E agora, Inter?

A cena de um comercial de televisão mostra dois amigos chegando ao topo de uma montanha após uma dura escalada. Um olha para o outro e diz: “Chegamos! Chegamos! Uhu!!”. Passam-se alguns segundos de silêncio e a conclusão vem em seguida: “E aí, ‘vambora’?”
A Internazionale terminou uma longa e sofrida escalada no último domingo. Um percurso de 45 anos entre a conquista europeia de Angelo Moratti e Helenio Herrera e a de Massimo Moratti e José Mourinho, na histórica noite de Madri contra o Bayern de Munique. Foi a glória maior de toda uma geração que cresceu vendo o time se apequenar nas grandes ocasiões continentais e ainda precisou testemunhar o sucesso dos rivais.
O lugar desta Inter na história está guardado. É o primeiro time italiano de todos os tempos a alcançar a tríplice coroa. Algo que nem mesmo equipes míticas, como o Milan do fim dos anos 80, alcançaram. No percurso da Liga dos Campeões, classificações recheadas de heroísmo em campos como Stamford Bridge e o Camp Nou. Sem falar na batalha ponto a ponto pela conquista da Serie A, com a Roma valorizando sobremaneira a conquista nerazzurra.
A propaganda citada mostra que o percurso da subida é o que fica marcado na memória, mais do que a permanência no topo. Ainda que se suba por uma segunda vez, dificilmente será tão especial quanto a primeira. De qualquer maneira, é preciso encontrar motivações para que o ciclo vitorioso não termine aqui, por mais que o caminho preveja dificuldades.
No cenário internacional, além da responsabilidade de defender a Champions, a Inter ainda pode se mirar no exemplo do Barcelona e buscar um ano perfeito, conquistando os três títulos oficiais ainda possíveis: a Supercopa Italiana, contra a Roma, a Supercopa Europeia, contra o Atlético de Madrid, e o Mundial de Clubes da Fifa, em dezembro, contra rivais a definir.
Em casa, os nerazzurri têm a possibilidade de alcançar um feito inédito na história da Serie A: o sexto scudetto consecutivo. O pentacampeonato deste ano igualou as marcas da Juventus, de 1931 a 1935, e do Torino, em 1943 e de 1946 a 1949 (não houve campeonato em 1944 e 1945 por causa da guerra). Além disso, o clube está a dois títulos de chegar ao total de 20, tornando-se a segunda equipe a ostentar a segunda estrela na camisa.
A dúvida é se a Inter terá os meios para prolongar sua hegemonia no futebol italiano e provar que a grande temporada europeia não foi apenas uma exceção. Mourinho já arrumou as malas para Madri, deixando um buraco praticamente impossível de ser coberto à altura. Talvez o único nome capaz de substituir o português fosse Fabio Capello. No entanto, para saber da eventual disponibilidade de Capello seria necessário esperar o fim da participação inglesa na Copa do Mundo. Apesar de o compromisso com o English Team durar até 2012, é evidente que a posição será revista de acordo com o resultado na África do Sul.
Guus Hiddink também seria um nome interessante, mas tem contrato assinado com a seleção turca. Discurso semelhante vale para o ex-romanista Luciano Spalletti, em início de trabalho no Zenit, onde já conquistou a Copa da Rússia. Um sonho ainda mais distante é Pep Guardiola, artífice de um impressionante Barcelona. Sua liberação estaria condicionada a uma vitória da oposição nas eleições presidenciais no clube catalão, mas mesmo essa possibilidade é considerada remota.
Entre os nomes disponíveis, desponta o de Sinisa Mihajlovic, que vem de ótimo trabalho à frente do Catania e já se desvinculou para buscar melhores oportunidades profissionais. A Fiorentina, que deve perder Cesare Prandelli para a seleção italiana, é uma destas possíveis vagas, mas o sérvio certamente tem a Inter em vista. Encerrou no clube sua carreira de jogador e conquistou títulos como auxiliar de Roberto Mancini, antes de sair em 2008 com a contratação de Mourinho.
A esperança de uma solução rápida, porém, esvaiu-se com a trágica notícia da morte do pai de Mihajlovic, o que deve protelar as negociações. Caso o ex-defensor seja mesmo o escolhido, chegará com a vantagem de já conhecer o clube, contar com a confiança de Moratti e ter trabalhado com vários dos jogadores do elenco. Por outro lado, a pouca experiência e a sombra de Mourinho podem intimidar.
Quanto ao elenco, a perspectiva é de manter o maior número possível de campeões, mas alguns assédios serão difíceis de resistir. Maicon, por exemplo, será alvo do Real Madrid. Será provavelmente bem vendido, avaliado em cerca de € 30 milhões, mas não há como substituir à altura o melhor jogador do mundo na posição. Diego Milito, o herói das três conquistas, terá inúmeras propostas e só deve ficar se receber um merecido reajuste salarial.
Alguns jogadores fracassaram e devem procurar outras alternativas, como Quaresma e Arnautovic. Muntari terminou a temporada em baixa e também pode buscar novos ares. Na defesa, jogadores como Córdoba e Materazzi já estão com idade avançada e parecem em fim de carreira. Jovens como os volantes Krhin e Mariga devem ganhar espaço, mas também será preciso que Moratti vá às compras.
Dinheiro para isso haverá. Ao contrário de Berlusconi no Milan, o empresário do ramo petrolífero não faz menção de apertar os cintos, e toda a receita que virá após o título europeu pode ser reinvestida no mercado. Os prêmios pelo título europeu, as participações em outros torneios (o Mundial da Fifa, em apenas dois jogos, vale € 4 milhões ao campeão) e até mesmo a cláusula de rescisão de Mourinho, que se paga integralmente valerá € 16 milhões aos cofres nerazzurri.
É possível revolucionar e continuar vencendo. O time titular na final da Champions tinha cinco jogadores (Lucio, Sneijder, Eto’o, Milito e Pandev) que não estavam no elenco na temporada anterior. Mesmo com mudança no comando, a Inter pode sonhar com mais um ano de glórias. O que não significa que será fácil.



