Itália

Lei de Gérson… ou de Gilardino

“Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. A frase do campeão mundial Gérson no comercial dos cigarros Vila Rica, em 1976, virou sinônimo de malandragem, do jeitinho brasileiro. Buscar o benefício próprio a qualquer custo, desde então, passou a ser conhecido como “Lei de Gérson”. Uma lei que outro campeão do mundo, mais de três décadas depois, fez questão de seguir à risca.

Ao usar o braço direito para empurrar a bola com as redes (clique aqui para ver o vídeo), abrindo o placar para a Fiorentina contra o Palermo, Alberto Gilardino cometeu um grave ato de antidesportividade. Pior: saiu comemorando como se o gol fosse lícito, e depois da partida, contrariando o que as imagens mostravam ser óbvio, negou a intenção de tocar a bola com o braço. A mentira era tão clara que o tribunal desportivo não teve dúvidas em punir o atacante da Azzurra com duas rodadas de suspensão.

Não deve faltar quem defenda o gesto. Os fãs da lei de Gérson devem delirar com a malandragem de Gilardino em ludibriar o árbitro para assumir a artilharia e colocar a Viola no rumo de uma vitória importante na disputa pela liderança do campeonato. “O que ele deveria fazer, então? Avisar ao árbitro que o gol foi de mão?”, pode se perguntar alguém.

Cesare Prandelli, técnico da Fiorentina que tem uma biografia ligada ao fair-play, acredita que o futebol não está maduro o suficiente para que isso faça parte da realidade. Para desmenti-lo, basta lembrar que Daniele De Rossi se denunciou ao árbitro em um jogo da Roma contra o Messina, em 2006. Na ocasião, De Rossi não comemorou o gol marcado com a mão. Diante dos protestos dos jogadores do Messina, o árbitro Bergonzi se dirigiu ao romanista e ouviu dele a admissão. A atitude do meio-campista foi elogiada por adversários e colegas.

A punição a Gilardino deve, portanto, ser um sinal claro aos jogadores para que gestos do tipo não se repitam. É grave como se jogar para cavar um pênalti, é grave como agredir um rival. Sobretudo ele, como um jogador de relevo, parte da história do futebol italiano por sua presença no Mundial da Alemanha, deveria saber que é visto como exemplo e não pode ter manchas do tipo em seu currículo.

É verdade que, no momento do toque de mão, Gilardino está caído no gramado, aparentemente por ter sido puxado por Dellafiore, seu marcador. Amelia, goleiro do Palermo, disse ter ouvido do árbitro Emidio Morganti que, se não fosse gol, teria sido marcado pênalti. Que fosse, então. A falta de Dellafiore não absolve o atacante.

Outra discussão importante levantada pelo lance é a necessidade de rediscutir a atuação da arbitragem, para impedir que a regra seja burlada com tanta facilidade. O controverso uso de imagens para lances polêmicos teria evitado a validação do gol em questão de segundos. A presença de auxiliares atrás das áreas, testada recentemente pela Uefa, dificilmente deixaria a irregularidade passar batida.

De qualquer forma, faltou um pouco de experiência a Morganti. Pela reclamação imediata e simultânea dos jogadores do Palermo, já seria possível pelo menos supor o toque de mão. Então, Gilardino poderia ter sido interpelado. Na pior das hipóteses, ele negaria, como negou diante das câmeras, e aumentaria ainda mais o embaraço.

Lei de Gérson – ou de Gilardino – à parte, é necessário destacar que o resultado a favor da Fiorentina foi justo, alcançado graças ao reencontro de Mutu com sua melhor forma. O time de Prandelli parece ter alcançado, no campeonato, o nível que se esperava desde o início da temporada. O duelo com a Inter, nesta quarta-feira, será um teste para as pretensões de título.

Super-Udinese, péssima Roma

A pior arbitragem da rodada da Série A foi a de Massimo Saccani, na vitória por 3 a 1 da Udinese sobre a Roma. Para a Udinese, um pênalti marcado por uma falta fora da área de Tonetto em Floro Flores. Para a Roma, um pênalti assinalado quando Handanovic tirou a bola de Brighi. E dois pênaltis não marcados para os giallorossi – um de Inler sobre De Rossi, outro de Domizzi em Vucinic, que ainda foi advertido por suposta simulação.

A jornada desastrosa de Saccani, porém, não foi suficiente para esconder os méritos da Udinese ou as deficiências da Roma. Não é por acaso que os friulani estão no topo da tabela ao lado de Inter e Napoli. Com três atacantes de seleção – Di Natale, Pepe e Quagliarella – e um Floro Flores em ótima fase, o técnico Pasquale Marino tem opções de sobra. No meio-campo, Inler vem mantendo o bom nível da temporada passada, e na defesa Coda e Domizzi fazem com que Felipe e Zapata não pareçam desfalques tão importantes assim.

O sucesso da Udinese não nasceu da noite para o dia. Pelo contrário, é resultado de uma mentalidade de mais de uma década: investir em nomes competentes para cuidar do mercado. Não é um acaso que Catania e Napoli, outros protagonistas da temporada, tenham dirigentes com passagem por Udine – Pietro Lo Monaco e Pierpaolo Marino, respectivamente.

Lo Monaco estava na Udinese que conquistou um histórico terceiro lugar com Alberto Zaccheroni, e participou diretamente das contratações de Jorgensen e Amoroso. Ele deixou o clube em 1998, e Pierpaolo Marino o sucedeu. Na sua gestão, foram reforçados os laços com o mercado sul-americano, que ainda hoje rendem frutos.

Marino saiu em 2004 para abraçar o projeto do Napoli, então na terceira divisão, e Pietro Leonardi, com experiência nas categorias de base da Juventus, foi chamado para comandar o futebol da Udinese. Desde então, o time conseguiu uma classificação para a Liga dos Campeões e fez vendas importantes, como as de Jankulovski para o Milan, Pizarro para a Inter e Iaquinta para a Juventus.

Do outro lado, a Roma tenta entender como tanta coisa mudou em pouco tempo. O time que teve o título nas mãos por mais de uma hora durante a última rodada de 2007/08 agora acumula cinco derrotas nos oito primeiros jogos. Para encontrar uma marca pior, é preciso voltar à temporada 1973/74, quando foram seis derrotas no mesmo período.

Para começar, o time de Luciano Spalletti, além de ser refém de um único esquema tático, nunca deixou de ser Totti-dependente. E com Totti fora de forma, é natural que se sofra. Mas há outros problemas. Taddei não é sombra do jogador decisivo que foi em outras temporadas. As contratações da pré-temporada não foram condizentes com as ambições do clube.

Um zagueiro como Loria pode servir ao Siena, mas não à Roma. As lesões de Juan se acumulam, e Panucci não tem mais o físico para segurar a onda sozinho. Riise e Menez, que deveriam chegar para solucionar suas respectivas posições, até o momento são dois fiascos. As contestações da torcida fazem sentido, e agora nem mesmo Spalletti nega que está ameaçado. Com razão.

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Equipe Trivela

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