Itália

No embalo da Viola

Stevan Jovetic chegou à Fiorentina sob olhares de desconfiança no começo da temporada. Afinal de contas, o clube havia desembolsado € 8 milhões para contratar um jogador montenegrino de 18 anos que despontava como promessa no Partizan. Em resumo, uma incógnita.

Os primeiros meses deram a impressão de que a aposta havia sido arriscada demais. Jovetic mal era aproveitado pelo técnico Cesare Prandelli, e quando tinha a chance de jogar alternava altos e baixos. Não fazia o suficiente para justificar uma sequência de partidas para se firmar na equipe.

Hoje, o cenário é totalmente diferente. Jovetic é o símbolo de uma Fiorentina que arrancou de forma tão impressionante que não apenas superou o Genoa na corrida pela quarta vaga na Liga dos Campeões, como também é capaz de desafiar a Juventus na briga pelo terceiro lugar, que vale o acesso direto à fase de grupos.

Restando três rodadas, a Viola tem três pontos de vantagem sobre o Genoa – a mesma diferença que a Juve tem a seu favor na terceira colocação. Igualar a pontuação da Vecchia Signora não é suficiente, já que o confronto direto favorece os bianconeri, mas o momento atual das duas equipes, tanto técnico quanto de ambiente, permite pelo menos sonhar.

Enquanto a Juventus completou seis partidas sem vencer no empate por 1 a 1 com o Milan, a Fiorentina foi a Catania e venceu por 2 a 0, somando sua sexta vitória nas últimas sete rodadas.

A vaga direta nos grupos da LC faz muita diferença. Disputar a fase preliminar obriga o time a jogar partidas decisivas logo no início da temporada, o que muda completamente o ritmo da preparação e pode trazer consequências mais adiante.

Além disso, para 2009/10, uma mudança promovida pela Uefa dividiu as fases preliminares entre os times classificados como campeões e os classificados em posições secundárias. Serão apenas cinco vagas em jogo entre times das 15 principais ligas do continente, o que levanta a possibilidade de um confronto complicado para o representante italiano.

A prudência recomenda que a Fiorentina se preocupe primeiro com o Genoa, mas os Grifoni parecem ter perdido fôlego nos momentos decisivos. Apenas uma vitória nas últimas quatro rodadas, justamente no dérbi com a Sampdoria, uma ocasião peculiar em que os jogadores se superam em campo.

Os jogos que faltam à Fiorentina são contra Sampdoria (casa), Lecce (fora) e Milan (casa). Apenas o Lecce ainda tem objetivos no campeonato – a não ser que alguém mais otimista acredite que a Inter deixará o Milan vivo até a última rodada. O Genoa, por sua vez, pega Chievo (casa), Torino (fora) e Lecce (casa), todos com possibilidades de rebaixamento.

Nesse aspecto, a Juventus pode se considerar mais tranquila, já que enfrenta Atalanta (casa), Siena (fora) e Lazio (casa). Só que o problema do time de Turim, como abordado por esta coluna em sua última edição, não têm sido tanto os adversários e sim o clima delicado no vestiário, com as divisões no elenco e a incerteza sobre o futuro de Claudio Ranieri. A perda de pontos contra adversários mais fracos se tornou uma constante nos últimos tempos.

Voltando à Fiorentina, há um pouco de acaso no subida de produção da equipe. Em fevereiro, o time sofreu a baixa do meia argentino Mario Santana, que se lesionou e foi vetado para o restante da temporada. Jovetic até ganhou nova chance e foi testado como “trequartista” no esquema 4-3-1-2, mas ainda não foi desta vez que ele rendeu o esperado. A reviravolta só chegou mesmo em abril, quando Adrian Mutu teve de ser operado no joelho.

Sem o romeno, Prandelli decidiu mudar a maneira de jogar da equipe. Em vez de três volantes, com um mais recuado, apostou em dois homens à frente da defesa, recuando Montolivo para atuar ao lado de Felipe Melo, e em uma linha de três no apoio a Gilardino, atacante isolado.

A principal novidade era a escalação do peruano Vargas como externo pela esquerda. O sul-americano vinha sendo uma decepção como lateral-esquerdo desde sua transferência do Catania, mas na nova função pôde mostrar suas habilidades ofensivas, chegando a marcar gols importantes como o da vitória por 1 a 0 sobre o Torino e o primeiro da goleada de 4 a 1 sobre a Roma.

No centro do trio armador, entrou Jovetic – enfim na mesma função que executa na seleção de Montenegro, apoiando um homem de frente (no caso, Vucinic). A posição lhe permitiu mostrar o futebol que estava meio escondido desde a chegada à Itália, a ponto de muitos afirmarem que ele e o milanista Pato são os principais talentos nascidos em 1989 na Serie A.

A participação de Gilardino no novo esquema também tem se mostrado interessante. Apesar de ter reduzido sua produção ofensiva em termos de gols, ele se envolve mais nas tramas ofensivas, abrindo espaços para os companheiros e chamando a marcação.

Vale destacar, ainda, o crescimento de Gamberini na zaga. Aos 27 anos, ele parece maduro não apenas para um clube maior, como também para se firmar na seleção italiana. Mantendo este nível, será surpresa não vê-lo entre os convocados de Marcello Lippi para a Copa do Mundo de 2010.

O novo esquema tem dado tão certo que é inevitável a dúvida sobre como funcionará quando Mutu retornar. Sacar Gilardino do time não parece ser uma opção, e nem seria justo com o ex-rossonero. Jovetic, em franca ascensão, muito menos.

O romeno passaria a ser, então, uma importante peça de mercado com vistas à participação na LC. A pedida de € 20 milhões, considerando seus 30 anos, pode parecer um pouco alta, mas não é impossível que algum clube chegue a este valor, o que ajudaria a direção a fazer investimentos pontuais no elenco para a próxima temporada.

Contratar um lateral-direito, por exemplo, é primordial. Não por acaso o diretor esportivo Pantaleo Corvino viajou ao Brasil para observar jogadores, com atenção especial a Jonathan, do Cruzeiro. A outra necessidade é buscar mais um jogador para atuar tanto pelos lados do ataque quanto como opção a Gilardino no caso de ausência do centroavante. Pandev, da Lazio, é um nome em pauta.

Caso confirme a classificação, a Fiorentina entrará na LC fortalecida por seu bom final de temporada, e também com as lições deixadas por sua última participação, quando aprendeu que não pode falhar contra times mais experientes no cenário internacional, como Bayern de Munique e Lyon.

Campeã sem vibração

A comemoração do título da Inter ficou adiada pelo menos até o próximo fim de semana. No empate por 2 a 2 com o Chievo, ficou mais uma vez claro o quanto o time se torna previsível quando não pode contar com Ibrahimovic e Maicon, dois de seus três pilares na temporada (o outro é Júlio César).

O que mais preocupa, no entanto, é ver como a tensão tem tomado conta do elenco nerazzurro nas últimas semanas. Primeiro, foi Ibrahimovic mandando os próprios torcedores da Inter se calarem após marcar contra a Lazio. No jogo em Verona, Balotelli marcou e não se deu nem ao trabalho de comemorar aquele que poderia ter sido o gol do título. Um golaço, por sinal.

É como se as polêmicas sobre o futuro do sueco (que estava em seu país no dia em que o time podia ser campeão) e a perseguição dos torcedores adversários ao jovem atacante italiano fossem superiores ao impressionante feito que está por vir – o quarto scudetto consecutivo, algo que remete ao Grande Torino desaparecido seis décadas atrás.

Certamente um pouco de alegria e leveza nas atitudes do time não deixaria a impressão de relaxamento. A incrível perda do título de 2002 na última rodada pode ser um trauma para os torcedores do clube, mas a maioria dos jogadores do elenco atual não estava lá.

O scudetto não foi garantido no domingo, mas poderá ser no próximo, finalmente diante do público de San Siro. Em 2006, não houve comemoração e nem havia motivos para isso, já que foi um título que caiu no colo pelas punições do Calciocaos. Nos dois anos seguintes, os jogos que decidiram o título a favor da Inter foram longe de Milão, contra Siena e Parma, respectivamente.

Basta vencer o Siena no domingo. Ou nem será necessário, se o Milan perder para a Udinese no sábado. De um jeito ou de outro, a festa está pronta. Resta saber se alguns jogadores querem mesmo festejar ou têm outras preocupações.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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