Itália

Entrega ou não entrega?

Os torcedores na capital italiana viveram no último domingo um exemplo da montanha russa de emoções que o futebol é capaz de proporcionar. Uma semana antes, a Roma havia triunfado de virada no dérbi contra a Lazio, mantendo a liderança da Serie A e renovando o sonho de conquistar o primeiro scudetto desde 2001. Do outro lado, a derrota mantinha os biancocelesti intranquilos, ainda ameaçados pelo rebaixamento.

Então, tudo mudou. Superada pela Internazionale no sábado, com a vitória nerazzurra por 3 a 1 sobre a Atalanta, a Roma capitulou em casa no dia seguinte. Saiu na frente contra a Sampdoria, mas não resistiu à noite inspirada de Pazzini, que marcou duas vezes no segundo tempo e determinou a vitória blucerchiata por 2 a 1.

Horas antes, a Lazio havia vencido o Genoa também por 2 a 1, fora de casa, com o gol da vitória marcado por um cada vez melhor André Dias. O resultado levou o time a 40 pontos, marca considerada segura para a permanência na Serie A. Ainda não há a certeza matemática da fuga do rebaixamento, mas são seis pontos de vantagem para a Atalanta, antepenúltima colocada. O Siena, com 30 pontos, está virtualmente rebaixado, enquanto o Livorno, com 29, já caiu.

Quis o destino que a certeza da “salvezza” pudesse vir justamente em um jogo contra a Inter, no Olímpico de Roma. O que coloca para os torcedores um dilema: vale a pena vencer ou empatar um jogo que pode proporcionar a volta dos rivais à liderança, restando apenas duas rodadas para o fim? A resposta, quase unânime em manifestações da torcida em fóruns de discussão e programas de rádio, é negativa. O laziale prefere que a equipe perca no fim de semana, ainda que isso signifique manter a possibilidade de descenso.

A tabela das duas últimas rodadas ajuda a explicar tal postura. Na penúltima rodada, a Lazio visita o Livorno, já na Serie B, e na última recebe a Udinese, com o objetivo da permanência já alcançado. A Atalanta, por sua vez, tem um confronto direto com o Bologna (39 pontos, 17º colocado), visita a Fiorentina na penúltima rodada e recebe o Palermo, postulante à Liga dos Campeões, na última. A crença do torcedor da Lazio é de que, mesmo com a derrota para a Inter, só um desastre de grandes proporções mandaria o time para a segunda divisão.

Outro raciocínio é ligado às chances de título da Roma. Caso os giallorossi superem a Inter com uma vitória no campo do Parma, as duas partidas restantes não reservam grandes desafios. Cagliari e Chievo, os dois adversários da Roma, já cumpriram o objetivo de fugir do rebaixamento e jogam relaxados. A Inter pega o mesmo Chievo e um Siena que já deve ter caído, mas é difícil imaginar um revés romanista. Salvo uma enorme surpresa, o título se define neste fim de semana.

Entre a torcida desejar e os jogadores corresponderem, evidentemente, há uma grande distância. As torcidas de Lazio e Inter desfrutam de boas relações, podem assistir ao jogo juntas no domingo, mas nada disso garante que a tarefa nerazzurra seja facilitada. Vale lembrar que as duas diretorias não viveram exatamente um clima cordial ao longo da temporada, com a Inter assediando Pandev e Ledesma enquanto ambos estavam em litígio com o clube. Acabou levando o macedônio, que obteve a rescisão do contrato por meios judiciais.

A história recente mostra que a Lazio teve duas oportunidades de beneficiar a Inter contra a Roma em disputas de título e não o fez. A primeira foi no célebre “5 maggio”, a última rodada da temporada 2001/02, quando a Inter só dependia das próprias forças em uma luta com Juventus e Roma. A torcida da Lazio pediu para o time entregar, mas os biancocelesti venceram por 4 a 2. O título acabou nas mãos da Juve.

Em 2007/08, durante a arrancada romanista que levou a decisão do título para a rodada final, Lazio e Inter se cruzaram na 31ª rodada, e houve empate por 1 a 1. Naquele dia, porém, a Roma também empatou, com o Cagliari, e não conseguiu diminuir a diferença.

Este ano, no entanto, há um ingrediente para aumentar a intriga: o tumulto no fim do dérbi da rodada retrasada. O laziale Radu deu uma rasteira em Perrotta, houve empurra-empurra e bate-boca, e Totti fez o já histórico gesto dos polegares para baixo na direção da torcida rival, simbolizando o possível rebaixamento.

A atitude do capitão giallorosso não foi engolida nem pela torcida da Lazio, nem pelos jogadores em Formello. Na reapresentação do time de Edy Reja na segunda-feira, ninguém escondia a satisfação por ter visto o rival fracassar em pleno Olímpico e colocar o título em dúvida.

Antes de tudo, porém, deve estar o profissionalismo dos jogadores. A Inter é favorita por ter mais time que a Lazio, e não por uma suposta falta de vontade. Os jogadores têm de defender a própria dignidade e buscar uma certeza, a da permanência na Serie A, que ainda não tem. Mesmo que contrariem a própria torcida, que em caso de derrota fará festa – provavelmente com os polegares para baixo em ironia.

Milan: ruim hoje, pior amanhã?

Não foi surpresa o Milan ter sido matematicamente descartado da briga pelo título ao perder por 3 a 1 para o Palermo no último sábado. Surpresa foi o time ter estado na disputa pela liderança por tanto tempo, com um elenco tão deficiente. Nem mesmo a terceira vaga direta para a Liga dos Campeões é certa, e o clima de fim de feira em Milanello é assustador.

Já é certeza que Leonardo não permanecerá à frente da equipe. Não se sabe se por desejo de voltar ao Brasil (Flamengo? Seleção?) ou simplesmente por não estar à vontade em um cargo que lhe exige engolir sapos publicamente, com as constantes cornetagens de Berlusconi e Galliani.

As lesões de Pato, Nesta e Beckham serviram para evidenciar a falta de opções no elenco rossonero. Não há um jogador minimamente capaz de formar a dupla de zaga com Thiago Silva (que está pendurado há várias rodadas), e ver Oddo adaptado na zaga em Palermo foi um show de horrores.

Para a sucessão de Leonardo, a maior probabilidade é de uma nova solução caseira, com a dupla Filippo Galli-Mauro Tassotti. A velha história de “o Milan aos milanistas”. Galli trabalha nas categorias de base do clube e poderia ser, teoricamente, uma espécie de “Guardiola”, promovendo jogadores capazes de defender o time profissional. O problema é que, para quem acompanha de perto, não parece haver nomes tecnicamente maduros para encarar o desafio.

Berlusconi já deixou claro que será mais um ano de investimentos baixos. É necessário equilibrar o balanço e, como lembrou Galliani, desta vez não há um Kaká para salvar a lavoura com uma venda milionária. Desfazer-se de Pato está fora de cogitação. Para reforçar o caixa, o time acertou uma turnê de pós-temporada nos Estados Unidos, mas ela só será realizada caso a vaga direta na LC seja confirmada, já que uma eventual participação nos play-offs de agosto obrigaria o time a antecipar a reapresentação para o início de julho.

A vantagem de quatro pontos para a Sampdoria e seis para o Palermo é confortável, até porque os dois ainda se enfrentam, mas o time precisa de pelo menos cinco pontos nos jogos restantes contra Fiorentina, em casa, Genoa, fora, e Juventus, em casa, para não correr o risco de perder a terceira posição. Um lugar que provavelmente, no início da temporada, o clube aceitaria de bom grado pelo elenco que tem.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo