Itália

Mensagem para você

Itália e Holanda se enfrentaram em amistoso na noite de sábado, no estádio Adriático de Pescara. A atual campeã mundial contra uma das seleções mais fortes da atualidade, classificada com 100 por cento de aproveitamento para a Copa do Mundo de 2010. Mas o programa mais visto na televisão italiana naquelas duas horas não foi o jogo da Azzurra. Foi “C’é posta per te” (Mensagem para você), com Maria De Filippi, a rainha do horário nobre no país.

O show do Canale 5 da Mediaset atraiu um público de 6,588 milhões de espectadores (32,71% de share) contra 6,395 milhões (26,06% de share) da partida da seleção. E enquanto pouco mais de 14 mil torcedores pagaram ingresso para conferir os comandados de Marcello Lippi em um estádio com capacidade para 18 mil, outros 80 mil lotaram San Siro para acompanhar a seleção italiana de rugby encarar (e perder com dignidade, 20 a 6) para os míticos All Blacks da Nova Zelândia.

A sete meses de defender seu título mundial na África do Sul, a seleção que deveria representar os italianos está em baixa. Para que o povo italiano se sinta representado, no entanto, deveria ver com a camisa azzurra os melhores jogadores à disposição. Ou pelo menos o melhor deles, que responde pelo nome de Antonio Cassano.

Apenas seis minutos de jogo haviam se passado quando Mario Ferri, 22 anos, que teve acesso ao estádio como acompanhante de deficientes, invadiu o gramado com uma camisa azul, a marca do Super-Homem e a frase “Cassano in Nazionale” (“Cassano na seleção”) escrita na frente e nas costas. Aos 17, todo o estádio já entoava em coro o nome do atacante da Sampdoria. E assim, mais uma partida transcorreu sob a sombra de Cassano, como já havia acontecido no jogo contra o Chipre, em Parma, pelas Eliminatórias da Copa.

Quanto mais tempo passa, e quanto menos futebol a Itália mostra, fica mais difícil justificar a ausência do Talentino di Bari. Lippi pode tentar fechar os olhos – ou tirar os óculos, como fez no momento da (condenável) invasão de campo –, mas sabe que terá de assumir a responsabilidade sozinho se o mais provável acontecer e a Azzurra fracassar em junho.

Até mesmo no jogo de rugby havia clamor. Uma faixa apelava ao técnico Nick Mallett: “Pelo menos você pode convocar Cassano?”.

É verdade que Cassano caiu de rendimento nas últimas três rodadas, coincidindo também com a queda da Sampdoria. Ainda assim, não há neste momento um jogador italiano com tanto potencial para fazer a diferença na seleção. Fazer a jogada inesperada, dar o passe mais inteligente.

As tentativas de explicar por que Lippi não enxerga o óbvio vão se multiplicando. No programa de sátira jornalística “Striscia la Notizia”, foi divulgada uma versão de que Cassano teria agredido o filho do treinador, Davide, por causa de uma discussão em uma casa noturna. Ambos negam. Mas o treinador, se quiser mesmo acabar com as especulações, deveria vir a público falar abertamente sobre seus motivos. Sem essa de “não falo de jogadores que não estão aqui” ou “todos os jogadores italianos são convocáveis”.

Sobre o que aconteceu nos 90 minutos em Pescara, há pouco o que dizer. Assim como no amistoso de agosto contra a Suíça, a Itália foi ofensivamente inócua e não saiu do 0 a 0. Pelo menos o adversário era um pouco mais forte, mas não absolve a falta de criatividade no jogo da Azzurra.

A única nota positiva foi a estreia de Candreva, do Livorno. Não acertou todas as jogadas que tentou, mas não pecou por omissão. Aos 22 anos, pareceu não sentir o peso da camisa, e mostrou que merece pelo menos ser observado novamente – até porque é um dos poucos jogadores que podem exercer diversas funções no meio-campo.

Lippi afirma ter seis ou sete vagas abertas no elenco. Quem seriam, então, os já garantidos? Entre os campeões de 2006, são nomes certos Buffon, Zambrotta, Cannavaro, Grosso, Pirlo, De Rossi, Gattuso, Camoranesi, Gilardino e Iaquinta. Se Totti aceitar voltar à seleção, também terá vaga garantida. Chiellini, Legrottaglie, Marchisio e Criscito, além dos goleiros reservas Marchetti e De Sanctis, também podem considerar seus passaportes carimbados.

Na lateral-direita, Santon vai ficando cada vez mais distante. O jovem da Inter é pouco utilizado por Mourinho nesta temporada e já foi “rebaixado” para a seleção sub-21. Disputa aberta para Maggio (Napoli), Cassani (Palermo) e Motta (Roma). Entre os zagueiros, Bocchetti (Genoa) leva vantagem sobre Gamberini (Fiorentina) por também fazer a lateral-esquerda se necessário.

Candreva, por sua versatilidade, pode se tornar favorito em uma disputa com Palombo (Sampdoria), D’Agostino (Udinese) e até Montolivo (Fiorentina), que nunca mostrou serviço na seleção. Biondini (Cagliari) jogou alguns minutos contra a Holanda, mas só terá possibilidades realistas caso Gattuso não reúna condições físicas de jogar o Mundial. O milanista, mesmo longe do auge, é visto como peça importante na ideia de “grupo” do treinador.

O grande drama está no ataque. Não é segredo que Lippi tem uma vaga reservada para Amauri há muito tempo. O juventino voltou a fazer gols depois de um longo jejum, mas os entraves burocráticos podem complicar sua vida. A última informação de dentro do Ministério do Interior é de que seu passaporte não ficaria pronto antes do dia 5 de março, sendo que o último jogo da Itália antes da convocação definitiva será no dia 3 de março, contra adversário a definir.

O quão disposto estaria Lippi a levar Amauri para convocá-lo mesmo sem um teste prévio? Os jogadores que concorrem com o brasileiro o enxergam como adversário, como Pazzini declarou claramente ao se posicionar contra a convocação. Caso Amauri e Totti entrem no grupo, restarão apenas duas vagas no ataque. E vários nomes brigando por elas: Quagliarella (Napoli), Palladino (Genoa), Di Natale (Udinese), Giuseppe Rossi (Villarreal) e Pazzini (Sampdoria).

E Cassano? Pelo visto, seguirá sendo o fantasma que ronda uma das Itálias menos interessantes dos últimos tempos.

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Equipe Trivela

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