Defesa que ninguém passa

Depois do empate por 0 a 0 com a líder Internazionale, no último domingo, em um San Paolo lotado, o presidente do Napoli, Aurelio De Laurentiis, não usou meias palavras para provocar o técnico interista José Mourinho. Declarou que não gostaria de contar com o português “nem de graça”, a não ser que fosse para fazer um filme. Exagero à parte, De Laurentiis queria mesmo era exaltar o grande trabalho de Walter Mazzarri à frente da equipe.
Assumir um time com o campeonato em andamento é tarefa sempre complicada. Um elenco caro, mas com moral em baixa, depois de perder quatro dos sete primeiros jogos do campeonato sob o comando de Roberto Donadoni. Mas Mazzarri não se intimidou com o desafio, arregaçou as mangas e transformou o rumo dos partenopei, que hoje ocupam o quarto lugar na classificação e têm muito vivo o sonho de disputar uma Liga dos Campeões, experiência que o clube só viveu na era Maradona, antes de o torneio europeu se transformar no colosso financeiro dos dias de hoje.
O número mais impressionante da campanha de Mazzarri diz respeito ao desempenho defensivo. Das últimas oito partidas, o time completou sete sem sofrer gol. A exceção foi o revés por 3 a 1 diante da Udinese, há duas rodadas, que também marcou a única derrota do treinador em suas 17 partidas de Serie A no cargo.
Para os adversários, balançar as redes no San Paolo tem sido tarefa quase impossível. O último a conseguir foi o Bari, derrotado por 3 a 2 no dia 3 de dezembro. De lá para cá, já tentaram Chievo, Sampdoria, Palermo, Genoa e Inter, todos sem sucesso.
Vale destacar que Mazzarri não promoveu uma revolução tática na equipe, que permaneceu atuando com três zagueiros, como fazia desde o trabalho de Edy Reja, antecessor de Donadoni. A única mudança significativa foi a adoção do esquema com apenas um homem de área, apoiado por Quagliarella e pelo ótimo Hamsik.
É inegável, porém, que só um goleiro em grande fase é capaz de manter sua meta inviolada em tantas partidas. Por isso, méritos para Morgan De Sanctis, que viu sua carreira um pouco fora de rumo após pegar banco no Sevilla e rumar à Turquia para jogar no Galatasaray, mas encontrou em Nápoles sua redenção – ficando em ótima situação para ser um dos três goleiros da seleção italiana na Copa do Mundo de 2010.
De Sanctis defendeu os últimos três pênaltis marcados contra o Napoli: Miccoli, do Palermo, Lucarelli, do Livorno, e Di Natale, da Udinese. Este último conseguiu marcar no rebote, quebrando a invencibilidade de 548 minutos do camisa 26. Ele chegou a sonhar com o recorde da Serie A estabelecido por Dino Zoff na temporada 1970/71, com 590 minutos consecutivos sem sofrer gol.
Contra a Inter, De Sanctis poderia ter a oportunidade de defender a quarta cobrança consecutiva, mas o árbitro Roberto Rosetti deixou de assinalar um toque de mão evidente de Aronica na área em lance com Maicon. Em termos de volume de jogo, no entanto, uma derrota teria sido incoerente com o volume de jogo apresentado pelas duas equipes.
O Napoli pode alegar que, se tivesse Lavezzi em condições de jogo para comandar o ataque em vez de Denis, a vitória teria ficado mais próxima. Denis até chegou perto em uma cabeçada brilhantemente defendida por Júlio César, mas em outros dois lances deixou de converter rebotes que um centroavante não pode perder. A ausência do bom ala-direito Maggio foi menos sentida, já que o colombiano Zúñiga esteve bem na posição.
A grande razão para o domínio napolitano, no entanto, foi a atuação segura do sistema defensivo, que se propôs a marcar individualmente as principais peças ofensivas da Inter e teve sucesso. Em toda a partida foi concedida apenas uma oportunidade clara aos nerazzurri, desperdiçada por Pandev diante de De Sanctis.
Em ascensão técnica, o capitão Paolo Cannavaro não deu espaços a Diego Milito, que sofreu para ser acionado. Grava fez o mesmo com Pandev. Sneijder ficou encaixotado, já que ao se aproximar da área tinha a marcação atenta de Campagnaro, e quando voltava para buscar jogo esbarrava na disposição de Pazienza, escalado ao lado de Gargano para dar mais pegada ao meio-campo.
Sem opções de jogadas, e mais desgastada que o rival por ter atuado no meio da semana contra o Parma, a Inter entregava a bola com facilidade aos donos da casa e sobrecarregava seus homens de trás. Lúcio e Samuel tiveram muito trabalho, mas corresponderam, enquanto Júlio César foi a segurança de sempre quando exigido.
Resolver as dificuldades na cara do gol é o desafio imediato de Mazzarri, já que a defesa está a postos. Se encontrar este equilíbrio, o Napoli reforçará sua condição de sério candidato à Europa que conta – e muito.



