Milan: crise logo no início da temporada

Não acontecia desde 1986. Depois de duas rodadas na Série A, o Milan se vê no fundo da tabela, sem pontuar. Na ocasião, foram Ascoli e Verona a bater o time rossonero, que iniciava sua primeira temporada completa sob a gestão de Silvio Berlusconi. Desta vez, os responsáveis por deixar o Milan a seco são Bologna e Genoa. Algo preocupante para quem começou a temporada fora da Liga dos Campeões e dando prioridade à conquista do ‘scudetto’.
Se no revés caseiro contra o Bologna era possível argumentar que a equipe não fez uma partida ruim, mas foi traída pela sorte e pelo fato de os visitantes terem marcado duas vezes em quatro ataques, a mesma desculpa não serve para os 2 a 0 do Genoa no último domingo.
O Milan foi nitidamente dominado nos planos físico e técnico, e até mesmo um empate teria sido um prêmio exagerado para os homens de Carlo Ancelotti.
A tão aguardada escalação dos três Bolas de Ouro, Kaká, Ronaldinho e Shevchenko, foi justamente o calcanhar de Aquiles do Milan no Luigi Ferraris. Sem a bola, o Milan jogava com oito contra onze. O tridente não cobria os espaços, não pressionava a saída de bola, enfim, era inútil no trabalho defensivo. Para usar um esquema do tipo, é exigida uma boa dose de sacrifício dos atacantes – e de preparo físico, o que evidentemente faltava.
Kaká voltava de contusão e deixava clara sua falta de ritmo. Ronaldinho e Shevchenko foram figuras nulas em campo, e foram corretamente substituídos no intervalo por Seedorf e Borriello, este último também recém-recuperado de lesão. Com um 4-4-2 mais racional, o Milan teve seus poucos bons momentos na partida.
Flamini foi o terceiro a ser substituído, dando lugar a Pato, que desperdiçou a grande chance do Milan na partida ao chutar em cima de Rubinho.
Não pode ser visto como apenas coincidência o fato de Ancelotti ter substituído três jogadores que chegaram como reforços para esta temporada. A mensagem transmitida é a de que a direção milanista cometeu um grave erro de avaliação na montagem do elenco.
O Milan deveria ter dado prioridade à contratação de um goleiro, de pelo menos mais dois defensores e de um atacante de área. Ancelotti provavelmente dirá que pediu todos os jogadores que chegaram, mas isso faz parte do jogo. A verdade é que ele teria preferido Drogba ou Adebayor a Shevchenko e Ronaldinho, por exemplo.
‘Sheva’, apesar de goleador, não é centroavante, assim como Pato, bastante criticado por sua atitude desleixada nos treinos e até nos amistosos. É verdade que o ucraniano só foi escalado como titular em Gênova por causa da lesão que tirou Inzaghi da partida, mas não é novidade que Pippo é sujeito a problemas físicos e, apesar de ainda decisivo, não é pode ser considerado garantia na hora de fazer as contas do elenco.
Ronaldinho está jogando sem ter trabalhado com o grupo. Assim que chegou ao clube, foi liberado para as Olimpíadas. Logo que voltou da Ásia, juntou-se ao grupo e já fez sua estréia contra o Bologna – na qual, faça-se justiça, foi bem. Depois, nova viagem, desta vez para a América do Sul, para novos compromissos com a Seleção. E apenas um treino decente antes de enfrentar o Genoa.
É evidente que os problemas não param por aí. Pirlo está muito distante da melhor forma, tanto no Milan quanto na Azzurra. O Zambrotta que chegou à lateral rossonera é o mesmo do Barcelona, e não o da Juventus. Maldini adiou sua aposentadoria, mas não pode atuar 90 minutos em uma partida tão delicada e não pode principalmente ficar em situações de um contra um contra jogadores obviamente mais ágeis e velozes, como nas ocasiões que geraram os gols.
Todo o Milan precisa fazer um exame de consciência. Desde Silvio Berlusconi, político que usou Ronaldinho e Shevchenko como promessas de campanha eleitoral, até os responsáveis pela preparação física do elenco. Passando, certamente, por Ancelotti. Demiti-lo agora faria pouco sentido – o sucessor herdaria os mesmos problemas – e provavelmente causaria uma sensação de instabilidade que, de tão incomum em Milanello, tornaria difícil imaginar as conseqüências imediatas. Mas talvez seja o caso de, internamente, já definir planos com um novo nome (Rijkaard? Donadoni?) e tentar virar o rumo da atual temporada antes que o time fique 20 pontos atrás dos rivais, como tem acontecido.
Ao que tudo indica, Carletto terá carta branca para tomar as decisões técnicas que julgar necessárias – entenda-se com isso as exclusões de Ronaldinho e Shevchenko dos dois próximos jogos, contra o Zürich, pela Copa Uefa, e contra a Lazio, na terceira rodada da Série A. A volta ao esquema 4-3-1-2, com Pato e Borriello à frente de Kaká, parece a solução mais provável. E que os ilustres Bolas de Ouro lutem por um lugar na equipe quando tiverem condições.
Zárate-kid, a Lazio voa
Bastaram duas rodadas para Mauro Zárate transformar ceticismo em elogios na Itália. O argentino da Lazio marcou três vezes nos dois primeiros jogos (como Michael Laudrup em 1983 e Beppe Signori em 1992) e ajudou a equipe biancoceleste a vencer Cagliari e Sampdoria, formando uma grande dupla com Pandev, que por sua vez balançou as redes duas vezes.
Zárate, de 21 anos, explodiu cedo no Vélez Sarsfield. Em 2006, foi artilheiro do Torneio Apertura, e no ano seguinte ajudou a seleção sub-20 da Argentina a se sagrar campeã mundial. Seduzido pelo dinheiro do Oriente Médio, transferiu-se para o Al Sadd, do Qatar, mas não se adaptou por lá. Acabou emprestado ao Birmingham City na segunda metade da temporada 2007/8, e na Inglaterra deu provas de seu potencial para atuar em uma liga de ponta.
Então, o presidente ‘laziale’ Claudio Lotito decidiu pagar € 2 milhões apenas pelo empréstimo de uma temporada, e merece o crédito pela contratação. É de se imaginar que o assédio sobre Zárate cresça, se ele confirmar as boas expectativas criadas neste início de temporada. O Al Sadd, interessado em pelo menos recuperar o investimento, deu à Lazio uma opção de compra de € 15 milhões. É um sacrifício financeiro que Lotito não se permitiu fazer desde que saneou o clube, mas desta vez ele não deve ter escolha.
Del Neri: segundo milagre?
A Atalanta pode olhar para todos do alto da tabela. Pode parecer pouca coisa, considerando que foram apenas duas rodadas, mas é muito se considerarmos que se trata do time com a segunda menor folha salarial da Série A, batendo apenas a Reggina. Cristiano Doni, o astro do time, tem o maior salário: € 450 mil anuais.
Muito do mérito pelo bom começo tem de ser atribuído a Luigi del Neri, o mesmo técnico do “Chievo dos milagres” no início da década. Del Neri acerta ao dar espaço a revelações do ótimo ‘vivaio’ do clube e ao fazer escolhas táticas inteligentes, como a descoberta de um bom zagueiro em Manfredini, lateral até a última temporada.
O time de Bérgamo ainda não levou gol no campeonato, e os seis pontos já acumulados servem como uma bela poupança para que Del Neri siga seu trabalho com tranqüilidade e sem a ameaça do descenso.



