremos mais concertos? Eu não sei. Eu quero que os torcedores do Nantes saibam que eu vou tentar muito para fazê-los felizes. O que eu posso prometer é o mesmo que prometi ao Leicester. Não vou prometer um milagre. Não vou prometer um sonho. Eu simplesmente prometo trabalhar duro. Em 44 anos de futebol, este é o único segredo que eu conheço. A única coisa que eu posso garantir”, encerrou.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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