Da água para o vinho
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Cerca de 1.500 torcedores do Napoli acordaram cedo no último domingo para receber o time no aeroporto de Capodichino. Não era para comemorar um título, como nos anos dourados de Diego Maradona, mas a ocasião era especial. Na véspera, o time havia derrotado a Juventus por 3 a 2, em Turim, depois de estar perdendo por 2 a 0. Algo que não acontecia há mais de duas décadas.
Antes de vencer com Hamsik e Dátolo como protagonistas, o Napoli precisava voltar até o dia 20 de novembro de 1988 para recordar sua última vitória como visitante sobre a Juve. Naquela ocasião, os partenopei fizeram 5 a 3, com direito a três gols de Careca. O estádio era o mesmo, mas o que hoje é conhecido como Olímpico de Turim ainda era o Comunale.
Até a vitória do último sábado, o Napoli passou um longo período até sem marcar gols em suas partidas fora de casa contra a Juventus. Não acontecia desde março de 1998, quando um gol de Protti nos acréscimos valeu o empate por 2 a 2.
A euforia da torcida napolitana, no entanto, não se resume ao resultado de Turim. Em quatro rodadas desde que Walter Mazzarri foi contratado para o lugar de Roberto Donadoni, o time mudou da água para o vinho. Conquistou dez pontos de doze possíveis, depois de conquistar apenas sete pontos nas sete primeiras rodadas. Saiu do 15º para o sexto lugar na tabela, entrando na zona de classificação para a Liga Europa e ficando a apenas dois pontos da zona da Liga dos Campeões.
Pelo investimento feito por Aurelio De Laurentiis nos últimos anos e pelo elenco à disposição, a recuperação era quase obrigatória. Ainda assim, surpreende a rapidez com que Mazzarri mudou a filosofia da equipe, tanto dentro quanto fora das quatro linhas.
Taticamente, o treinador não se prende tanto ao esquema com três zagueiros quanto faziam seus antecessores, Edy Reja e Donadoni. A formação passou a ser mais flexível, com Aronica avançando menos pela esquerda, trabalhando mais como lateral do que como ala, para compensar os avanços constantes de Maggio pelo outro lado. Campagnaro – que jogou com Mazzarri na Sampdoria – fica responsável por cobrir os espaços na direita. Assim, dependendo de quem tem a posse de bola, o time alterna naturalmente entre três e quatro defensores.
No extracampo, o fim do ciclo do diretor esportivo Pierpaolo Marino, que estava no clube desde a chegada de De Laurentiis, em 2004, parece ter sido recebido positivamente pelo elenco. Marino era considerado centralizador e tinha uma cartilha disciplinar rígida, com tabela de multas por infrações cometidas. Com Mazzarri, eventuais casos de indisciplina são avaliados individualmente, e há um diálogo maior com os jogadores.
Foi assim que o treinador levou para o seu lado Lavezzi, logo em sua primeira semana de trabalho, o argentino se reapresentou com atraso após a rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo, alegando ter perdido o passaporte. Em vez de punir o jogador, o mandou a campo na partida contra o Bologna, e foi recompensado com uma boa atuação na vitória por 2 a 1.
Como filho bonito tem vários pais, De Laurentiis já enche a boca para se vangloriar da escolha de Mazzarri, e afirma ter errado – segundo ele, convencido por Marino – ao trocar Reja por Donadoni na última temporada.
Vaidades à parte, os três últimos resultados do Napoli foram impressionantes, a começar pela vitória fora de casa contra a Fiorentina. Diante do Milan, no San Paolo, o estádio lotado acompanhou uma reação incrível, com dois gols nos acréscimos, para buscar o empate por 2 a 2. Mas o time dominou todo o segundo tempo, e só não marcou antes porque Dida estava em noite inspirada.
No jogo contra a Juventus, Mazzarri fez a mudança vencedora ao sacar Campagnaro para a entrada de Dátolo, recuando Maggio para a lateral e colocando o time no 4-2-3-1. Dátolo se juntou a Lavezzi e Hamsik no apoio a Denis (depois Quagliarella). O ex-Boca Juniors até então não havia justificado o investimento feito em janeiro, mas mostrou que talento não some de um dia para o outro e teve atuação crucial para a virada.
Hamsik, com apenas 22 anos, já mostra importantes qualidades técnicas e de liderança, naquela que se desenha como a melhor temporada de sua carreira, depois de ajudar a Eslováquia a se classificar de forma inédita para a Copa do Mundo de 2010. O Napoli sabe que sofrerá assédio de clubes maiores no fim da temporada, mas espera que o meia se valorize ainda mais ajudando o time a ficar no alto da tabela.
A decepção que permanece do mau momento da temporada é a dificuldade de Quagliarella, que custou € 16 milhões e chegou motivado ao time de sua terra natal, mas ainda tem atuado abaixo das expectativas. Sua recuperação será crucial para o Napoli continuar evoluindo e seguir na briga pela classificação para uma competição continental, seja Liga dos Campeões ou Liga Europa.