Itália

Ferida aberta

O reencontro entre Juventus e Inter, no último domingo, tinha todas as razões para ser tenso. Era a primeira partida entre as duas equipes desde o mar de lama que tomou conta do futebol italiano após o Calciocaos do ano passado.

De um lado, o clube pivô do escândalo, rebaixado à Série B, privado de dois títulos e excluído da Europa. Do outro, a equipe que herdou um dos títulos, ficou com o caminho livre para conquistar outro em campo e ficou à vontade no papel de paladina da moralidade, ainda que também tivesse seus esqueletos no armário. É verdade, também, que a Inter tinha motivos para olhar para a Juve como responsável, não pelas vias mais justas, pelo terrível jejum que assolou os nerazzurri durante os anos 90. Como, por exemplo, o pênalti não marcado de Iuliano em Ronaldo no confronto direto decisivo para o campeonato de 1997/8.

No fim das contas, o empate por 1 a 1 foi agradável de se assistir e satisfez a todos. Comprovou uma nova realidade na relação entre os dois clubes dentro de campo. A Inter é a Juventus de duas temporadas atrás, com uma incrível confiança em seus meios, sem muito brilhantismo, mas altamente eficiente. A Juve se transformou em um time movido pela superação e pelo desejo, especialmente dos jogadores que viveram o purgatório da Série B, de voltar a ser protagonista. É como se jogadores como Del Piero e Trezeguet tivessem sempre algo a provar.

A Inter tem razões para sorrir porque parece ter afastado a submissão psicológica que sempre lhe assolava ao enfrentar a Juve. Hoje, o time de Roberto Mancini parece entrar como favorito contra qualquer adversário, sem se incomodar com esta condição. Esta mentalidade, no entanto, seria afetada no caso de uma derrota em Turim.

A Juventus, por sua vez, em momento algum se comportou como a recém-promovida enfrentando os campeões que defendiam uma invencibilidade de 16 jogos na Série A, contando desde a temporada passada. Depois de empatar fora de casa com Roma e Fiorentina, a Vecchia Signora manteve sua invencibilidade contra os outros integrantes do grupo dos quatro primeiros. O orgulho juventino está intacto, assim como as chances de retornar à Liga dos Campeões – até mesmo com vaga direta na fase de grupos.

Problemas do passado esquecidos, então? Longe disso. O pós-jogo acabou marcado por eventos polêmicos, que mostraram que o ódio entre os dois lados continua latente. A entrada de Nedved que fraturou o perônio de Figo, por exemplo, não ficou bem resolvida.

Em entrevista concedida a uma emissora de TV na segunda-feira, o presidente interista Massimo Moratti atacou o tcheco da Juventus. “Isso não é coisa que acontece entre dois craques”, disse. “Logo, um deles não é”.

A declaração de Nedved publicada no site oficial da Juventus não traz exatamente um pedido de desculpas. O meia afirmou apenas que “esclareceu tudo” com o português no domingo à noite. Nedved desejou a Figo uma “rápida recuperação” e disse que “não teve a intenção” de lesioná-lo.

Intencional foi, sem dúvida, a reação intempestiva de Ibrahimovic ao ser abordado por Chiellini no fim da partida (veja o vídeo). Os dois protagonizaram um duelo bastante físico ao longo dos 90 minutos, e o defensor juventino pareceu sair por cima. Parar Ibrahimovic era, de fato, uma questão de honra. O sueco, aos olhos juventinos, era o jogador que pulou fora no momento mais difícil.

Ironicamente, Camoranesi também teria pulado fora se pudesse, mas não conseguiu. Hoje, em grande parte pelos problemas físicos, o campeão mundial se vê relegado a um papel de coadjuvante no time de Claudio Ranieri. Contra a Inter, porém, acabou sendo protagonista, entrando no segundo tempo para marcar o gol de empate.

Para Mancini, a baixa de Figo chega no pior momento possível, já que Vieira e Stankovic também estão indisponíveis e o meio-campo terá de ser reinventado, provavelmente também em sua geometria. Usar Suazo como trequartista pode ser uma solução, mas seria tão boa quanto pode ser bom um improviso.

A Juventus, por sua vez, tem se dado bem com uma defesa alta, fato incomum nos times dirigidos por Ranieri, mas em alguns momentos se ressente da falta de um jogador de criação no meio-campo, qualidade que Cristiano Zanetti, Nocerino, Almirón e Tiago não podem oferecer. Talvez isso explique o interesse em Riquelme, comentado há algumas semanas. O argentino seria fundamental para explorar da melhor forma o potencial ofensivo da Juve, que hoje depende muito dos lances pelos lados do campo, que nem sempre acontecem por causa das características mais defensivas dos laterais.

San Siro, alegria dos visitantes

Quando for enfrentar o Milan, feche bem sua defesa e saia de San Siro com pelo menos um ponto. Essa é a cartilha dos adversários que têm deixado o time rossonero sem soluções na Série A. O empate por 0 a 0 conquistado pelo Torino no último sábado mantém o time de Carlo Ancelotti sem vencer em seus domínios.

A goleada de 5 a 0 sobre a Sampdoria, em Gênova, mostrou que o Milan fica muito mais à vontade quando é visitante.

Na Liga dos Campeões, clubes como Benfica e Shakhtar Donetsk, grandes em seus países, tentam atacar o Milan e cedem espaços, dão o contra-ataque. Por isso, quando joga pela competição européia, os milanistas não têm problemas para se impor.

A volta de Ronaldo, nesse sentido, é uma grande notícia. O brasileiro é capaz de abrir defesas e fazer a diferença. Com ele, talvez o Milan não vire o ano sem vencer diante de seu público.

Fiorentina ok, Roma freada

Ballotta deu o presente e Pazzini não falhou. Enquanto a Lazio se afunda nas dificuldades de conciliar Liga dos Campeões e Série A com um elenco limitado, a Fiorentina continua seu vôo invicto rumo à classificação que as sentenças judiciais lhe tiraram nas últimas duas temporadas.

Será, então, a Fiorentina a anti-Inter? A Roma cedeu o empate ao Empoli de uma forma nada adequada para um candidato ao título: depois de fazer 2 a 0 sobre um dos times mais fracos do campeonato. Felizmente para os giallorossi, Totti pode voltar neste fim de semana.

Seleção da rodada

Sereni (Torino); Maggio (Sampdoria), Chiellini (Juventus), Córdoba (Inter), Pasqual (Fiorentina); Liverani (Fiorentina), Hallfredsson (Reggina), Mancini (Roma); Langella (Atalanta), León (Genoa), Lavezzi (Napoli).

Férias

O titular desta coluna, Cassiano Ricardo Gobbet, está em férias e retorna na próxima semana.

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Equipe Trivela

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