Itália

Nem tão santos assim

A Internazionale não fez festa aberta para comemorar o título herdado em 2006 após as punições a Juventus e Milan pelo “CalcioCaos” estabelecido pelo escândalo de manipulação de resultados que explodiu naquele ano. Mas seus dirigentes sempre gostaram de destacar o fato de não terem se envolvido nos esquemas. Ficou famosa uma declaração de Massimo Moratti afirmando que aquele era o “scudetto dos honestos”.

Pois bem. Luciano Moggi, o então dirigente juventino que ficou marcado como pivô de um complexo sistema para influenciar o trabalho dos árbitros, está sendo submetido a um processo civil em Nápoles. E nos últimos dias, seus advogados levaram à tona transcrições de conversas telefônicas que foram ignoradas nas investigações de 2006, por serem consideradas irrelevantes na época. Nelas, o então presidente da Inter, Giacinto Facchetti (morto em setembro de 2006), e Moratti, proprietário do clube, conversam com Paolo Bergamo, que dividia com Pierluigi Pairetto a responsabilidade de escolher os juízes.

As conversas em questão tiveram lugar antes e depois da partida entre Inter e Sampdoria, dia 9 de janeiro de 2005, em San Siro. Na ocasião, os nerazzurri alcançaram uma impressionante virada nos minutos finais, marcando três vezes após os 43 do segundo tempo para vencer por 3 a 2. O árbitro Paolo Bertini levou a partida até os 50 minutos. Veja o vídeo abaixo.

Facchetti fala com Bergamo antes da partida para dizer que seus jogadores foram orientados a respeitar Bertini dentro de campo. Algumas respostas do designador de árbitros são, no mínimo, intrigantes.

Facchetti: “Alô, Paolo, aqui é Facchetti”.
Bergamo: “Bom dia, Giacinto”.
Facchetti: “Estou indo para o estádio, disse aos meus que tenham com Bertini um certo tato, uma certa disponibilidade. Disse aos jogadores, a (Roberto) Mancini e os demais”.
Bergamo: “Você verá que será uma bela partida”
Facchetti: “Tudo bem”
Bergamo: “Ele (Bertini) vai predisposto a fazer uma bela partida”
Facchetti: “Sim, sim, tudo bem”.
Bergamo: “É uma partida que você verá que venceremos juntos”
Facchetti: “Só queria dizer que o fiz” (refere-se ao fato de ter conversado com o time sobre a arbitragem)
Bergamo: “Você verá que as coisas irão no caminho certo. Além disso o time está voltando a ter confiança, a fazer os resultados. Dá moral…”

Um dia depois da emocionante partida, é Bergamo quem toma a iniciativa de ligar para Moratti. E o dirigente interista afirma que já pensava em telefonar para elogiar a arbitragem de Bertini.

Bergamo: “Presidente Moratti, aqui é Bergamo”
Moratti: “Queria te ligar para dizer que esse rapaz (Bertini) se comportou muito bem durante a partida, que poderia terminar em uma confusão bem grave…”
Bergamo: “Inter x Sampdoria tinha se tornado o mais difícil, também trabalharam bem os assistentes”.
Moratti: “Eu disse a eles no final, muito bons, porque por duas vezes… foram muito bem em marcá-los, como conseguem marcá-los… eles até me franziram o olho”
Bergamo: “Vamos ver se vocês completam dez jogos pontuando, hein?”
Moratti: “Pensei em ligar ontem à noite porque fui até o garoto (Bertini); depois de ir até ele, que se comportou muito bem, eu lembrei que era domingo e que você sempre recebe as ligações de quem está contente e de quem não está…”

No mesmo dia, eles conversam sobre a indicação de árbitros para um jogo da Copa da Itália entre Inter e Bologna. Moratti é incentivado a cumprimentar o árbitro antes da partida.

Bergamo: “Falei com Facchetti, presidente, para confirmar o clima de cordialidade que naturalmente é uma coisa que sabemos eu e você. O grupo apreciou o trabalho que fizemos com Gabriele e Palanca, e pensei em fazê-los voltar na Copa da Itália, um faz a Inter e o outro o Milan”.
Moratti: “Tudo bem…”
Bergamo: “Queríamos passar uma imagem boa…”
Moratti: “Sim, sim”
Bergamo: “Facchetti já me disse que sim, está de acordo”
Moratti: “Tudo bem, quarta-feira irei encontrá-lo antes da partida”.
Bergamo: “Ele ficará feliz”
Moratti: “Vou cumprimentá-lo…”
Bergamo: “Já que não é sorteio, e sim designação, para vocês mandei Gabriele, acompanhado por dois assistentes muito bons”
Moratti: “Gabriele sempre foi um bom árbitro, muito regular, nunca tive reclamações…”
Bergamo: “Um cumprimento, você verá, o encherá de alegria”
Moratti: “Agradeço, quarta-feira estarei lá embaixo se houver necessidade, vou encontrá-lo antes da partida”.

É óbvio que as conversas não deixam clara qualquer tentativa de manipular o trabalho dos árbitros, e são uma gota d’água perto do sistema Moggi.

Aliás, é forte o argumento de que era praxe de vários clubes – não apenas o que acabaram punidos em 2006 – conversar com os responsáveis pela arbitragem, nem que fosse para “se defender” do esquema vigente, que não era declarado, mas era evidente para muitos.

De qualquer maneira, a Inter nunca havia admitido a existência de tais conversas, mesmo que Bertini tenha declarado em várias oportunidades que elas aconteceram. O tom amigável não pode encobrir o fato de as ligações serem, na pior das hipóteses, inoportunas.

É inevitável questionar se a pressa em punir os envolvidos não tenha provocado uma certa precipitação ao atribuir o título de 2006 à Inter, ao contrário do que ocorreu com o scudetto de 2005, retirado da Juventus e mantido vago. A polêmica é ainda maior pelo fato de Guido Rossi, nomeado comissário extraordinário da federação italiana (FIGC) em 2006, ter feito parte do conselho administrativo da Inter anteriormente.

No próximo dia 13, o tribunal de Nápoles decidirá se as transcrições das conversas antes ignoradas poderão fazer parte do processo. A ideia dos advogados de Moggi é provar a praxe das conversas entre dirigentes e o chefe de arbitragem. O ex-dirigente juventino defende a tese de que são todos inocentes – quando na verdade muito mais gente do que se pensava tem culpa no cartório.

A publicação das conversas de Moratti e Facchetti com Bergamo foram recebidas com especial curiosidade pela torcida da Juventus, que viu seu time passar pela Serie B e ainda sofre para voltar a ter uma equipe competitiva. Enquanto isso, a Inter ainda desfruta da supremacia que a desgraça dos rivais ajudou a criar.

Será possível uma reviravolta na justiça desportiva? É cedo para dizer. Só o que fica claro é que ainda há muito por debaixo dos panos.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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