Futebol italiano

‘Fisicamente, sou abençoado’: Ex-alvo do United, Éderson responde sobre mercado e nova era com a Atalanta

Novo capitão da equipe de Bérgamo fala à Trivela sobre crescimento nos cinco anos de Itália e o assédio de gigantes europeus

Poucos jogadores brasileiros construíram uma relação tão profunda com um clube europeu nos últimos anos quanto Éderson. Em seu quinto ano na Itália, o volante deixou de ser uma promessa que buscava espaço para se transformar em um dos líderes da Atalanta, dentro e fora de campo. Aos 27 anos, tornou-se capitão, renovou seu contrato até 2031 e consolidou também seu espaço na seleção brasileira, integrando o grupo que esteve na Copa do Mundo deste ano.

A trajetória, que o jogador conta com exclusividade à Trivela, ajuda a explicar por que o mercado voltou seus olhos para Bérgamo. O Atlético de Madrid tentou contratar Éderson ao longo de 2026 e chegou a encaminhar um acordo com o jogador. Na reta final da temporada, foi a vez do Manchester United avançar.

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O clube inglês chegou a um acordo com a Atalanta por aproximadamente 38 milhões de libras (mais de 263 milhões de reais), em uma operação que parecia encaminhada. Depois da Copa do Mundo, porém, os exames médicos realizados na Inglaterra fizeram o negócio mudar de rumo. Os Red Devils relataram preocupação com o histórico de problemas no joelho do brasileiro, que havia passado por um procedimento no menisco.

O episódio não combina, ao menos na visão do próprio jogador, com sua realidade física. À reportagem, Éderson afirma que está bem, lembra sua disponibilidade ao longo das últimas temporadas e conta que retornou antes das férias para recuperar o condicionamento perdido durante a Copa. A resposta, naturalmente, carrega uma pequena provocação.

Éderson tem Atalanta como ‘segunda casa' e gratidão a Gasperini

O brasileiro começa a temporada 2026/27 como capitão da equipe em seu quinto ano, agora comandado por Maurizio Sarri. Mas a confiança que Gian Piero Gasperini depositou nele não sai da memória.

“Eu sou muito identificado com o clube, com o torcedor, até porque é o meu quinto ano aqui. Foi o melhor período da minha carreira, principalmente os três anos e meio com o Gasperini“, afirma o volante, que teve 139 jogos com o treinador que agora comanda a Roma.

A relação construída por Éderson ajuda a entender por que a permanência na Atalanta ganhou um significado diferente depois de uma janela na qual seu nome esteve ligado a alguns dos principais clubes da Europa. O clube de Bérgamo oficializou em julho a renovação do brasileiro até junho de 2031.

Éderson pela Atalanta (Foto: Imago/Marco Canoniero)
Éderson pela Atalanta (Foto: Imago/Marco Canoniero)

Desde sua chegada, em 2022, ele disputou 180 partidas pela Atalanta, marcou 16 gols e deu seis assistências. Foi peça importante na campanha do título da Europa League de 2024 e, posteriormente, ganhou espaço na seleção brasileira.

A renovação aconteceu poucos dias depois do fracasso da negociação com o Manchester United. Para a Atalanta, porém, Éderson já havia deixado de ser apenas um jogador importante: era um dos símbolos do projeto. E isso aparece na maneira como o brasileiro fala da família Percassi, proprietária do clube.

“Eu sempre conversei muito com o clube, tenho um excelente relacionamento aqui. Sempre que rolava isso (sondagens e propostas), eu perguntava qual era o intuito da Atalanta, qual era o projeto, se pensavam em me vender, e eles nunca pensaram em me vender”, revela.

À reportagem, o volante contou bastidores da relação com o clube durante as janelas de transferências. Éderson reforçou à Atalanta que só gostaria de ser vendido para um clube de alto nível. As negociações fracassadas com Atlético de Madrid e Manchester United, no fim, resultaram em uma ‘volta para casa' em que foi recebido de braços abertos.

E, inclusive, contou como a Atalanta se mostrou feliz em tê-lo de volta. “Eu sou muito unido com o clube e também sou muito grato à Atalanta, porque são os melhores anos da minha carreira até o momento”, conta o brasileiro.

“O Luca Percassi, com a família Percassi, eles me abriram grandes portas, acreditaram em mim, me deram grandes oportunidades. Só por isso eu consegui me identificar com o clube, fazer grandes coisas aqui, vencer um título, chegar em finais, jogar contra grandes clubes. Então, eu sou muito grato e muito identificado“.

O mercado, o Atlético de Madrid e o Manchester United

Ederson
Ederson pela seleção brasileira (Foto: Imago/Visionhaus)

O discurso de Éderson ajuda a colocar as movimentações de 2026 em perspectiva. O Atlético de Madrid tinha o brasileiro como um de seus principais alvos para o meio-campo e chegou a avançar nas negociações durante o primeiro semestre. O clube espanhol buscava justamente um jogador capaz de oferecer força física, recuperação de bola e equilíbrio ao setor.

As tratativas, entretanto, esbarraram na diferença entre o que o Atlético estava disposto a pagar e o que a Atalanta pretendia receber. Na sequência, o Manchester United entrou forte na disputa. O clube inglês apareceu como destino mais provável e chegou a um acordo com a Atalanta. Foi quando surgiu o episódio que até hoje intriga os envolvidos.

O caso do Manchester United ganhou uma dimensão particular porque a transferência estava muito próxima de ser concluída. O acordo existia, mas o negócio não avançou depois dos exames médicos. O United estaria preocupado principalmente com o histórico de cirurgias, e não com uma lesão atual.

O próprio Éderson, posteriormente, contestou publicamente a versão de que teria sido reprovado nos exames. Em entrevista à imprensa italiana, afirmou não saber o que havia acontecido e garantiu que os testes tinham corrido bem. A resposta à Trivela é ainda mais direta:

“Eu estou muito bem, como eu sempre estive, na verdade. Fisicamente, eu não posso reclamar. Eu sempre fui muito abençoado nesse quesito, sempre estive bem. As lesões que me atrapalharam nas convocações foram mínimas, me tiraram por alguns dias, só tive o azar de ter sido em um período muito próximo à convocação. Tanto é que eu sempre voltei muito rápido. Eu nunca tive nenhum tipo de lesão que me tirasse por muito tempo“.

O meio-campista voltou das férias e fez sua preparação normalmente no clube italiano depois disso. Voltou, inclusive, antes do combinado — teria mais dias de folga por conta da Copa do Mundo.

Fiz a preparação toda sem problemas, os exames todos, e comecei a temporada como sempre. Estou muito bem para seguir a temporada. E a Atalanta me conhece muito bem“, conta Éderson.

A Atalanta renovou com o jogador poucos dias depois do fracasso da transferência. Maurizio Sarri, treinador do time, também havia indicado que o brasileiro continuaria sendo uma peça central de seu projeto, descrevendo-o como um dos pilares da equipe. Mais do que simplesmente permanecer, Éderson voltou a Bérgamo com uma nova condição: a de capitão e líder de um time que pretende voltar a disputar competições europeias.

Ancelotti, Sarri e o futuro na Atalanta

A evolução na Atalanta também teve impacto direto na Seleção. Depois de anos como um dos principais meio-campistas da equipe, Éderson ganhou espaço no ciclo brasileiro e esteve na Copa do Mundo de 2026.

Na Seleção, encontrou um treinador com um perfil bastante diferente de Gasperini e Maurizio Sarri. Carlo Ancelotti é mais um capítulo na experiência do brasileiro com grandes técnicos italianos.

“São três grandes treinadores. Cada um tem a sua ideia de jogo, cada um ganhou algo diferente. Eu tive o prazer de ganhar um título com o Gasperini, então, querendo ou não, eu sou mais identificado com ele pelo tempo que a gente passou junto”, analisa.

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira
Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira. Foto: IMAGO / ANP

Ainda assim, seu contato com Ancelotti moldou a forma como abordou Sarri: “Eu já vim dessa experiência com o Ancelotti, de esperar um pouco para ver como é, porque às vezes você cria uma expectativa sobre (a personalidade) dos italianos”, brinca. “Mas são três personalidades diferentes, treinadores que têm ideias diferentes, mas cada um no seu modo conseguiu ganhar grandes coisas”.

Éderson também terá uma nova companhia importante no meio-campo da Atalanta. O clube acertou o retorno de Franck Kessié, que já havia defendido a equipe antes de passar por Milan, Barcelona e capitanear a Costa do Marfim na Copa do Mundo.

A contratação adiciona experiência, força física e liderança a um setor que já tem Éderson como uma de suas referências. Para o brasileiro, entretanto, o impacto da chegada do marfinense vai além do que ele pode oferecer dentro de campo.

“Eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia ele pessoalmente. E ele chegou de forma muito natural, leve, conversando com todo mundo, sempre muito disponível e aberto. Pelo que eu pude ver, ele é muito tranquilo, mentalmente também. Acho que isso é uma característica pelo líder que ele é, pela experiência de ter sido capitão, de ter jogado grandes jogos, de ter jogado em outros grandes clubes”, opina o volante.

Éderson começou sua temporada em alta: invicto nos quatro jogos que disputou até aqui e titular em todos. A Atalanta passou de fase na Conference League e tem duas vitórias na Serie A. Agora, neste sábado (5), enfrentará a Roma, no que será o último jogo antes da convocação para a seleção brasileira — a primeira desde a Copa do Mundo –, na próxima quarta-feira (9).

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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