O interessa aos jogos do Milan não acaba quando soa o apito final. Com Gennaro Gattuso à beira do campo, vale prestar atenção além. As comemorações do agora treinador são sempre marcantes, ainda mais quando se vive uma fase tão boa. Isso ficou evidente nesta quarta, quando os rossoneri eliminaram a Lazio nas semifinais da Copa da Itália, nos pênaltis. No entanto, Rino também consegue fugir da mesmice em suas entrevistas. A cada novo encontro com a imprensa, o comandante oferece boas declarações e opiniões singulares, que não se limitam a agradar A ou B. O que se viu após o triunfo no Estádio Olímpico de Roma.
Gattuso, aliás, teve uma postura que vai de encontro com a sua personalidade. Ao analisar esta ascensão com o Milan, acumulando 13 partidas de invencibilidade, o técnico manteve a humildade. Reconheceu os méritos de Vincenzo Montella e falou sobre a sua evolução gradual na função – embora também tenha mandado o seu recado àqueles que não acreditavam em suas credenciais.
“Estamos trabalhando conceitos. Atacando espaços, jogando de maneira mais compacta e buscando o gol adversário com o menor número de passes possível. As pessoas não percebem, mas não tomamos gols por causa do trabalho para cobrir as brechas, o time todo faz isso. Eu sei que isso os deixa loucos às vezes nos treinamentos, mas está dando resultados e todos têm seu valor no fim. É um elenco jovem e precisamos tentar ser a equipe que os torcedores sonham”, afirmou.
“Também é importante dar os créditos a Montella. Ele introduziu conceitos importantes e você ainda pode notá-los, o desejo por manter a posse e tocar a bola sem erros. Quero deixar isso claro, porque não sou um grande treinador. Ainda estou no início. Não sou um guru do banco de reservas e não consegui nada ainda. Ao mesmo tempo, não sou a pessoa despreparada que alguns pensaram que eu era. Eles se esquecem que eu trabalhei nos últimos cinco anos, ganhei o título na Lega Pro, tive experiências duras em circunstâncias difíceis no exterior”, complementou.
“Você não aprende essa profissão através dos livros, você aprende tomando porrada nos dentes com as adversidades. Tomei algumas e vou tomar mais. É um sonho trabalhar aqui e sou um cara muito sortudo, que recebeu uma oportunidade extraordinária. Se eu tiver a chance de permanecer no Milan, ficarei, porque aqui é minha casa. Se não puder, buscarei outras experiências”, finalizou.
Sobre a partida, Gattuso não deixou de elogiar a forma de seu time durante os 120 minutos. Lazio e Milan fizeram uma boa partida, movimentada, em que as virtudes defensivas dos rossoneri se sobressaíram. Já quando os pênaltis foram confirmados, o treinador tratou de focar no psicológico de seus atletas, especialmente após a chance desperdiçada por Nikola Kalinic nos minutos finais.
“A Lazio é um time que anotou quatro ou cinco gols em vários dos últimos jogos em casa, tem um dos maiores artilheiros da Europa. Eles combinam força física com grande técnica. Nós jogamos bem hoje, assegurando que não achassem espaços. Nós poderíamos ter marcado ou tomado gols. Foi uma noite de sofrimento. Quando Kalinic perdeu aquela chance, pensei que precisaria trabalhar com a cabeça dos jogadores antes dos pênaltis. Um erro pode acontecer, todos sabem disso. Nikola tem um problema muscular na coxa e mesmo assim joga com a faca entre os dentes. Ele é um grande rapaz, um bom jogador e um campeão”, analisou.
Um detalhe impressionante sobre o trabalho de Gattuso, mais do que as 13 partidas de invencibilidade ou os nove jogos sem tomar gols neste intervalo, é a maneira como a maioria absoluta dos jogadores exalta o treinador. Não parece mera bajulação, quando em praticamente todas as entrevistas, os atletas citam a maneira como o comandante eleva a confiança e cria um sentimento de união ao elenco. Seu maior triunfo, aparentemente, é este. A forma como, através de sua energia, consegue deixar todos ao seu redor eletrizados.
Alessio Romagnoli, por exemplo, disse que “o treinador deu a intensidade e a bravura que faltavam”. Gianluigi Donnarumma apontou que “o técnico nos transformou em um time de verdade, sempre juntos”. Hakan Çalhanoglu agradeceu o comandante, dizendo que “ele me mudou, conversando comigo bastante e tirando as pressões da minha cabeça”, assim como “mudou a mentalidade do clube”. Já Leonardo Bonucci o comparou a Antonio Conte, pela determinação e pelo carisma, afirmando que “sempre tive fé no seu projeto, pela maneira como ele sabe fazer este time, apesar da juventude e da relativa inexperiência, atuar coletivamente”. O zagueiro ainda complementou: “Eu fiquei maravilhado com a habilidade de Gattuso em transmitir, como treinador, a mesma fome que se via em campo durante seus tempos como jogador”.
Se o momento é de aplausos ao redor de Gattuso, porém, o treinador sabe que precisa manter os pés no chão, evitando qualquer tipo de empolgação. E não é preciso olhar longe no calendário para saber o motivo. No próximo domingo, o Milan enfrenta a Internazionale no San Siro. O Dérbi della Madonnina será fundamental para as pretensões das equipes na Serie A, considerando a possibilidade dos milanistas se aproximarem da zona de classificação à Liga dos Campeões, apesar dos sete pontos de distância atuais. Será uma noite para Rino, em diferentes aspectos. Especialmente pela vibração.



