Itália

Totti e Klose: uma capital de dois imperadores

Recentemente, Lazio e Roma tem vivido momentos absolutamente distintos na Serie A. É como se não houvesse espaço para que duas equipes romanas tenham sucesso ao mesmo tempo no campeonato. Enquanto na primeira parte da temporada, a Lazio levou a melhor sobre uma Roma irregular e que acabou por demitir Zeman após a quarta rodada do returno, agora são os giallorossi que levam vantagem sobre os laziali, que vem em franca queda na tabela.

Neste cenário, dois personagens se sobressaem pelo seu poder de liderança e pelos números que carregam. Ambos são veteranos que chamam a responsabilidade e decidem. Na Roma, Francesco Totti, e na Lazio, Miroslav Klose. O primeiro tem surpreendido os mais otimistas e, do alto de seus 36 anos, jogou quase todas as partidas disputadas pelos Lobos no campeonato. É, de longe, o principal jogador romanista. Klose, por sua vez, foi essencial na arrancada das Águias no primeiro turno, até se machucar, após a 20ª rodada. Desde então, a Lazio só faz cair. A queda chegou em seu ápice neste fim de semana, quando a Roma ultrapassou a Lazio na tabela, pelos critérios de desempate. As duas equipes tem 47 pontos e ocupam, respectivamente, a 6ª e a 7ª posições. Tudo isto acontece faltando apenas duas rodadas para o Dérbi de Roma, que acontecerá na 31ª jornada.

Totti faz um campeonato exemplar. Com uma forma física realmente assustadora, ele já atuou em 26 das 29 rodadas. Está a um jogo de igualar o número de partidas que disputou na última temporada e, muito provavelmente, superará as 30 presenças. Caso ultrapasse este patamar, o Pupone estará superando limites que raras vezes conseguiu em sua carreira de 20 anos como jogador profissional.

O capitão da Roma sempre teve de conviver com pequenos (mas constantes) ressentimentos musculares, que o afastavam dos gramados por algumas rodadas. Por causa disso, superou a marca de 30 jogos em um único campeonato da Serie A apenas seis vezes em 20 anos. Nas últimas 10 temporadas, ele ultrapassou a marca três vezes, justamente em algumas de suas melhores temporadas, todas terminadas em vice-campeonatos romanistas: em 2003-04, quando marcou 20 gols; em 2006-07, por sua vez,  jogou como centroavante e foi o artilheiro da Europa, com 26 gols, o que lhe valeu o prêmio Chuteira de Ouro; já em 2010-11, era a válvula de escape de uma Roma que se desgastava com Ranieri e, mesmo assim, marcou 15 gols. Em 2005-06, pouco antes de ser importante na conquista do tetracampeonato da Itália, ficou próximo de atingir a marca, mas devido a uma lesão sofrida contra o Empoli, encerrou a temporada mais cedo, com 15 gols em 24 jogos.

O Totti de hoje mescla os melhores momentos de sua carreira e é forte candidato a melhor jogador desta temporada – na média de votos atribuídos pela Gazzetta dello Sport, ele é o líder, com 6,73 no total. Os melhores momentos de quando jogava mais recuado, como trequartista (ou rifinitore, como italianos gostam de falar), e as principais qualidades como matador – este é o maior mérito de Zeman em sua segunda passagem pela Roma, uma vez que ele sempre soube tirar o melhor de Totti. Mesmo após a saída do técnico tcheco e a efetivação de Andreazzoli, Totti continua atuando da mesma maneira. Joga centralizado, mas não se furta a alongar-se para os flancos para distribuir o jogo. Não à toa, tem 11 gols no campeonato e tomou o posto do mito Nordahl como segundo maior artilheiro da história da Serie A.

Ele também é o vice-líder no quesito assistências desta temporada, com 10. Muitos dos 13 gols de Lamela e dos 11 de Osvaldo nasceram dos seus pés. Contra o Parma, em jogo que entrou para a história por conta da quebra da marca de Nordahl, ele fez muito mais. Desfilou classe e deu uma infinidade de passes, incluindo um de calcanhar em pleno voo, que só não originou um gol porque Perrotta chutou no travessão. Totti já era importante com Zeman, mas Andreazzoli seu brilho tem maior importância. O novo técnico ajeitou a defesa, que já sofre menos gols, e as magias do capitão passam a valer preciosos pontos. A Roma está invicta há cinco jogos (são quatro vitórias e um empate), e Totti foi fundamental para garantir três sucessos.

Do outro lado de Roma, a torcida da Lazio lamenta muito que o seu único jogador que tem o mesmo peso de Totti esteja de fora há dois meses. Klose não tem a mesma importância história para os aquilotti como o capitão da Roma tem para o seu clube, mas já tem status de ídolo. O alemão decidiu se provar em um campeonato estrangeiro depois de fazer história na Bundesliga e, sobretudo, na seleção de seu país.

Embora muitos desconfiassem de sua eficácia e vontade logo quando sua contratação foi anunciada, Klose logo deu a resposta. Com 12 gols, ajudou a equipe a qualificar-se para a Liga Europa com o 4º lugar obtido em 2011-12 e também fez o nome da equipe ganhar novamente as manchetes internacionais. No campeonato particular com a Roma, foi a primeira vez em 14 anos que a Lazio venceu todos os dérbis da temporada e a primeira vez em 9 anos que a equipe biancoceleste acabou a Serie A à frente da rival local.

Em sua segunda temporada vestindo biancoceleste, Klose estava realizando feitos muito significativos. Antes de se machucar por mais de dois meses, Miro havia disputado todas as 20 partidas do campeonato e marcado 10 gols – média de um gol a cada dois jogos; nenhum deles de pênalti. Gols importantes, como o marcado no clássico contra a Roma. Com ele em campo, a Lazio tinha incríveis 70% de aproveitamento, registrados até o início de janeiro. O número era recorde na história do clube, superior até aos conquistados por Maestrelli, em 1973-74, e Eriksson, em 1999-2000, nas duas oportunidades em que a esquadra conquistou o scudetto. Sem o alemão, que se machucou após a partida contra a Atalanta, esse número cai assustadoramente: são míseros 18%.

Desde que Klose foi passar uma temporada no estaleiro, a campanha laziale degringolou. Em 9 jogos, a equipe conquistou apenas uma vitória e, pior, perdeu 6 vezes. Para completar o quadro, as derrotas foram significativas: contra Milan e Fiorentina, concorrentes diretos a vagas em competições europeias, e contra Genoa e Siena, times que lutam contra o rebaixamento – sem contar o empate contra o Palermo, lanterna do campeonato.

Petkovic, tido como a maior revelação do campeonato (e era mesmo, até o momento), passou a ser amplamente criticado por não conseguir resolver os problemas. Floccari, que vinha jogando bem, se lesionou e deixou a equipe na mão. Já Kozák, artilheiro da Liga Europa com 8 gols na fase final, ainda não conseguiu desencantar nesta Serie A. O fato é que há três jogos a equipe não marca um gol sequer. Saha, contratado como opção de experiência após a lesão do bomber tedesco, também está em branco. Falta a Petkovic saber reinventar a equipe, que sente falta de sua referência. Candreva, Mauri e Hernanes, jogadores importantes do elenco, também caíram muito de produção com a ausência de Klose e o suíço de origem bósnia está tendo dificuldades de encontrar um novo caminho.

Às vésperas do dérbi romano, a Lazio espera ter o retorno do alemão o quanto antes. Klose pode voltar já na próxima rodada, quando a pressionada Lazio recebe o organizado e surpreendente Catania, equipe que também pode ultrapassá-la na tabela de classificação. É mais provável, no entanto, que ele ganhe apenas alguns minutos contra a equipe siciliana, para chegar um pouco mais preparado – embora longe dos 100% – no clássico que pode ajudar a definir o futuro das equipes romanas no campeonato. Enquanto isso, a Roma terá um compromisso bem mais acessível contra outro time siciliano, o Palermo, e pode chegar ao dérbi com a moral em alta e um Totti que faz os Lobos voarem mais alto que as Águias.

Pallonetto

– A seleção italiana terá dois compromissos nos próximos dias: amistoso de gala contra o Brasil, na quinta, e jogo válido pelas Eliminatórias da Copa contra Malta, na terça. Falaremos sobre os dois jogos na próxima coluna.

– Uma das maiores confusões recentes sobre arbitragem está prestes a começar. O árbitro Mazzoleni não marcou dois pênaltis a favor do Pescara em jogo no qual os golfinhos saíram derrotados por 2 a 0 para o Chievo. Quando o presidente Sebastiani foi questioná-lo, Mazzoleni respondeu que ele deveria “se comportar bem durante a semana”, referindo-se às críticas feitas por ele a uma arbitragem anterior, e insinuando que não havia assinalado os pênaltis de propósito. O caso foi parar na procuradoria federal e pode dar pano para manga.

– Seleção Trivela da 29ª rodada: Buffon (Juventus); De Sciglio (Milan), Marquinhos (Roma), Cesar (Chievo), Zúñiga (Napoli); Cuadrado (Fiorentina), Brighi (Torino), Gómez (Catania); Balotelli (Milan), Cavani (Napoli), Totti (Roma). Técnico: Rolando Maran (Catania).

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