Itália

Histeria coletiva

Quem já assistiu a um debate esportivo na televisão italiana sabe como as coisas funcionam. Boa parte da discussão se concentra nos lances controversos da arbitragem durante a rodada. Por sua natureza polêmica, a conversa acaba por se alongar demais, tirando espaço de temas mais interessantes como, por exemplo, o jogo propriamente dito.

Até mesmo para quem se habituou a este contexto, o que se viu no ambiente da Série A nos últimos dias pode se considerar uma histeria coletiva. Os árbitros do país não atravessam bom momento e, ainda que façam questão de frisar que não vigora mais o sistema que levou ao Calciocaos em 2006, os personagens do futebol italiano preferem se perder em desabafos a buscar uma solução comum para minimizar os erros.

No último sábado, a Fiorentina foi derrotada por 1 a 0 pela Juventus .No fim do jogo, a Viola reclamou de um pênalti não marcado em Jovetic e de um gol mal anulado de Gilardino, ambos no primeiro tempo. Para piorar, o clube de Florença já havia se sentido prejudicado nas derrotas para Lecce e Milan, nas rodadas anteriores.

Depois do jogo, só quem falou pela Fiorentina foi o presidente Andrea Della Valle. Os jogadores e o técnico Cesare Prandelli deixaram o Olímpico de Turim sem dar entrevistas. Em declaração à Sky, com um incomum tom colérico, Della Valle se disse “indignado”, falou em “paciência esgotada” e pediu “respostas para a cidade de Florença”.

A mesma Fiorentina, é bom lembrar, já venceu um jogo contra o Palermo nesta temporada graças a um escandaloso gol de mão de Gilardino, que lhe valeu uma suspensão de dois jogos.

A tensão em torno da arbitragem virou a noite e desembarcou em Milão para o jogo entre Internazionale e Sampdoria. José Mourinho foi expulso ainda no primeiro tempo por Domenico Celi, depois de perguntar ao árbitro se ele “estava com medo”, depois de um cartão amarelo para Stankovic.

Depois do jogo, o técnico português procurou justificar sua atitude, dizendo que Celi talvez quisesse mostrar que não favorecia os grandes, após os fatos de Juventus x Fiorentina. Não satisfeito, ainda defendeu sua atitude: “Eu disse que ele estava com medo e a expulsão confirmou minha suspeita”.

Convenientemente, Mourinho deixou de citar que Adriano nem estaria em campo para marcar o gol da vitória se Celi tivesse observado o soco do brasileiro em Gastaldello. Na segunda-feira, com as imagens da televisão, o atacante foi suspenso por três partidas por causa da agressão.

Walter Mazzarri, da Sampdoria, não deixou que o episódio passasse batido, citando a permanência de Adriano em campo como um fator preponderante para o resultado. Além disso, ainda disse que deveria ter sido marcado um pênalti de Córdoba em Pazzini.

Resumo da ópera: no final de uma partida, se os dois técnicos protestam contra a arbitragem, pelo menos um deles tem de estar exagerando.

Carlo Ancelotti, técnico do Milan, que mantém uma relação amistosa com Mourinho desde sua chegada à Itália, foi a público reprovar o comportamento do colega. O comandante rossonero aprovou a expulsão do interista, por considerar sua atitude desrespeitosa.

O tema da arbitragem está longe de ser simples. O escândalo de 2006 provocou uma renovação forçada nos quadros da federação. Quando os árbitros jovens erram, são culpados por inexperiência. Quando são escalados os mais experientes, o discurso padrão é de que “são sempre os mesmos”.

A constante reclamação sobre o trabalho dos árbitros faz com que eles entrem em campo mais pressionados – e suscetíveis a erros – a cada rodada, o que torna mais difícil o trabalho de Pierluigi Collina na designação dos trios.

Na mesma semana, a Roma protestou contra um gol em impedimento da Inter no jogo pela Copa da Itália, mas contou com um gol também irregular de Mexès para derrotar o Napoli pela Série A. No primeiro caso, o clube giallorosso protestou. No segundo, calou-se.

Na Itália, culpar a arbitragem pelos resultados tornou-se a maneira mais cômoda de esconder falhas do time dentro de campo – e também de dar um recado de que se espera uma “compensação” mais adiante. Em vez de aceitar erros como parte do jogo, fazem de cada um deles um escândalo. Desta forma, fica difícil abafar a histeria.

Mais público, menos violência

A média de público na primeira metade da Série A cresceu 10,7% em relação ao mesmo período na última temporada: 24.825 espectadores por jogo, contra 22.430 em 2007/08.

Outra boa notícia é a redução nos índices de violência nos estádios: queda de 28,2% no número de brigas com feridos (de 39 para 28), e de 53,5% nas prisões (de 129 para 60).

Os dados foram divulgados pelo observatório sobre as manifestações esportivas do Ministério do Interior italiano, que tem o poder de impedir, por exemplo, que a torcida visitante compareça a jogos considerados de alto risco.

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Equipe Trivela

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