Itália

“Novo Cavani”, Benítez terá trabalho para remontar Napoli

“O novo Cavani? É Benítez”. Foi assim que o presidente Aurelio De Laurentiis respondeu aos questionamentos sobre qual jogador o clube contrataria para substituir o uruguaio Cavani, negociado por 64 milhões de euros com o Paris Saint-Germain. A aposta do presidente do clube azzurro, é bom dizer, é das mais altas.

Não há dúvidas de que o Matador deixará um espaço vago em Nápoles. Desde Maradona, nenhum outro jogador fez tanto sucesso pelo clube partenopeu quanto o uruguaio. Cavani é o terceiro maior artilheiro da história do Napoli, com 104 gols (11 a menos que Maradona). Porém, disputou apenas três temporadas em Nápoles e tem a maior média de gols pelo clube na história. Ano passado, fez um gol a cada 103 minutos – Falcao García fez um a cada 104. Será muito difícil substituir o artilheiro da última Serie A.

Vender Cavani é vender a certeza de 30 gols por temporada. É vender o melhor atacante em atividade no país e um dos melhores em atividade no futebol mundial. E é também abrir mão de um jogador que corre muito durante os 90 minutos, que ajuda frequentemente a defesa, realizando o trabalho de cobertura, e que puxa contra-ataques. Em suma, o centro de ações de todo o time.

O tridente napolitano, que fez sucesso entre 2010 e 2012, e contava com Cavani, Hamsík e Lavezzi, foi desfeito na início da última campanha, quando o Pocho deixou o clube rumo ao PSG, onde irá reencontrar com Cavani. A saída do argentino não chegou a ser tão sentida, porque Pandev e Insigne assumiram a responsabilidade e cumpriram bem o papel que ele ocupava no time de Mazzarri.

Lavezzi, porém, não é um jogador tão especial quanto Cavani e nunca teve o mesmo status de salvador da pátria. A saída do Matador é, principalmente, um golpe na idolatria do torcedor azzurro: fanáticos, os napolitanos criaram até mesmo uma espécie de religião para o ídolo, conhecida como “Cavanismo”. O próprio presidente De Laurentiis declarou que a partida de “Edi” foi mais importante que a de Lavezzi.

Com Rafa Benítez, o time parte praticamente do zero. A troca de treinador já era esperada e foi anunciada logo ao fim do campeonato. Mazzarri, que ficou quatro anos em Nápoles, construiu um time de forte identidade dentro de campo, cujo futebol não se assemelha ao de Benítez – os treinamentos, idem. O esquema tático do espanhol, provavelmente um 4-2-3-1 centrado na posse de bola, em nada se assemelha ao 3-5-2 mazzarriano, cujas grandes virtudes eram tocar a bola com rapidez e o avanço de jogadores pelos flancos, com o apoio de Hamsík no meio. Aliás, o eslovaco será o ponto de referência da equipe e é o elo de ligação entre os dois times.

Porém, por mais virtuoso que seja o meia eslovaco, este Napoli terá de engrenar. Paolo Cannavaro e Gamberini não jogam em uma defesa em linha de quatro há cerca de quatro anos, enquanto Maggio, Armero e Zúñiga, os laterais da equipe, estão longe de serem os mais adequados à uma zaga neste sistema. No meio-campo, Inler pode ser muito útil (assim como Behrami e Gargano, que retorna de empréstimo à Inter. Mais à frente, a linha de três promete ser insinuante, com Hamsík, Insigne, Pandev e, claro, com um grande reforço: o belga Mertens, contratado junto ao PSV. Callejón, contratado ao Real Madrid, também deve ser importante, apesar do preço salgado que o clube pagou por ele – cerca de 10 milhões de euros.

Na Inter, Benítez sucumbiu justamente por tentar impor seu estilo de jogo de cima para baixo, sem ouvir os jogadores. Desta vez, o técnico provavelmente está motivado após uma boa passagem no Chelsea, a despeito do ódio nutrido pelos torcedores dos Blues a sua figura e do fato de ter sido substituído pelo desafeto José Mourinho.

Por um lado, Benítez chega a um Napol que terá de se reinventar e deixar o passado de lado para evoluir: um Napoli com trabalho concluído por Mazzarri, mas sem tantos pontos de referência. Foi nesse tipo de ambiente que o espanhol teve sucesso no Liverpool e em um ambiente similar, mas mais emergencial, que sanou alguns problemas no Chelsea. Portanto, Benítez ter liberdade para agir no mercado e é justamente aí que mora o problema: Benítez sempre foi conhecido por não poupar esforços (e dinheiro) para contratar os jogadores que deseja. E também por montar uma colônia espanhola, se for atendido. Na Inter e no Chelsea, ele nunca teve carta branca para contratar quem quisesse, ao contrário de seu trabalho no Liverpool.

De acordo com dados do site Transfermarkt, especializado em negócios de jogadores, cerca de 42 milhões de euros já foram gastos pelo Napoli nesta janela de transferências. Valores que, certamente, foram desembolsados já contando com a venda do Matador e mais outros 60 milhões que De Laurentiis colocou à disposição para investimentos na temporada – investimentos que podem incluir a compra do estádio San Paolo por parte do Napoli, o que seria uma grande notícia para os azzurri.

Pouco menos de 7 milhões foram gastos para contratar em definitivo Armero, Calaiò e Radosevic, que estavam emprestados. Mertens, um dos maiores destaques da seleção belga, do PSV e do Campeonato Holandês, custou 9,7 milhões, enquanto Callejón, reserva no Real Madrid de Mourinho, custou 9,5. Benítez orientou o gasto de 12 milhões para contratar o zagueiro Albiol, que também era reserva em Madrid, em um negócio pouco digerível, de tão salgado. O clube que desembolsou 5 milhões de euros pelo goleiro Rafael, do Santos, também está muito perto de fechar com Júlio César, que seria uma espécie de tutor para o jovem brasileiro. Muito experiente, De Sanctis seria negociado. Confusão demais para um dos setores em que o elenco está coberto com maior tranquilidade.

Callejón, em sua apresentação, falou que seu objetivo na temporada é marcar pelo menos 20 gols. Algo pouco provável para quem marcou 20 em dois anos no Real Madrid, em um Campeonato Espanhol no qual a preocupação com a defesa é inferior a que se tem na Serie A. Por enquanto, a temporada napolitana está começando com muitas incertezas, que podem até mesmo ser chamadas de ilusões, tal qual o sonho do atacante madrilenho.

A diretoria, que já perdeu Icardi para a Inter e Gómez para a Fiorentina, precisará agir logo para trazer um jogador que trabalhe com o novo técnico já na primeira parte da pré-temporada. Contratar um novo Cavani será impossível, pelos motivos já citados, e tem faltado mais visão aos azzurri. Afinal, Leandro Damião e Matri, os nomes mais falados para substituírem o uruguaio, não parecem os nomes mais indicados para uma missão que pode se revelar impossível. Muito menos indicados ainda são jogadores espanhois e medianos, contratados por pequenas fortunas, como quer Benítez. Higuaín, sim, outro alvo declarado dos partenopei, pode ser o nome mais indicado no mercado para tentar o torcedor superar a perda do ídolo.

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