Itália

Napoli: o trem da vergonha

O Napoli tinha motivos para se orgulhar de seu começo de temporada. Conquistou, via Intertoto, seu retorno às competições européias depois de 14 anos. Na primeira rodada da Série A, encarou a Roma de cabeça erguida em pleno estádio Olímpico e arrancou um empate por 1 a 1, mesmo com um jogador a menos. No final da partida, o presidente Aurelio De Laurentiis era a imagem da satisfação. Não se esqueceu nem mesmo de destacar a chegada de um grande grupo de torcedores da equipe no meio do segundo tempo.

De Laurentiis só não sabia, ainda, que aquele bando havia sido causador de mais uma das cenas que insistem em envergonhar e manchar o futebol italiano. Cerca de 1.000 torcedores sem passagens invadiram a estação de Nápoles, passando pela equipe de policiais e seguranças, e tomaram um trem que tinha destino a Turim, passando por Roma. Foi inútil a reação dos funcionários da estação. Quatro deles sofreram agressões dos vândalos, que provocaram pânico entre os passageiros comuns, obrigados a descer do trem e perder horas de suas viagens programadas. O efeito cascata foi inevitável, e milhares de italianos foram prejudicados no final das férias de verão. Os cidadãos viraram reféns.

Talvez por temor da polícia de uma tragédia em caso de confronto, os torcedores foram transportados até Roma sem pagar passagem. Nada diferente poderia se esperar de animais deste calibre. Rosto coberto, palavras de ordem, armas na mão. Os danos nos trens foram calculados em nada menos que € 500 mil. Já na capital, mais vandalismo, desta vez nos ônibus que pegaram ao estádio Olímpico. Dos 39, 20 foram depredados, provocando prejuízo de € 60 mil. Quem vai pagar a conta? Gente de bem, provavelmente. E os cinco marginais presos já foram liberados.

Não era por acaso que, na última temporada, o observatório do governo sobre as manifestações esportivas se reunia semanalmente para discutir quais eram os jogos de risco e que medidas deveriam ser adotadas para cada um deles. A temporada 2008/9 começou com outra abordagem, prometendo dar mais espaço ao diálogo. Uma tática que não funciona com este tipo de gente. É preciso que o mal da torcida organizada se corte pela raiz, como a Inglaterra fez com sucesso.

A torcida do Napoli provavelmente será impedida de acompanhar o time nos jogos fora de casa, por um determinado número de rodadas ou até pelo restante da temporada. Não é descartado que o time seja obrigado a fazer um ou dois jogos com portões fechados. A pena seria severa com uma das torcidas mais apaixonadas e impressionantes da Itália, capaz de lotar o San Paolo para um jogo de fase preliminar da Copa Uefa contra um time da Albânia, depois de uma vitória por 3 a 0 no jogo de ida.

De Laurentiis, ao perceber quem havia elogiado, mostrou um óbvio arrependimento. Fez questão de condenar publicamente os incidentes. Teve a atitude que se espera de um dirigente de postura firme e que não se une a delinqüentes por medo ou conveniência. O ideal seria que partisse da maioria da torcida este tipo de condenação.

Pior de tudo é saber que eventos do tipo ainda devem ajudar a alimentar o ódio regional, como o que levou torcedores da Inter a exibir uma faixa chamando Nápoles de “chiqueiro da Itália” na temporada passada.

Acima de tudo isso, é necessária uma reflexão importante: o fato de ninguém ter morrido desta vez, como morreu o policial Raciti em Catania há um ano e meio, é pura sorte. Só a indignação não basta mais. Entre correr este risco e esvaziar os estádios, enquanto não se encontrar uma solução mais efetiva, é melhor a segunda opção.

Em campo…

Primeira rodada sem vitórias de Inter, Milan ou Juventus? Não acontecia desde a temporada 1984/85, quando os primeiros líderes foram Fiorentina, Sampdoria, Torino e Verona. Se juntarmos à conta Roma e Fiorentina, é preciso voltar até a temporada 1936/37, quando venceram na estréia Bologna, Genoa, Lazio, Sampierdarenese e Triestina. A referência histórica vale para ressaltar o quanto foi incomum este início de campeonato.

A primeira a entrar em campo foi a Inter, na apresentação de José Mourinho à Série A. A Sampdoria se mostrou adversária temível, dominou a partida no segundo tempo e poderia se considerar recompensada se tivesse chegado ao gol da virada. Os ‘nerazzurri’ ainda carecem de adaptação ao módulo 4-3-3 de Mourinho, e a emergência na defesa que obriga Cambiasso a jogar como zagueiro certamente não ajuda. Não que ele esteja mal na função – pelo contrário, tem se saído bem –, mas sua ausência no meio-campo é sentida.

A chegada de Quaresma é fundamental para a Inter, já que Figo não tem fôlego suficiente para justificar uma posição de titular.

No domingo, o Milan estreava cercado de expectativas, mas se viu frustrado por um veloz e valente Bologna, que soube aproveitar metade das quatro oportunidades que criou e saiu vitorioso de San Siro. Fica como nota positiva a boa atuação de Ronaldinho, autor do cruzamento para o gol de Ambrosini. Há atenuantes para o resultado, como a ausência de Kaká e o fato de ter entrado em campo uma formação que poucas vezes treinou junta.

Não se constrói um time apenas com boas individualidades, é preciso que elas saibam como trabalhar a serviço da equipe. A pausa para os jogos de seleções será fundamental.

No empate por 1 a 1 entre Roma e Napoli, ficou evidente o amadurecimento de Aquilani, não apenas pelo gol, mas pela boa atuação. É um jogador que a Roma precisa lutar para segurar e fazer com que se torne um símbolo, como Totti e mais recentemente De Rossi. De qualquer forma, os giallorossi deixaram o campo com uma pulga atrás da orelha. O time ainda não tem a mesma velocidade e fluidez da última temporada, e o técnico Spalletti parece ter virado refém de apenas um esquema tático.

O 4-2-3-1 funcionava perfeitamente com Mancini e Taddei pelas alas e Totti (ou Vucinic) atuando na frente. Agora, Mancini foi embora, Taddei está lesionado e não se sabe quando volta, e Totti ainda não recuperou completamente a condição física. É preciso encontrar variações para que os jogadores se encaixem, e não o contrário. Júlio Baptista como ala-esquerda foi uma solução infeliz.

Na noite de domingo, Fiorentina e Juventus fizeram o melhor jogo da rodada. Não foi por acaso, e sim porque ambos estavam mais adiantados na preparação, em virtude das preliminares da Liga dos Campeões. Ritmo mais forte em relação aos outros jogos do fim de semana, e um final emocionante, com Gilardino marcando um gol a seu estilo, recebendo de costas para o gol e girando sobre a marcação. Naquela altura, a Juve só precisava administrar a vantagem construída no primeiro tempo com Nedved, já que tinha um homem a mais depois da expulsão de Felipe Melo.

Melhor ainda foi ver as duas diretorias juntas nas tribunas do estádio Artemio Franchi, em um jogo de reconhecida rivalidade. É a partir de exemplos assim que se constrói uma nova mentalidade. Ainda que leve tempo.

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Equipe Trivela

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