Itália

Após início de Serie A surpreendente, Verona sonha

Não estamos na década de 80, mas há semelhanças. Parece que o espírito vintage que move a moda e a música e provoca retornos cíclicos dos períodos 20 ou 30 anos anteriores ao atual também atingiu o futebol. Temos uma Juventus tão dominante quanto aquela do fim dos anos 70 e início dos 80, um Napoli e uma Roma que ressurgem e brigam por títulos, além de uma Inter que corre por fora. Nesse cenário da metade dos anos 80, só faltava um surpreendente Verona que briga pelas cabeças. Faltava.

Na 5ª posição da Serie A, com 13 pontos, o Verona é um intruso no meio dos grandes. De volta à elite após 12 anos, a equipe do Vêneto certamente não brigará pelo título ou o conquistará, como conseguiu, de maneira surpreendente, em 1984-85, no único scudetto conquistado por um clube vindo de uma cidade não-capital regional da Itália desde o nascimento do campeonato de pontos corridos em grupo único. Porém, os veroneses tem o melhor início de campeonato de sua história, desconsiderando o do ano do título, e podem sonhar com um campeonato tranquilo.

Se, no ano do seu único título italiano, o Hellas Verona estreou fazendo 3 a 1 no Napoli de Maradona, no primeiro jogo do Pibe vestindo azzurro, desta vez, a equipe scaligera bateu, por 2 a 1, o Milan de Balotelli. Depois, a equipe venceu seus outros dois jogos em casa e, neste domingo, goleou o Bologna, conquistando a primeira vitória longe do estádio Marc’Antonio Bentegodi. Com quatro vitórias, um empate e duas derrotas, os números só não superam as cinco vitórias e dois empates do time campeão nos anos 80.

Um dos grandes fatores para a boa campanha do Verona está sentado no banco de reservas da equipe há algum tempo – quase três anos. O técnico Andrea Mandorlini, que foi zagueiro da Internazionale campeã italiana em 1989, assumiu o time na Lega Pro Prima Divisione, terceira divisão da Itália, quando o time passava por maus bocados, em novembro de 2010. No primeiro ano, conseguiu subir à Serie B, via play-offs, e no ano seguinte, quase levou o Hellas de volta à elite: quarto colocado no campeonato, o time acabou sendo derrotado na semifinal dos play-offs pelo Varese. No ano seguinte, com um grupo forte, a equipe foi vice-campeã da segundona e retornou à elite.

Mandorlini trabalha basicamente com o esquema 4-3-3, com um conjunto bem equilibrado, compacto e objetivo na frente. Como alternativa, Mandorlini trabalha com os módulos 3-5-2 e 4-4-2 – não será surpresa se utilizá-los como uma variação durante os jogos. Por enquanto, tudo vem dando certo no 4-3-3, ao menos ofensivamente (são 13 gols marcados, mas 10 sofridos), uma vez que as novas contratações se adequaram ao esquema e tem proporcionado um estilo de jogo baseado no coletivo.

O mercado da equipe veronesa foi um dos mais interessantes do país, e teve o mérito de olhar bastante para os diversos mercados no mundo – um prova disso é que a equipe buscou reforços na Alemanha, na Argentina, no Brasil, na Holanda, em Portugal e no Uruguai. O desempenho do Verona no mercado foi um bom trabalho do diretor esportivo Sean Sogliano, que havia realizado bom trabalho em sete anos no Varese, levando o time do amadorismo à quase chegar na Serie A. Porém, ele havia feito um trabalho muito ruim no Palermo, em 2011, e saiu com a imagem manchada.

Dentre os reforços adquiridos pelo Verona, boa parte deles a custo zero ou muito baixo, destacam-se o atacante Luca Toni e o meia ofensivo Juan Iturbe. O primeiro, contratado pela experiência e pelo faro de gol, deu um peso maior ao ataque, que tinha Cacia como principal nome. O antigo titular tem o hábito de fazer ótimos campeonatos na Serie B, mas nunca rendeu o mesmo na elite. Toni, por sua vez, coleciona gols e renasceu no ano passado, marcando 8 gols em 27 jogos pela Fiorentina. Nesta temporada, em cinco jogos, já marcou três vezes.

Iturbe é a grande sensação da temporada e, em pouco tempo, já virou ídolo da torcida. Por causa de suas arrancadas, sua grande velocidade no meio-campo e por ser uma espécie de “motorzinho” da equipe, o meia-atacante de apenas 20 anos já ganhou o apelido de “Iturbo”. O argentino chegou emprestado pelo Porto, clube pelo qual acabou não tendo destaque, e realizou três partidas, marcando dois gols e dando uma assistência. A boa performance não se mede apenas pelos números, já que o jogador conseguiu furar as defesas e desestruturá-las, com dribles em velocidade – além disso, demonstrou ser um ótimo chutador de longa distância. Pode ser a grande arma do Verona nos confrontos diretos e em jogos contra os grandes.

Além deles, outro jogador que foi contratado agora e faz bom campeonato é o lateral direito/meio-campista Rômulo. Ex-Cruzeiro e Atlético-PR, o jogador era um reserva útil na Fiorentina e chegou ao Bentegodi para ser titular. Até o momento, é a grata surpresa da temporada amarela e azul.

O sucesso dos brasileiros no Verona não é novidade. Jogadores brasileiros sempre tiveram grande espaço no Hellas. Basta lembrar que Arnaldo Porta, que jogou entre as décadas de 1910 e 1930 é, até hoje, o maior artilheiro do clube, com 74 gols. O primeiro dos mais famosos brasileiros do Verona, porém, foi o camisa 10 Dirceu (ex-Vasco, Botafogo, Fluminense e seleção brasileira), que participou da temporada 1982-83 – e muitos irão se lembrar do atacante Adaílton, que passou sete anos no clube e atualmente defende o Juventude, clube que o revelou.

Atualmente, são seis os brasileiros do Verona: os goleiros Rafael (ex-Santos e São Bento) e Nícolas (ex-Atlético-MG e Anapolina), o zagueiro Rafael Marques (ex-Galo), o meia Raphael Martinho (ex-Paulista e Catania), além do já citado Rômulo e do ítalo-brasileiro Jorginho, de apenas 21 anos.

Jorginho é um clássico caso de jogador que saiu cedo do país e foi brilhar na Itália por causa da origem de seus familiares – inclusive, já fez um jogo pela seleção sub-21 italiana, em 2012. Enquanto o goleiro Rafael é o brasileiro mais respeitado do elenco, por ter conquistado, ao longo dos anos, o carinho da torcida pelas boas atuações (hoje, por exemplo, ele deixa no banco Mihaylov, titular da seleção da Bulgária), Jorginho conseguiu quase de imediato deixar sua marca no clube.

Nascido em Imbituba (SC), ele se transferiu à Itália em 2010, para concluir sua formação na base do Verona, e passou por Sassuolo e Sambonifacese, antes de retornar em definitivo à equipe. Muito querido por Mandorlini, se tornou titular já em 2011, sendo uma peça insubstituível no lado direito do meio-campo amarelo e azul. Estreante na Serie A, Jorginho já havia atraído o interesse de Liverpool e Milan mesmo atuando apenas pela segundona. Nesta temporada, já fez três gols e foi o dono do meio-campo da equipe nos sete primeiros jogos do campeonato.

Um dizer futebolístico popular na Itália dá conta de que 40 pontos são suficientes para uma equipe salvar-se do rebaixamento. Após apenas sete rodadas, o Verona já somou quase um terço do necessário para escapar e, caso continue jogando assim, já dá para projetar que brigar contra o rebaixamento não fará parte da rotina helladina. Em entrevista à Gazzetta dello Sport, após o jogo de domingo, Mandrolini foi cauteloso e disse que para o Verona o objetivo não havia mudado. Toni foi mais positivo: “esperamos conseguir os 40 pontos e, depois, poderemos nos divertir mais”. Pelo visto, será um ano de sorrisos largos na cidade de Romeu e Julieta.

Botão Voltar ao topo