É pra rir ou pra chorar?

A semana tinha cara de desastre para o Milan. Primeiro foi a lesão de Alessandro Nesta, que obrigou o zagueiro a operar o joelho e o tirou da partida decisiva pela Liga dos Campeões contra o Manchester United – e provavelmente do resto da temporada. Em Old Trafford, o Milan foi atropelado como se fosse um time da parte baixa da tabela da Premier League. E os 4 a 0 para os Red Devils não foram, de maneira alguma, exagerados. Os rossoneri em momento algum estiveram na partida. Ficou claramente exposto que o clube sete vezes campeão europeu hoje não tem um time capaz de disputar o principal título do continente.
O jeito, então, era pensar no campeonato. Por esse aspecto, a derrota da Internazionale por 3 a 1 para o Catania, na sexta-feira, serviu de alento. Bastava vencer o Chievo em San Siro para reduzir a diferença a apenas um ponto. Os visitantes chegavam com a terceira melhor defesa do campeonato, prometendo impor dificuldades, e foi justamente o que aconteceu. Clarence Seedorf, ainda tentando recuperar a melhor forma física após a última lesão, saiu do banco de reservas e garantiu a vitória aos 46 minutos do segundo tempo. A quarta vez no campeonato em que os rossoneri transformam um empate em vitória já nos acréscimos – a segunda contra o Chievo.
A história do jogo poderia ter sido diferente se o Chievo não tivesse um gol do colombiano Yepes mal anulado no fim do primeiro tempo. Mas nada ocupou tanto as manchetes quanto a grave lesão sofrida por David Beckham, que rompeu o tendão de Aquiles, deu adeus à temporada e também à Copa do Mundo. Pode ter sido ainda sua última partida pelo Milan, apesar de Adriano Galliani afirmar que o inglês teria as portas abertas para uma terceira passagem. Este ano, Beckham tinha a clara motivação de chegar inteiro ao Mundial. Difícil saber qual seria seu impulso para retornar novamente, aos 35 anos.
Para a arrancada nas dez rodadas que restam, o Milan pode contar com o retorno de Seedorf e Pato, mas a ausência de Nesta na defesa é um peso considerável, especialmente se consideradas as opções de Leonardo para substitui-lo. Em Manchester, ficou clara a dificuldade quando Bonera saiu lesionado no intervalo e Ambrosini foi recuado para a zaga.
O novato treinador brasileiro não foi perfeito na armação da equipe em Manchester, mas não se pode negar o fato de que seu trabalho supera, e muito, as expectativas. Com o elenco que a direção milanista lhe ofereceu, estar na briga pelo título da Serie A é um feito que não pode ser ignorado. O que leva a outra questão: uma eventual conquista do scudetto não poderia fechar os olhos para a evidente necessidade de reformulação no elenco?
Vejamos.
No gol, a saída de Dida é certa, já que seu contrato termina em junho. Restam Abbiati, Storari (atualmente emprestado à Sampdoria) e Roma. Abbiati é o mais confiável deles, mas certamente não é o goleiro ideal para um clube da grandeza do Milan, especialmente se comparado aos donos das metas rivais. A contratação de um goleiro de alto nível deveria ser uma das prioridades do Milan para a próxima temporada, mas é improvável que seja.
A defesa também precisará de atenção. Nesta temporada, Thiago Silva se encaixou à perfeição no time, cumprindo a nada fácil tarefa de substituir Maldini, e formou uma grande dupla com Nesta. Mas em que condições Nesta estará de volta? Sabendo que é um jogador com histórico de dificuldades físicas, o melhor é não pagar para ver.
Em vez de apostas inexplicáveis como o norte-americano Onyewu, o clube precisa se voltar para jogadores que já se mostraram capazes na Serie A. como Davide Astori, de 23 anos e protagonista de ótima campanha pelo Cagliari. Astori teve metade de seus direitos negociados com o clube sardo em 2008, por € 1,5 milhão, e é provável que o Milan necessite de um valor maior para tê-lo de volta.
As saídas de Kaladze e Favalli também estão praticamente sacramentadas. O Milan precisará de novas opções para as laterais, considerando as dificuldades de Abate para se adaptar na direita, a incapacidade de Antonini de dar o salto de qualidade e o fato de Zambrotta e Jankulovski terem entrado há algum tempo na descendente de suas carreiras.
Outro que não é o mesmo de antes é Gattuso, antes um titular indispensável, hoje opção de banco. O meio-campo está longe de ser o maior problema do time, com o capitão Ambrosini fazendo sua melhor temporada e Pirlo mantendo um bom nível. Mas quando Seedorf não joga, a falta de criatividade é evidenciada. Além de tudo, é um setor envelhecido. Sangue novo seria fundamental. Flamini, de quem se esperava mais, é o único com menos de 30 anos.
No ataque, o papel de Ronaldinho e Pato é indiscutível. Ronaldinho tem sido figura ativa na maioria das vitórias, e hoje não há como abrir mão de sua influência dentro de campo. Pato, por sua vez, precisa se livrar das lesões para encontrar a continuidade que não teve nesta temporada. Até por isso, se for mantido o módulo 4-3-3 que mudou os rumos da campanha milanista, serão necessárias opções. A revelação ganense Adiyiah pode ter mais espaço, mas ainda é pouco. Mancini, que jogou pouco e mal, dificilmente deve ser contratado em definitivo da Inter.
Borriello faz uma temporada decente como centroavante titular, mas hoje é praticamente a única opção. Huntelaar teve apenas lampejos, mas nem de longe é o goleador que se imaginava nos tempos de Ajax. Inzaghi, por sua vez, é quase ignorado por Leonardo, o que pode motivá-lo a deixar o clube no fim da temporada para encerrar a carreira em outro time, com mais minutos em campo.
É aí que reside o principal objetivo para a próxima temporada: Edin Dzeko, do Wolfsburg. O bósnio já confirmou ser um dos melhores atacantes em atividade na Europa, e certamente não sairá barato. Mas o desejo já manifestado do jogador em atuar no Milan pode fazer a diferença na negociação.
Como vimos, mudanças são necessárias em praticamente todos os setores do elenco. Para o torcedor milanista, o cenário ideal é que elas sejam feitas com o scudetto nas mãos. É indiscutível que a Inter tem o melhor time e o melhor elenco do campeonato, mas nem por isso os rossoneri precisam se entregar sem lutar.
Obviamente, nenhum milanista quer ver os rivais como campeões europeus depois de 45 anos, mas o cenário ideal é a Inter chegar o mais longe possível na Liga dos Campeões, a começar pela eliminação do Chelsea logo mais. A divisão de forças e atenções pode fazer com que os nerazzurri cheguem mais desgastados à reta final.
Na tabela dos jogos que restam, chamam a atenção os três próximos compromissos da Inter fora de casa: Palermo, Roma e Fiorentina. As três visitas que o Milan tem pela frente são claramente menos complicadas: Parma, Cagliari e Sampdoria.
Os dois times ainda recebem a Juventus, desesperada pelo quarto lugar, mas o jogo da Vecchia Signora contra a Inter é na 34ª rodada, e contra o Milan na última. E depois do escândalo de 2006, que tirou o título da Juve para dá-lo à Inter, não tenha dúvidas: o juventino não se incomodaria nem um pouco com um título rossonero. É bom lembrar, de qualquer maneira, que não basta ao Milan terminar empatado em pontos com a Inter, que leva a melhor pelo confronto direto.
Uma coisa é certa: a pressão pelo título está em Appiano Gentile. E o Milan pode usar isso a seu favor.
Veja o calendário de jogos restantes para Inter e Milan:
Inter: Palermo (f), Livorno (c), Roma (f), Bologna (c), Fiorentina (f), Juventus (c), Atalanta (c), Lazio (f), Chievo (c), Siena (f)
Milan: Napoli (c), Parma (f), Lazio (c), Cagliari (f), Catania (c), Sampdoria (f), Palermo (f), Fiorentina (c), Genoa (f), Juventus (c)



