Itália

O filme de Baggio não faz (e jamais faria) justiça ao jogador

Lançado pela Netflix, "Il Divin Codino" leva para a tela a história de Roberto Baggio - contada a partir de seus dramas e suas superações

Quando se fala em Roberto Baggio, o público brasileiro logo lembra da icônica frase talhada de maneira emocional por Galvão Bueno, ao vivo na transmissão da Globo na final da Copa do Mundo de 1994. “PRA FORAAAA! ACABOU! É TETRA!” Parece óbvio dizer que houve muito mais na carreira do atacante do que aquele fatídico pênalti cobrado bem perto do sol no Rose Bowl, em Pasadena. Para dar o devido peso ao início e ao fim da história de uma carreira brilhante e marcada por um fracasso capital, o filme “Il Divin Codino” foi lançado, neste mês, na Netflix.

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A questão é que, para falar de um jogador de tamanha estatura, muitos dos seus fãs ou curiosos sobre a sua vida, o mais apropriado seria um documentário, com falas ricas e depoimentos de quem conviveu com Baggio. No entanto, a produção foi dramatizada e encenada de maneira caprichosa, com atenção aos detalhes da época (o recorte começa nos anos 1980 e vai até 2002). Assim sendo, vemos figuras bastante parecidas com os personagens originais, mas sem aquele viés de contar a verdade, apenas a verdade e somente a verdade. Mas vamos pensar nisso: será que uma lenda dessa magnitude merecia apenas relatos planos sobre sua jornada?

Jornada. Na vida de um budista convertido como Roby, essa palavra tem uma importância enorme. No momento mais complicado de sua biografia, Baggio, lesionado e com sua carreira em xeque, se viu no caminho do budismo para encontrar respostas e força. E seguiu, como se sabe, retomando uma trajetória que parecia fadada ao esquecimento, uma vez que médicos davam como certa a sua aposentadoria precoce. Baggio não se rendeu e foi confrontado com as próprias dúvidas para completar sua saga.

O filme não fala sobre futebol, não se engane. É sobre seres humanos e as relações que nós cultivamos ao longo dos anos. Somos suscetíveis a falhas e equívocos. Baggio, por sinal, tem sua vida de certa forma achatada pelo erro em 1994, embora seja visível o esforço para dar a volta por cima disso. A carreira dele nunca mais foi a mesma, o que não quer dizer que o camisa 10 não tenha sido genial até a aposentadoria pelo Brescia.

Para quem não conhece os caminhos que Roby tomou nos 10 anos seguintes ao vice-campeonato mundial, o filme talvez não esclareça como as coisas se deram. E essa é a grande crítica às escolhas do roteiro. Buracos temporais deixam perguntas importantes sobre as decisões de Baggio e suas passagens por Juventus, Milan, Bologna e Internazionale. Decisão do próprio Baggio? Nunca saberemos.

Mais grave: omite-se a participação dele nas Copas de 1990 e 1998, que poderiam ter servido para passar uma imagem mais condizente com o talento do atleta, que colaborou diretamente nas duas outras campanhas. Em virtude desses cortes, a tal impressão de que a carreira de Baggio é resumida ao pênalti só cresce, quando pensamos nas implicações do campo e bola. Nesse ponto, quem viu o suficiente dele em campo sabe que é uma missão impossível.

Por outro lado, quem é fã do italiano deve ter enchido os olhos com as fiéis reproduções das passagens por Fiorentina, Seleção Italiana e Brescia. Além, claro, de ter uma ênfase na religiosidade de Roby e na forma como ele era cercado de sua família. O pai tem um papel fundamental, nem sempre positivo, no amadurecimento do protagonista. Como muitos de nós. Por vezes, a sensação de que toda aquela magia foi uma resposta a estímulos paternos se confundiu com a necessidade de causar orgulho.

Seja por prometer dar a Copa ao pai (alô, Pelé!), seja por querer realizar o sonho de 11 entre 10 crianças, Roby chegou muito perto do seu objetivo. Perto nem sempre é aceitável, o que pode gerar frustração em qualquer um, sobretudo quando se fala em um sentimento compartilhado com outras milhões de pessoas. A Copa do Mundo, bem como as lesões, trazem uma dose cavalar de tristeza e drama ao filme, já que representam dois pontos de inflexão da narrativa. Ainda que Baggio estivesse em boa forma, suficiente para receber uma última convocação para 2002, o convite não veio. Sente-se bastante, pela tela, o sofrimento por conta da lesão meses antes do Mundial da Coreia e do Japão.

O Baggio no auge, que carregou a Itália em 1994, mesmo com problemas físicos, é o momento mais cativante da trama. Pelas cenas reproduzidas dos jogos e pela nostalgia causada pelas imagens, talvez seja o trecho em que mais se exalta o poder de decisão do craque, uma palhinha do que gostaríamos de ter visto. Chega a causar um pouco de expectativa por um desfecho diferente ao que conhecemos.

O foco narrativo, porém, fica no gosto amargo das derrotas e na forma como Roby reage a elas, lutando com todas as suas forças e teimosias, contrariando quem quer que se colocasse no caminho. Nem mesmo a família Baggio entendia ao certo a obstinação, mas quem é que entende quando colocamos algo na cabeça, de fato?

Grandes vencedores um dia ou outro perderam e experimentaram duras derrotas. E nelas forjaram seu caráter. Temos Roberto Baggio, uma estrela mundial, e uma história que finalmente foi contada por completo. Houve começo, meio e fim. Um roteiro que tem seus defeitos, mas prima pela linearidade e por dar peso a detalhes que o mundo talvez não conhecesse sobre essa figura cativante de rabo de cavalo. Não há nada como ser peculiar. Nesse quesito, Baggio segue sendo um dos melhores do mundo.

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Felipe Portes

Felipe Portes é editor-chefe da Revista Relvado, zagueiro ocasional, ex-jornalista, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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