Itália

Graças a Gigie Totó

Sabe quando dizem, depois de uma vitória, que determinado jogador merece parte do “bicho” por ter salvado a pele dos companheiros? Essa foi a história da vitória da Itália por 2 a 1 sobre o Chipre, em Larnaca, na estréia dos campeões mundiais nas eliminatórias para 2010. Antonio Di Natale, autor dos dois gols, e Gianluigi Buffon, responsável por inúmeras defesas fundamentais, são os únicos merecedores de elogios em meio a uma atuação preocupante da Azzurra.

Durante os 90 minutos, o Chipre pareceu estar sempre uma marcha mais veloz que a Itália. Os jogadores locais chegavam primeiro à bola, tinham facilidade nos lances de um contra um e ditavam um ritmo frenético, sobretudo no primeiro tempo. Isso traz à tona uma antiga discussão de início de temporada: se a seleção joga em setembro, não seria o caso de antecipar o começo da Série A e evitar que a maioria dos atletas cheguem à ‘Nazionale’ sem ritmo de jogo?

Marcello Lippi defendeu a idéia depois da partida do último sábado. Afinal de contas, os times já jogam normalmente em agosto, mas vários deles usam as datas para amistosos lucrativos. Se o problema é o calor intenso em boa parte do país, a solução seria fazer as partidas à noite.

O argumento é, sem dúvida, um atenuante, mas não justifica a opção ultra-otimista de Lippi na definição do time para Larnaca. Escalando Toni e Gilardino para formar o tridente ofensivo com Di Natale, o técnico de Viareggio deu espaços de sobra para o Chipre trabalhar. Os anfitriões não eram pressionados pelos atacantes na saída de bola e chegavam como queriam à intermediária ofensiva, sobretudo pelo lado esquerdo, com Aloneftis causando pesadelos em um irreconhecível Zambrotta e, posteriormente, em um igualmente fraco Cassetti.

O lateral do Milan não foi o único a apresentar um futebol bem distante do que já se viu. No meio-campo, Pirlo se mostrou sem a lucidez habitual, cometeu um número incomum de erros de passes, e nem mesmo nas bolas paradas foi efetivo. Pior de todos foi Toni, mostrando que a má fase iniciada na Eurocopa com a camisa da seleção ainda não terminou. Pesado, lento, presa fácil para a marcação. Não parecia o Chuteira de Ouro da Europa.

Para piorar a situação, a bruxa andou solta nos primeiros 20 minutos. Gamberini teve de sair logo de cara, com uma luxação no ombro, e Grosso precisou ser substituído após fraturar duas costelas. Entraram Barzagli – outro que esteve em péssima noite – e o já citado Cassetti. Zambrotta passou para a esquerda, e em vez de ser superado por Aloneftis, passou a sê-lo por Okkas.

As lesões limitaram as opções de Lippi para mexer no time. A solução encontrada para tentar tirar o domínio territorial do Chipre foi sacar Toni e reforçar o meio-campo com Gattuso. Parecia ser a melhor opção para escalar desde o início, mas nem isso foi o suficiente. Os cipriotas continuaram melhores, e já podiam se considerar frustrados com o empate quando Di Natale deu o golpe final, nos acréscimos, após uma bela combinação entre Gilardino e Camoranesi na entrada da área.

A segunda ‘doppietta’ de Totó (que já havia marcado duas vezes na vitória da Udinese sobre o Palermo, na abertura da Série A) só bastou à Azzurra porque Buffon deu uma aula no gol. Quatro cipriotas diferentes deixaram de marcar por causa do camisa 1. Não é exagero dizer que poderia ter sido uma derrota vexatória. Por isso, a semana começou na Itália com uma questão levantada por analistas: já não seria o caso de colocar Buffon na história pelo menos ao lado – se não acima – do lendário Dino Zoff?

Enquanto a história vai se encarregando de definir o lugar de Gigi, Lippi pensa em como armar o time para o encontro desta quarta com a Geórgia, em Udine. Mexer em algumas peças já era uma opção desde antes de sábado, mas se tornou imperativo. Duas mudanças serão obrigatórias. Como Barzagli não convenceu no lugar de Gamberini, espaço para Legrottaglie, protagonista de uma incrível volta por cima na carreira sob o comando de Ranieri na Juventus. Na lateral-esquerda, deve começar Dossena, que já chegou ao Liverpool com moral de titular.

Toni e Pirlo, visivelmente fora das melhores condições, também devem ser sacados. Assim, Gilardino passaria para o centro do ataque, dando espaço a Del Piero no tridente. Trocar Di Natale, que jogou o tempo todo no sábado, pelo mais descansado Iaquinta até poderia ser uma opção, se a partida não fosse na cidade em que Totó é ídolo.

No meio-campo, De Rossi seria deslocado para a vaga de Pirlo, e seu colega giallorosso Aquilani completaria o trio com Camoranesi, cuja versatilidade segue sendo admirada por Lippi. Gattuso deixou de ser opção ao lesionar o pulso no treino de domingo, para os jogadores que não foram titulares no Chipre.

Bater a Geórgia de Cúper e Kaladze, velhos conhecidos do futebol italiano, é obrigação – mas está longe de ser algo garantido, como ensinou o empate com a Lituânia no início da classificação para a Euro 2008. Na frieza dos resultados, seria uma arrancada perfeita, dando tranqüilidade para os jogos de outubro contra Bulgária e Montenegro. Ainda assim, dos campeões do mundo, sempre se espera um pouco mais.

Balotelli: quando é o momento certo?

Depois de fazer 18 anos, idade legal para obter a cidadania italiana, Mario Balotelli realizou o sonho de defender o país onde nasceu e cresceu. O atacante da Inter, filho de imigrantes, atuou pela seleção sub-21 na última sexta-feira e marcou o gol do empate por 1 a 1 com a Grécia, pela fase eliminatória do Europeu da categoria. A boa atuação logo na estréia impressionou – como já havia impressionado o fato de ter cavado espaço na Inter, onde é difícil haver espaço para revelações da base.

A questão se tornou inevitável: quando Balotelli terá uma oportunidade na seleção principal. Curiosamente – ou sabiamente – o menos empolgado parece ser Lippi, que pede tempo para não queimar etapas com o garoto. Um período com a sub-21 e a eventual participação na fase final do Europeu, no próximo verão, só poderiam fazer bem. Se for convincente na passagem pela seleção de base e em sua primeira temporada completa como profissional com os ‘nerazzurri’, aí sim sua candidatura ficará mais forte e embasada. Até porque há mais gente no bolo para chegar à seleção principal, como Rossi, Giovinco e Acquafresca.

Drama-Borgonovo, a Itália se mobiliza

Os italianos foram surpreendidos na última semana com a aparição do ex-jogador Stefano Borgonovo (na foto, com a esposa Chantal) em uma entrevista exclusiva à Sky Sport. Borgonovo, que teve passagens por Milan e Fiorentina, além de três partidas pela seleção, revelou ao país que sofre de esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como mal de Lou Gehrig.

A doença degenerativa atinge os neurônios motores, causando perda de funcionalidade e posterior atrofia dos músculos, comprometendo a locomoção e até mesmo a fala. A mente, porém, permanece lúcida. As estatísticas mostram um número pequeno de casos, mas dentro deste universo há uma quantidade assustadora de atletas.

Borgonovo, de 44 anos, revelou ter aberto uma fundação para a pesquisa de uma cura para a ELA e mostrou uma comovente vontade de lutar pela vida. Para ajudá-lo em seu propósito, Fiorentina e Milan farão um amistoso beneficente no dia 8 de outubro, no estádio Artemio Franchi, com renda revertida para as pesquisas.

O objetivo, no entanto, é ir além: convencer a federação a ceder parte da renda dos jogos da seleção, e quem sabe até realizar uma rodada inteira da Série A e da Série B com percentuais destinados à luta contra a doença.

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Equipe Trivela

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