Invisível? Por enquanto…

Após a derrota para o Milan no dérbi de domingo, a Internazionale já não era mais líder da Série A. Havia sido ultrapassada pela Lazio, que venceu o Torino fora de casa por 3 a 1, e pelo Napoli, vitorioso por 1 a 0 no campo do Bologna. O técnico ‘nerazzurro’ José Mourinho não se mostrou preocupado. Disse que sua única preocupação é permanecer à frente de Milan, Juventus, Roma e Fiorentina, únicos rivais na luta pelo ‘scudetto’ de 2008/9.
Convidado do programa ‘Domenica Sportiva’, da RAI, o presidente da Lazio, Claudio Lotito, torceu o nariz. Não falou abertamente que seu time pode conquistar o título, mas rebateu Mourinho ao dizer que o futebol às vezes prega peças, e que a lógica do clube mais rico e do time com o elenco mais renomado nem sempre prevalece. O treinador português, então, optou pela diplomacia, dizendo que fará questão de dar os parabéns aos ‘biancocelesti’ caso levem o título, contrariando suas previsões.
Cinco rodadas de um campeonato com 38 não permitem conclusões definitivas, mas revelam tendências. E é impossível passar batido por um time que marcou 13 gols até o momento, sendo oito deles fora de casa. Para efeito de comparação, a Juventus tem apenas quatro gols no campeonato. Líder depois de cinco jogos, a Lazio só foi na temporada 1974/75, quando era a atual campeã. O time de Giorgio Chinaglia e Vincenzo D’Amico tinha quatro vitórias e um empate.
O grande nome da atual Lazio é Mauro Zárate. O argentino, que já havia impressionado nas primeiras rodadas, fez no Olímpico de Turim sua melhor partida pelo clube. Deu o passe para o primeiro gol, marcado por Pandev, depois de se livrar de três marcadores em um pequeno espaço de campo. Então, marcou com um lindo chute de fora da área, e fez seu segundo da tarde cobrando pênalti.
Artilheiro com seis gols, Zárate iguala os números iniciais de jogadores como Zico e Shevchenko, que obtiveram a mesma marca nas primeiras cinco partidas. Somando-se os quatro gols de Pandev, são 10 para a dupla – média de dois por jogo. Se Lotito foi ridicularizado por alguns quando disse que Zárate lembra Messi, pelo menos agora a comparação parece apenas exagerada, mas não absurda.
Completando o trio de ataque, o bom driblador Foggia oferece uma ótima opção pelo lado esquerdo, começando a achar a regularidade que lhe impediu de explodir até agora, aos 25 anos. Quando Rocchi retornar da lesão sofrida na Olimpíada, o técnico Delio Rossi terá um problema a solucionar.
Além de jogar com três homens na frente, o Rossi ainda usa um ‘trequartista’ como Mauri. Brocchi e Ledesma completam o meio-campo. O treinador ainda não achou a formação ideal para a zaga, mas Cribari, titular contra o Torino, parece mais seguro ao lado de Siviglia do que o tcheco Rozenhal.
Lichtsteiner e Radu não são laterais dos sonhos, mas cumprem bem suas funções. São opções melhores que De Silvestri e Kolarov. Carrizo é um goleiro nota 6, mas já é um avanço para quem tinha de confiar em Ballotta e Muslera na temporada passada.
Rossi parece não fazer distinção de adversário, mandando o time a campo com a mesma mentalidade tática em todas as partidas. O time encarou o Milan de peito aberto e levou 4 a 1, em seu único revés até o momento. Ainda assim, parece ser o melhor caminho a seguir, pelas peças que há à disposição.
Falar em título é prematuro, e este colunista se mantém firme na opinião de que o ‘scudetto’ não sairá do trio Inter-Milan-Juve. De qualquer forma, é importante observar que a Lazio tem uma tabela favorável nas próximas rodadas: Lecce em casa, Bologna fora, Napoli em casa, Chievo fora, Catania e Siena em casa, e então o dérbi contra a Roma, dia 16 de novembro. De sete jogos, são cinco no estádio Olímpico.
O time não tem o peso das competições européias, algo que se faz notar depois de fevereiro. Se chegar até lá no mesmo passo dos líderes, a Lazio poderá, então, ser considerada uma séria candidata. Enquanto isso, segue “invisível” na corrida pelo título.
Dérbi para espantar a crise
Quem só começou a acompanhar a temporada nos últimos dias dificilmente acreditaria que o Milan, duas semanas antes do dérbi com a Inter, estava em crise. A lavagem de roupa suja em Milanello após as derrotas para Bologna e Genoa deve ter sido das melhores, porque o time reagiu com personalidade e se impôs sobre o rival na primeira grande noite de Ronaldinho no futebol italiano.
Ronaldinho, que lançou Kaká e correu para cabecear com precisão na área, não foi o melhor em campo, mas foi o astro da noite. Ainda não está na melhor forma física, mas mostrou que uma bela injeção de adrenalina ajuda a tirar a diferença nas grandes ocasiões.
A vitória do Milan no dérbi foi conseqüência de vários acertos. O primeiro deles foi da direção do clube, ao reiterar a confiança em Carlo Ancelotti, hábil administrador de crises. O segundo foi do próprio Ancelotti, que reinventou um Seedorf recuado no meio-campo, fazendo a função do lesionado Pirlo. Um papel que o holandês não exercia desde seu início de carreira no Ajax. No fim das contas, ele foi o melhor em campo.
Gattuso atuando à frente da defesa foi útil contra a Lazio, quando era preciso acompanhar Mauri. Contra a Inter, no entanto, a meta era cortar o fornecimento ao tridente Quaresma-Mancini-Ibrahimovic. Assim, Gattuso caiu pela direita e Ambrosini pela esquerda, dificultando o ponto forte da Inter, o jogo pelos lados do campo, e ainda ajudando na cobertura para Ronaldinho e Kaká.
Do lado da Inter, viu-se um latifúndio entre meio-campo e ataque. Cambiasso jogou excessivamente recuado, enquanto Zanetti e Vieira tinham dificuldade para construir o jogo, pelos motivos já citados. Mancini ainda tentou achar opções, muitas vezes até se oferecendo como centroavante, enquanto Quaresma foi uma nulidade. Quando a bola chegava, a defesa ‘rossonera’ estava em melhores condições para levar vantagem.
Não substituir Quaresma foi o principal erro de Mourinho, que de resto foi ousado como deveria ser para buscar o empate no segundo tempo, colocando Adriano e Cruz. Só o que frustrou seus planos foi a ingênua expulsão de Burdisso com o segundo cartão amarelo. O técnico pretendia sacar o argentino – estranhamente preferido a Córdoba na equipe titular – para colocar Balotelli nos minutos finais.
A Inter criou oportunidades suficientes para merecer o empate no segundo tempo, mas acabou traída por um nervosismo excessivo. Depois de impressionar contra Panathinaikos (na Liga dos Campeões) e Torino, o time sofreu para bater o Lecce e perdeu o dérbi. Ainda que Mourinho esteja certo em não se preocupar tanto com Lazio e Napoli, a vantagem para o Milan é de apenas um ponto, quando poderia ser de sete.



