Decola!

Em sua carreira de jogador, encerrada em 2009, Vincenzo Montella ficou conhecido como “Aeroplanino”, aviãozinho, pela sua maneira de comemorar os gols. Pela Roma, foram 102 em 251 partidas que marcaram seu nome na história do clube. Fez parte da equipe que viveu a última grande conquista dos giallorossi: o scudetto de 2000/01. Era reserva de Batistuta, mas decidiu vários jogos fundamentais para o título.
Aos 36 anos, Montella precisa fazer com que a Roma decole, agora em uma nova função. O ex-atacante foi nomeado técnico da equipe até o fim da temporada, depois do pedido de demissão de Claudio Ranieri, inevitável após a incrível derrota por 4 a 3 para o Genoa, em um jogo que o time da capital vencia por 3 a 0. A pressão sobre Ranieri já era imensa desde o meio da semana, quando a Roma perdeu em casa por 3 a 2 para o Shakhtar Donetsk e comprometeu seriamente suas chances de avançar na Liga dos Campeões.
A experiência de Montella como treinador se limita ao trabalho na categoria Giovanissimi (Sub-15) da Roma. Um bom trabalho, vale dizer. Foi finalista do campeonato em sua primeira temporada, perdendo para o Milan, e na atual campanha ostentava um absurdo retrospecto de 21 vitórias em 21 partidas. Prega um futebol ofensivo, jogando no 4-1-2-3, e o único volante, Pellegrini, é atacante de origem. No gol conta com Gabriele Marchegiani, filho de Luca Marchegiani, ex-goleiro da rival Lazio e da seleção italiana.
Em outubro do ano passado, Montella se inscreveu no curso de Coverciano, que outorga as licenças para trabalhar na Serie A. A ascensão à equipe principal, no entanto, foi um processo rápido e surpreendente: o natural seria escalar as categorias uma por uma. O que, obviamente, ainda pode acontecer, já que seu contrato com o clube vai até 2012. Quando anunciou a aposentadoria, Montella ainda tinha um ano de contrato a cumprir. Fechou um acordo com o clube para dividir o restante em três temporadas e trabalhar como técnico na base.
A princípio, a opção é temporária, com o único objetivo de salvar o ano e colocar a Roma em uma competição europeia – preferencialmente a Champions. É difícil saber se há a possibilidade de permanência para a próxima temporada, até porque o clube segue vivendo dias turbulentos fora de campo, com incertezas sobre quem manda de verdade. E há a hipótese de nomes ilustres, como Carlo Ancelotti, estarem disponíveis.
Desde que passou a ser controlada pela instituição financeira Unicredit, principal credora do clube, a Roma viu a família Sensi perder poder de decisão. A presidente Rosella, por exemplo, não conseguiu fazer valer seu desejo de mandar o elenco para a concentração logo após a partida contra o Shakhtar. Na última semana, foi concedida ao consórcio norte-americano liderado por Thomas DiBenedetto a exclusividade nas negociações para a compra da Roma, e as opiniões do potencial novo dono já têm sido ouvidas pela Unicredit.
Neste panorama, seria impossível fechar com um novo treinador por um período mais longo. Outra seleção caseira viável era Alberto De Rossi, técnico da equipe Primavera (Sub-20) e pai do volante Daniele De Rossi, mas o próprio admitiu que assumir neste momento e nestas condições poderia aumentar ainda mais a turbulência.
Montella tem relações de amizade com vários dos jogadores do grupo giallorosso, mas promete não se deixar condicionar. Dará abertura a diferentes opiniões, mas tomará suas decisões por conta própria – já que será o principal responsável pelos resultados.
Ranieri saiu pela queda de rendimento da equipe, mas sobretudo por ter perdido há tempos o controle do elenco, recheado de insatisfações, inclusive do capitão Totti, e mais recentemente de Borriello, chateado por ter ficado de fora na Champions. Vale lembrar que o técnico havia feito um bom trabalho na temporada passada, comandando uma reação impressionante que por pouco (leia-se a derrota em casa para a Sampdoria na reta final) não resultou em título.
Algumas coisas, no entanto, fugiram do controle do treinador. As quedas de rendimento de jogadores como Juan e Riise, por exemplo, e a inexplicável aposta em Adriano, que praticamente em nenhum momento pôde ser considerado uma opção válida.
Oitava colocada com 39 pontos, a Roma sabe que vencer o jogo atrasado contra o Bologna, nesta quarta-feira, é crucial. Chegaria a 42 pontos, superando a Juventus e assumindo o sexto lugar, além de ficar a seis pontos da rival Lazio, que hoje ocupa o último posto útil para a próxima LC. Dá para chegar. Mas o vôo do Aeroplanino precisa começar rápido.



