Itália

Os garotos da Itália reivindicam espaço, agora com o título na Euro Sub-19

A Itália vinha do vice recente no Mundial Sub-20 e, com alguns garotos reaproveitados, foi campeã europeia sub-19

A Itália voltou a se proclamar campeã europeia neste domingo, agora nas categorias de base. A Azzurra conquistou o Campeonato Europeu Sub-19. Em decisão realizada em Malta, os italianos asseguraram o troféu com a vitória por 1 a 0 sobre Portugal. É a quarta vez que a Itália conquista a Euro Sub-19, seu primeiro título na categoria em 20 anos. Além disso, a taça valoriza um pouco mais o trabalho realizado pelo país na formação de talentos. Os italianos já vinham de uma ótima campanha no Mundial Sub-20, com o vice-campeonato do torneio, e indicam uma boa fornada para ser observada em breve pelo técnico Roberto Mancini.

A Itália aproveitou no Europeu Sub-19 alguns garotos que disputaram o Mundial Sub-20. Quatro jogadores participaram das duas competições, em especial o meio-campista Giacomo Faticanti, que se tornou capitão no título continental. Entretanto, principal nome ainda elegível ao sub-19, o atacante Simone Pafundi, ganhou um descanso após se destacar no Mundial Sub-20. O garoto de 17 anos, que pertence à Udinese, chegou a estrear pela seleção principal em novembro de 2022.

Tal abertura de Roberto Mancini, aliás, leva a crer que a geração campeã da Euro Sub-19 deva ser tratada com carinho. Durante os últimos meses, o treinador da seleção principal promoveu vários testes e deu espaço a garotos surgindo nas seleções de base. Obviamente, as circunstâncias facilitavam tais oportunidades, diante da ausência da Itália na Copa do Mundo. De qualquer maneira, o comandante proporciona um impulso para que essas promessas sejam valorizadas também dentro de seus clubes – num processo que demanda paciência e nem sempre acontece da maneira devida.

Como foi a campanha da Itália

A Itália passou aperto nas eliminatórias da Euro Sub-19. A Azzurra terminou na terceira colocação de seu grupo na primeira fase classificatória, igualada com os mesmos seis pontos de Polônia e Estônia. A vaga na segunda fase qualificatória só veio porque os italianos terminaram como os melhores terceiros colocados. A partir de então, o time deslanchou e assegurou a vaga na fase final passando por um grupo dificílimo. Só o líder sobreviveria e a Itália deixou para trás Alemanha, Bélgica e Eslovênia.

A fase final da Euro Sub-19 aconteceu em Malta. A Itália avançou na segunda colocação do Grupo A. A Azzurra goleou Malta por 4 a 0, mas depois tomou uma goleada por 5 a 1 diante de Portugal. A classificação se deu apenas no confronto direto com a Polônia, graças ao empate por 1 a 1. Os italianos avançaram porque marcaram mais gols que os poloneses na fase de grupos, ambos com saldo igualado.

Já nos mata-matas, a Itália se superou. A equipe eliminou a Espanha nas semifinais, com o placar de 3 a 2. A Roja empatou a partida duas vezes, mas Luca Lipani anotou o gol decisivo aos 40 do segundo tempo. Já na decisão, a Itália conseguiu sua revanche contra Portugal e comemorou o triunfo por 1 a 0. Michael Kayode balançou as redes aos 19 minutos do primeiro tempo, com uma cabeçada potente após o cruzamento perfeito de Luis Hasa, principal fonte criativa da equipe. Outro nome importante foi o goleiro Davide Mastrantonio, que evitou o empate com uma grande defesa no segundo tempo.

O histórico recente da Itália na base

A Itália chegou à fase final dos três campeonatos europeus de base realizados em 2023. No entanto, caiu na fase de grupos no sub-17 e no sub-21, com sua glória maior no sub-19. O novo título faz jus a um bom histórico recente dos italianos com suas equipes juvenis, com várias campanhas de relevo nos últimos dez anos. O sub-17 chegou a ser vice-campeão europeu em três oportunidades de 2013 a 2019. O sub-19 também teve vices recentes em 2016 e 2018. Já o sub-21 tem um vice em 2013 e um terceiro lugar em 2017.

Os primeiros sucessos da Itália no Europeu Sub-19 aconteceram há mais de meio século. A Azzurra ganhou o torneio pela primeira vez em 1958 e repetiu o feito em 1966, numa edição cujo troféu acabou dividido com a União Soviética. A glória mais recente tinha ocorrido em 2003. A equipe estrelada por nomes como Giorgio Chiellini, Alberto Aquilani e Gianpaolo Pazzini curiosamente também foi campeã em cima de Portugal na decisão.

Como Mancini tem aproveitado os garotos

A Itália promoveu as estreias de muitos jovens ao longo dos últimos meses na seleção principal. Roberto Mancini aproveitou diversos amistosos para fazer observações. O time convocado para a última Data Fifa tinha três atletas sub-23: Wilfried Gnonto (Leeds United), Giacomo Raspadori (Napoli) e Davide Frattesi (Internazionale). Antes disso, outros dez jogadores de até 23 anos tinham ganhado chances na Azzurra nos últimos 12 meses. O supracitado Pafundi é quem mais chama atenção pela precocidade e quebrou o recorde da seleção ao entrar em campo com 16 anos. Entre os outros garotos testados estão nomes como Giorgio Scalvini (Atalanta) e Fabio Miretti (Juventus).

O elenco da Itália no Europeu Sub-19 tinha inclusive alguns jogadores que atuam no exterior: o zagueiro Fabio Chiarodia (Werder Bremen), o meia Cher Ndour (Benfica, mas a caminho do PSG) e o atacante Luca Koleosho (Espanyol). De qualquer maneira, clubes tradicionais da Itália também ofereceram seus talentos, a exemplo do capitão Giacomo Faticanti (Roma), do artilheiro Samuele Vignato (Monza), do craque do torneio Luis Hasa (Juventus) e do herói do título Michael Kayode (Fiorentina). Olho também nos primos Lorenzo Dellavalle (Juventus) e Alessandro Dellavalle (Torino), que compuseram a zaga titular. Por enquanto, nenhum deles foi aproveitado por Mancini, até porque a maioria não estreou na Serie A.

A ascensão desses jogadores, todavia, depende mais do próprio trabalho dos clubes. Há um olhar maior para as categorias de base, especialmente de times que ascenderam na tabela do Campeonato Italiano nos últimos anos – a exemplo da Atalanta, do Sassuolo ou do Monza. Tal sequência como profissionais é importante a esses talentos em ascensão, para ganharem experiência. Entretanto, tantas vezes as equipes preferem um caminho mais fácil através de contratações, em vez de maturar os prodígios que surgem na base.

Em março, o técnico Roberto Mancini ressaltou a necessidade de botar mais gente da base para jogar nos clubes: “Acho que o problema existe há anos, agora só é maior. Quando eu jogava eram poucos estrangeiros, agora é o contrário, com poucos italianos. Temos dificuldades de encontrar talentos. O maior problema é a possibilidade para esses jovens se expressar. Se alguém é jovem, mas tem qualidade, deve ter a oportunidade de jogar, cometer seus erros e depois ganhar outras chances. No meu trabalho, tento fazer isso na seleção e dar chances a esses garotos. Eles nos darão uma grande satisfação”. O título sub-19, junto com o vice no Mundial Sub-20, aumenta esse apelo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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