Digo ao povo que fico

Eram 22h20 na Itália, 19h20 em Brasília. A notícia que começava a circular era a de que a transferência de Kaká para o Manchester City era apenas uma questão de formalidade: faltava apenas a assinatura para o anúncio oficial. Então, ficaram todos no aguardo, incluindo nós, da Trivela, para dar a notícia da transferência mais cara da história do futebol.
Eram 22h45 na Itália, 19h45 em Brasília, quando Silvio Berlusconi entrou por telefone em um famoso programa de debates da televisão italiana (Il Processo di Biscardi) para anunciar que Kaká era e continuaria sendo jogador do Milan. “Há coisas mais importantes que dinheiro”, disse o primeiro-ministro. Pouco depois, veio a confirmação do Manchester City de que as negociações estavam encerradas. Uma incrível reviravolta em questão de minutos.
O mais justo seria o próprio Kaká dar a notícia. Afinal de contas, há um único responsável por sua permanência no Milan: o camisa 22. O clube já havia arregalado os olhos para a proposta de mais de € 100 milhões do City e transferido para o jogador toda a responsabilidade pela decisão.
Quando surgiu a primeira manifestação pública sobre a oferta do Manchester City, Kaká retrucou avisando que desejava envelhecer no Milan e tornar-se capitão da equipe. Até porque o Manchester City é um time com um caminhão de dinheiro e só. Depois, no entanto, o meia calou-se, enquanto o clube era seduzido pela proposta e deixava que a história ganhasse corpo – até provocar a ira da torcida.
O jogo do último sábado contra a Fiorentina teve uma atmosfera surreal. O que acontecia dentro de campo pouco importava. A grande fase de Pato, a estreia caseira de Beckham, tudo era secundário diante dos veementes protestos do público rossonero contra o desejo de Berlusconi e Adriano Galliani de vender Kaká. No final da partida, abraços do brasileiro com os colegas de time deixavam um certo ar de despedida.
Nada se decidiria, no entanto, antes que o pai de Kaká, Bosco Leite, desembarcasse em Milão na segunda-feira, onde se encontraria com os dirigentes do Milan e também com os do City, ávidos por fechar rapidamente a negociação, para terem tempo de atrair outros nomes na onda do melhor jogador do mundo de 2007.
Bosco Leite chegou à Itália no final da manhã e se dirigiu para a casa do jogador. No início da tarde, Berlusconi, de volta do Oriente Médio, recebeu Galliani em sua residência de Arcore. Também participou desta reunião Fedele Confalonieri, presidente da Mediaset e conselheiro do dono do Milan.
Em pauta, duas questões: a oferta era alta demais para se recusar, e seria impossível elevar o salário de € 9 milhões de Kaká no caso de ele decidir permanecer. Resumindo, ainda que significasse perder o maior jogador do time e deflagrar uma crise com a torcida, não havia solução melhor que a venda.
Por volta das 17h locais, Galliani e Bosco Leite se reuniram na sede do clube, na Via Turati. Kaká permaneceu em sua casa. O dirigente do Milan reiterou ao pai do jogador a posição do clube: se houvesse o desejo de aceitar a proposta do City, que seria de um salário superior a € 18 milhões, ele deveria se sentir livre para aceitá-la.
No início da noite, um grupo com algumas centenas de torcedores do Milan se reuniu diante da sede para protestar. A posição era clara: exigiam que o clube não vendesse Kaká, mas também que o jogador não exigisse aumento de salário para permanecer.
Galliani e Bosco Leite se deslocaram da sede do Milan para o escritório de advocacia escolhido pelos emissários do City para as negociações. Em uma conversa cansativa, o pai de Kaká apresentou uma série de empecilhos para a ida do jogador, fazendo com que os dirigentes do clube inglês perdessem a paciência e deixassem o local intempestivamente.
A esta altura, já não havia mais torcedores na sede do Milan, mas havia muitos diante da casa de Kaká, reforçando os pedidos por sua permanência. Por duas vezes, ele foi à sacada, agitou uma camisa 22 como uma bandeira e bateu no peito. Não estava bem claro se era uma despedida ou um sinal de sua decisão de permanecer.
Eram 23h na Itália, 20h em Brasília, quando Kaká apareceu pela terceira e última vez na varanda. Desta vez, para celebrar com seus torcedores o desfecho feliz da história. Um autêntico dia do fico. O dia em que um jogador de nível mundial abriu mão de mais que o dobro de seu salário por temporada para cair nos braços de uma torcida que o venera, mesmo com os dirigentes tentando empurrá-lo para longe.
A pior Inter de Mourinho
A Internazionale que perdeu por 3 a 1 para a Atalanta no domingo teve a pior atuação sob o comando de José Mourinho. Especialmente no primeiro tempo, quando levou três gols em um espaço de 16 minutos, os campeões de inverno da Série A foram amplamente dominados nos planos técnico e tático pela equipe de Bérgamo, que tem o segundo menor orçamento da primeira divisão.
As falhas defensivas e sobretudo a dificuldade na construção do jogo não eram defeitos inéditos dos nerazzurri com o técnico português, mas foram expostas com clareza pela bem armada equipe de Luigi Del Neri, com um Doni inspirado e um Floccari digno de chamar a atenção de Marcello Lippi.
Com um ponto nos dois jogos de 2009 pelo campeonato, e o sofrimento para bater o Genoa na Copa da Itália mesmo jogando com um a mais desde o primeiro tempo, é possível dizer que algo se rompeu na Inter durante a pausa de fim de ano. Resta saber se o problema é a preparação física, a falta de ritmo de jogo ou o pensamento excessivo no duelo com o Manchester United pela Liga dos Campeões.
Seja o que for, Mourinho tem de resolver rapidamente. A Inter de Roberto Mancini terminou o primeiro turno de 2007/08 com seis pontos a mais, e o português não se livrará da comparação enquanto não for claramente superior. A Juventus está apenas três pontos atrás e ostenta uma defesa fortíssima, daquelas que ganham campeonatos.
Massimo Moratti, depois de gastar € 36 milhões por dois jogadores que não foram nem para o banco de reservas no domingo (Quaresma e Mancini), não quer saber de intervir no mercado. Acredita que ofereceu a Mourinho o que havia de melhor e agora quer os resultados. O que não significa que haja falta de confiança no trabalho do ex-Chelsea.



