Itália

Jogando por música

Música e futebol costumam ter uma relação bastante íntima nos países em que o esporte é parte fundamental da cultura popular. Imagine então na Itália, país de riquíssima tradição nos dois campos. O cancioneiro italiano é repleto de peças em que o “calcio” é usado como metáfora, pano de fundo ou até mesmo tema central. Compositores clássicos e modernos e alguns dos maiores intérpretes da história do país já cantaram o futebol em algum momento.

É uma proximidade de mais de meio século, que esta coluna, aproveitando a pausa da Serie A, tenta mostrar através de vídeos, áudios e trechos das letras.

Em 1959, o Quartetto Cetra, grupo vocal lembrado como um dos mais longevos da música italiana, gravou “Che centrattacco” (“Que centroavante”. O texto fala de um atacante fenomenal chamado Spartaco e sua ascensão até a Serie A e a seleção italiana. O refrão cita Virgilio Felice Levratto, goleador histórico do Genoa e da Azzurra. No fim, o garoto acorda e descobre que tudo não passou de um sonho.

E con grande giubilo della comunità fu presto trasferito nella Serie A
E com grande júbilo da comunidade, logo foi transferido à Serie A
Ma il suo sogno splendido ancor più in alto andò: la maglia azzurra in cuore sospirò
Mas seu sonho esplêndido foi ainda mais alto: a camisa azul no coração suspirou
Correva come un matto e saltellava come un gatto
Corria como um louco e saltava como um gato
E tutti gli gridavano così:
E todos gritavam assim:
Oh oh oh oh, che centrattacco, oh oh oh oh, tu sei un cerbiatto
Oh oh oh oh, que centroavante, oh oh oh oh, és um cervo
Sei meglio di Levratto, ogni tiro va nel sacco
És melhor que Levratto, todo chute vai na rede
Oh oh oh che centrattacco
Oh oh oh oh, que centroavante
Quando lo passarono alfine in nazional giocò contro il Brasile e contro il Portogal
Quando o passaram enfim à seleção, jogou contra o Brasil e contra Portugal
Era lanciatissimo, 18 goal segnò, ma giunto al 19 si svegliò
Estava embaladíssimo, 18 gols marcou, mas ao chegar aos 19 acordou

O futebol inspirou ainda a música que lançou umas das mais marcantes vozes italianas: Rita Pavone. Escrita por Edoardo Vianello e Carlo Rossi, “La partita di pallone” (“A partida de futebol”), de 1962, é contada em primeira pessoa por uma jovem que se pergunta por que o companheiro a deixa sozinha para ir ao futebol no domingo. Ela desconfia que, se ele não a leva junto, pode ser apenas uma desculpa para enganá-la – e, portanto, planeja segui-lo para descobrir a verdade.

Perché, perché la domenica mi lasci sempre sola
Por que, por que no domingo você me deixa sempre sozinha
Per andare a vedere la partita di pallone
Para ir ver a partida de futebol
Perché, perché una volta non ci porti anche me?
Por que, por que alguma vez você não me leva também?
Chissà, chissà se davvero vai a vedere la tua squadra
Quem sabe, quem sabe se você vai mesmo ver o seu time
O se invece tu mi lasci con la scusa del pallone?
Ou se me deixa com a desculpa do futebol?
Chissà, chissà se mi dici una bugia o la verità?
Quem sabe, quem sabe se você diz uma mentira ou a verdade?
Ma un giorno ti seguirò perché ho dei dubbi che non mi fan dormir
Mas um dia te seguirei porque tenho dúvidas que não me deixam dormir
E se scoprir io potrò che mi vuoi imbrogliar, da mamma ritornerò
E se eu descobrir que você quer me enganar, para a mamãe retornarei

Um amor nascido da rivalidade entre Inter e Milan é o tema de Eravamo in centomila (“Éramos cem mil”) de Adriano Celentano, ícone do pop-rock italiano dos anos 50 e 60. Nerazzurro declarado, Celentano fala do interesse por uma torcedora rival vista durante um clássico em San Siro.

Scusi lei, che c'è? Dove va?
Desculpe, o que há? Onde vai?
Perché… Oh bella mora se non sbaglio
Porque… Oh bela morena se não me engano
Lei ha visto l'Inter-Milan con me
Você viu o Inter-Milan comigo
Ma come fa lei a non ricordare
Mas como pode não se lembrar?
Noi eravamo in centomila allo stadio quel dì
Éramos cem mil no estádio aquele dia
Io dell'In… Inter
Eu da In… Inter
Lei del Mi… Milan
Ela do Mi… Milan
Oh bella mora
Oh bela morena
Da una porta all'altra le sorrisi e lei disse si
De um gol ao outro eu lhe sorri e ela disse sim
E poi finita la partita
Então acabou a partida
La vidi uscire di sfuggita con uno sul tram
Eu a vi sair correndo com outro no trem
Addesso lei mi deve dir chi è
Agora ela tem de me dizer quem é
É una partita fra noi due perché
É uma partida entre nos dois porque
Lei ha segnato un gol, lei ha segnato un gol
Ela marcou um gol, ela marcou um gol
Diretto nella porta del mio cuor
Direto no meu coração
Ed ho capito che c'è solo lei per me
E entendi que só existe ela para mim
Ed ho capito che c'è solo lei per me
E entendi que só existe ela para mim

Outro célebre interista é o roqueiro Luciano Ligabue, que em 1999 compôs “Una vita da mediano” (“Uma vida de volante”), parte do álbum “Miss Mondo”. A canção é uma melancólica ode às possibilidades que a vida dá àqueles que não são excessivamente talentosos, mas podem ser bem sucedidos graças ao empenho e à força de vontade. Na letra, é citado nominalmente Gabriele Oriali, ídolo de Ligabue e campeão mundial pela Itália em 1982. No idioma original, o termo “mediano” deixa mais clara a intenção do texto.

Una vita da mediano, a recuperar palloni
Uma vida de volante, recuperando bolas
Nato senza i piedi buoni, lavorare sui polmoni
Nascido sem os pés bons, trabalhar nos pulmões
Una vita da mediano, con dei compiti precisi
Uma vida de volante, com atribuições precisas
A coprire certe zone, a giocare generosi
Cobrindo certas zonas, jogando generoso
Lì, sempre lì, lì nel mezzo
Ali, sempre ali, ali no meio
Finchè ce n’hai stai lì
Enquanto você aguenta, está ali
Una vita da mediano, da chi segna sempre poco
Uma vida de volante, de quem marca poucos gols
Che il pallone devi darlo a chi finalizza il gioco
Que tem de passar a bola a quem finaliza o jogo
Una vita da mediano, che natura non ti ha dato
Uma vida de volante, que a natureza não te deu
Nè lo spunto della punta, nè del 10 che peccato
Nem o faro do atacante, nem do 10, que pecado
(…)
Una vita da mediano, lavorando come Oriali
Uma vida de volante, trabalhando como Oriali
Anni di fatica e botte e vinci casomai i Mondiali
Anos de fadiga e porradas, e talvez você vença o Mundial

Quem também recorreu ao futebol como metáfora da vida foi Max Pezzali e seu 883, com “La dura legge del gol” (“A dura lei do gol”), do bem sucedido álbum homônimo. A música fala de amizades esquecidas e relações de conveniência.

È la dura legge del gol
É a dura lei do gol
Fai un gran bel gioco però
Você joga muito bem, mas
Se non hai difesa gli altri segnano
Se não tem defesa os outros marcam
E poi vincono
E depois vencem
Loro stanno chiusi ma
Eles ficam fechados, mas
Alla prima opportunità
Na primeira oportunidade
Salgon subito e la buttan dentro a noi
Sobem rápido e marcam um gol em nós

No campo dos torcedores ilustres, um dos mais célebres é Antonello Venditti, que compôs o hino da Roma (Roma non si discute si ama) nos anos 70. A canção, escrita em dialeto romano, deixou de ser considerada hino oficial pelo então presidente Dino Viola em 1977, por causa da forte exposição política de Venditti, mas na década de 90 o clube voltou a assumi-la.

Roma Roma Roma, core de stà città
Roma Roma Roma, coração desta cidade
Unico grande amore
Único grande amor
De tanta e tanta gente, che fai sospirà
De tanta e tanta gente, que fazes suspirar
Roma Roma Roma, lassace cantà
Roma Roma Roma, deixe-nos cantar
Da stà voce nasce un core
Desta voz nasce um coração
So centomila voci che hai fatto nammorà
São cem mil vozes que você fez se apaixonar

Venditti, em 2007, escreveu “Tradimento e Perdono” (“Traição e Perdão”) em homenagem a Agostino Di Bartolomei, um dos ídolos da história romanista, que se suicidou em 1994 com um tiro no coração, em meio a uma crise financeira, alegando frustração por não encontrar espaço no mundo do futebol. Ele tirou a própria vida exatamente dez anos após disputar a final da Copa dos Campeões contra o Liverpool.

Questo mondo coglione piange il campione quando non serve più
Este mundo c… chora o campeão quando não adianta mais
Ci vorrebbe attenzione verso l'errore, oggi sarebbe qui
É preciso atenção com o erro, hoje ele estaria aqui
Se ci fosse più amore per il campione oggi saresti qui
Se houvesse mais amor pelo campeão, hoje estarias aqui
Ricordati di me mio capitano
Lembre-se de mim, meu capitão
Cancella la pistola dalla mano
Tire a pistola da mão
Tradimento e perdono fanno nascere un uomo
Traição e perdão fazem nascer um homem
Ora rinasci tu
Agora renasça você.

“La leva calcistica della classe '68” (“A leva futebolística da classe de 68”), de Francesco De Gregori, foi lançada em 1982, mas escrita dois anos antes, sobre a ânsia de um jovem de 12 anos prestes a fazer um teste para um time de futebol.

Nino cammina che sembra un uomo, con le scarpette di gomma dura
Nino caminha que parece um homem, com as chuteiras de borracha dura
Dodici anni e il cuore pieno di paura
Doze anos e o coração cheio de medo
Ma Nino non aver paura a sbagliare un calcio di rigore,
Mas Nino, não tenha medo de errar um pênalti,
Non è mica da questi particolari che si giudica un giocatore,
Não é destes detalhes que se julga um jogador
Un giocatore lo vedi dal coraggio, dall'altruismo e dalla fantasia.
Um jogador se vê pela coragem, pelo altruísmo e pela fantasia.

Algumas músicas são inspiradas por personagens específicos, como “L'allenatore”, de Gianni Morandi, histórico torcedor do Bologna. Em 2004, Morandi compôs a música pensando em Carlo Mazzone, uma espécie de decano dos técnicos italianos, e considerado por ninguém menos que Roberto Baggio um dos maiores.

Guardalo l’allenatore
Veja o treinador
Da cinquant’anni appresso ad un pallone
Há cinquenta anos ligado a uma bola
Sulla panchina calda come il sole
Em um banco quente como o sol
E un freddo gelido quasi polare
E um frio gélido, quase polar
E guardalo l’allenatore
E veja o treinador
Ha dato tanto e ha avuto molto meno
Deu tanto e recebeu muito menos
Ma quanti ostacoli quanto veleno
Mas quantos obstáculos, quanto veneno
Prima di alzare le sue braccia al cielo
Antes de levantar suas mãos para o céu
In questo mondo privo di valori
Neste mundo privado de valores
Dove chi conta sono i vincitori
Onde quem conta são os vencedores
E dei perdenti cancelliamo i nomi
E dos perdedores apagamos os nomes

“Centravanti di mestiere” (“Centroavante de ofício”) de Giuseppe Povia, foi escrita em 2009 como homenagem a Alberto Gilardino, mas serve para qualquer jogador da posição. É a narrativa em primeira pessoa de um jogo em que um atacante em jejum de gols precisa salvar um time em crise, perseguido pelos torcedores e com o técnico ameaçado. O gol sai aos 46 minutos do segundo tempo, do jeito que o centroavante gosta: de um bate-rebate na área.

Nello spogliatoio il mister è sul filo del rasoio
No vestiário, o professor está no fio da navalha
La panchina è a rischio, ci dice:
O cargo está em risco, ele diz:
”Dobbiamo lottare tutti insieme i problemi non si risolvono da soli!”
“Temos de lutar todos juntos, os problemas não se resolvem sozinhos!”
Ma lo so che a me sta chiedendo la differenza
Mas sei que ele está me pedindo a diferença
Perché soltanto il gol vale la mia presenza.
Porque só pelo gol vale a minha presença.
(…)
In tribuna iniziano a fischiare
Na tribuna começam a vaiar
Che cazzo ne sanno loro che mi dicono di andare a lavorare?
Que p… eles sabem, que me mandam ir trabalhar?
– Andate a lavorare!
– Vão trabalhar!
Sono un centravanti di mestiere, siamo alla fine ma l’orgoglio mi sorregge
Sou um centroavante de ofício, estamos no fim, mas o orgulho me comanda
Perché il mio spirito è di Dio ma il mio culo è solo mio
Porque meu espírito é de Deus, mas o meu c… é só meu
E sono un centravanti di mestiere
E sou um centroavante de ofício
91esimo c’è una mischia, so già dove andare. GOOOOOOLLLLLLL!!
Minuto 91, confusão na área, já sei aonde ir. GOOOOOOLLLLLLL!!

Nem toda música sobre futebol, no entanto, é uma exaltação ao esporte. Chama a atenção o viés crítico de “Santa Maria del Pallone” (“Santa Maria do Futebol”), do grupo Modena City Ramblers. A canção, de 1996, fala do uso do futebol como instrumento de alienação.

È un oppio che mischia il sudore con l’incenso
É um ópio que mistura suor e incenso
Per chiudere gli occhi e per scacciare i guai
Para fechar os olhos e se livrar dos problemas
Le candele e la partita, i santini e le bandiere
As velas e a partida, os santinhos e as bandeiras
È un’estasi mistica, rapisce il cuore
É um êxtase místico, sequestra o coração
Un popolo prega Signora Santità
Um povo reza por Senhora Santidade
Ha bisogno di una guida e adesso chiede protezione
Precisa de um guia e agora pede proteção
A chi vede, provvede e protegge dai guai
A quem vê, provê e protege dos problemas
Santa Maria del pallone
Santa Maria do futebol

Os acordes iniciais de “Un'estate italiana” (“Um verão italiano”) remetem imediatamente à Copa do Mundo de 1990, a última organizada pela Itália. O hino daquela competição foi gravado por Gianna Nannini (irmã do ex-piloto de Fórmula 1 Alessandro Nannini) e Edoardo Bennato. Foi interpretado pela primeira vez no sorteio dos grupos e também fez parte da abertura do Mundial. Foi o single mais vendido da Itália naquele ano. Até hoje os jogos da campanha italiana são lembrados como “noites mágicas”, como diz a letra.

Notti magiche, inseguendo un gol
Noites mágicas, perseguindo um gol
Sotto il cielo di un'estate italiana
Sob o céu de um verão italiano
E negli occhi tuoi voglia di vincere
E nos teus olhos, vontade de vencer
Un'estate, un'avventura in più
Um verão, uma aventura a mais

Para conquistar o título, porém, a Azzurra teria de esperar outros dezesseis anos. E havia muita gente descrente, em meio ao escândalo de manipulação de resultados que abalou a Serie A em 2006. É o que mostra a letra de “Siamo una squadra fortissimi”, de Checco Zalone, nome artístico do humorista Luca Medici. A música, propositalmente repleta de erros gramaticais, recomendava um pedido de ajuda a Luciano Moggi, o homem-forte da Juventus que entrou para a história como pivô do escândalo. Durante a caminhada rumo ao título, a música estorou nas rádios e acabou virando um talismã.

Siamo una squadra fortissimi
Somos um time fortíssimo
Fatta di gente fantastici
Feita de gente fantástica
E nun potimm’ perd’
E não podemos perder
E fa figur’ e mmerd’
E deixar uma imagem de m…
Perché noi siamo bravissimi
Porque nós somos muitos bons
E super quotatissimi
E super cotadíssimos
E se finiamo nel balatro
E se acabamos no abismo
La colpa è solo dell’albitro
A culpa é só do árbitro
(…)
Grande Luciano Moggi
Grande Luciano Moggi
Dacci tanti orologgi agli albitri internazionali
Dê muitos relógios aos árbitros internacionais
si no co’ ‘O cazz’ che vinciamo i mondiali
Se não nem a pau venceremos o Mundial

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Equipe Trivela

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