Capello dá declaração bombástica sobre a passagem de Ronaldo no Real Madrid
Técnico do Real Madrid que vendeu Ronaldo, Capello recomendou que o Milan não contratasse o atacante brasileiro, mas Berlusconi não seguiu seu conselho
Um dos técnicos mais badalados dos últimos 30 anos, o italiano Fabio Capello trabalhou em diferentes países e acumulou muita experiência. Em uma das suas passagens pelo Real Madrid, ele trabalhou com o elenco dos Galácticos, que tinha entre eles o brasileiro Ronaldo. Em entrevista, o treinador contou que o atacante estava acima do peso, pediu para que entrasse em dieta e aconselhou o Milan a não o contratar, mas o clube italiano o fez mesmo assim.
Atualmente com 77 anos, Capello está aposentado da carreira de treinador, mas segue trabalhando como comentarista. Sua carreira foi marcada pelo trabalho no Milan, onde saiu de assistente técnico do lendário Arrigo Sacchi para o técnico principal da equipe a partir de 1991.
Ficou no clube até 1996 e conquistou um tricampeonato italiano: 1991/92, 1992/93 e 1993/94. Voltaria a conquistar o título em 1995/96. Isso além da Champions League em 1993/94 goleando o Barcelona de Johan Cruyff e Romário na final. Isso pouco antes da Copa do Mundo de 1994, aquela que o mesmo Romário arrebentou.
Com esse histórico no Milan, Capello abriu o mercado fora da Itália. Por isso que em 1996 ele foi contratado pelo Real Madrid. Foi apenas uma temporada no clube merengue, mas ele conquistou o título de La Liga naquela temporada 1996/97. Só que o futebol jogado não foi visto como bom o bastante e o técnico saiu ao final da temporada. Sim, isso mesmo: ele foi campeão e saiu.
O treinador voltou ao Milan por uma temporada, em 1997/98. Algo que ele mesmo define como uma decisão ruim na sua carreira. “Foi o pior erro da minha carreira. Belusconi me ligou, eu tinha muita gratidão por ele, que ia além de tudo. Pedi a Florentino Pérez que me deixasse ir, mas no Milan deu tudo errado. O campeonato foi desastroso, mas a experiência me ensinou muito”.
Depois, treinou a Roma, onde conquistou o histórico scudetto, o título italiano, em 2000/01. Ainda treinou também a Juventus por duas temporadas de 2004 a 2006. Ele conquistou dois títulos pelo clube, mas acabaram cassados pelo escândalo do Calciopoli. “Na Juve, há 38 campeonatos. Ganhamos no campo, tivemos um time que era muito forte, não precisávamos de nenhuma ajuda”, disse o treinador.
Veio então a segunda passagem do treinador pelo Real Madrid. Em julho de 2006, Capello foi novamente anunciado como técnico do Real Madrid. Foi nesta temporada que ele treinou aquela geração de galácticos que tinha Iker Casillas, Sergio Ramos, Fabio Cannavaro, Roberto Carlos, Cicinho, David Beckham, Robinho, Raúl, Ruud van Nistelrooy e Ronaldo, o Fenômeno.
Capello esteve na Universidade Milan UniLimec para uma palestra para o curso de “gestão esportiva”. A palestra foi dada na sala vip do Estádio San Siro, um local bastante significativo para quem gosta de futebol. Ele comentou sobre a sua forma de gerir os times, suas dificuldades e, claro, o relacionamento com os jogadores, entre os quais, Ronaldo.
“Disse para Ronaldo entrar em uma dieta, ele tentou tudo”
Na época que chegou ao Real Madrid, Capello tinha um elenco estrelado e Ronaldo vinha de uma Copa que o Brasil tinha decepcionado. Aquela Copa de 2006 teve o Brasil eliminado ainda nas quartas de final diante da França. Havia uma cobrança sobre Ronaldo pela sua forma física e ele foi acusado de chegar à Copa do Mundo acima do peso.
“Ele gostava muito de festa e outros companheiros o acompanhavam. Van Nistelrooy me disse que o vestiário cheirava a álcool. Ronaldo pesava 94 quilos, dez a mais de quando ele ganhou a Copa do Mundo em 2002. Disse a ele para entrar em uma dieta, ele tentou tudo, mas acabou pesando 92,5 kg”, contou Capello.
Foi naquela temporada, especificamente em janeiro, que Ronaldo deixou o Real Madrid e pariu para o Milan. Só que antes do clube italiano contratar o brasileiro, o dono do Milan, Silvio Berlusconi, consultou Fabio Capello sobre o jogador. E Berlusconi consultou Capello porque os dois têm uma relação próximo pelos anos trabalhando juntos.
“Eu devo tudo a ele, mas o aconselhei a não o contratar. Eu disse que ele ia para festas, que ele estava sempre cercado por mulheres. No dia seguinte, a manchete do jornal era: ‘Ronaldo no Milan’”, contou Capello.
Naquela temporada, 2006/07, Ronaldo vinha jogando pouco no Real Madrid. Foram 13 jogos, quatro gols e muitos dos jogos saindo do banco de reservas. Por isso, em janeiro ele aceitou a proposta para ir ao Milan. Ele estreou no Milan em fevereiro de 2007 contra o Livorno. Foram 14 jogos naquela temporada, com sete gols e cinco assistências.
Ronaldo ficou no Milan por pouco tempo. Curiosamente, contra o Livorno novamente, um ano depois, em fevereiro de 2008, ele se machucou de forma grave. Ele teve uma ruptura do tendão rotuliano do joelho. Foi o fim da sua curta passagem pelo Milan, que durou apenas 20 jogos, com nove gols marcados. O jogador voltou ao Brasil para se recuperar, começou a treinar no Flamengo e acabou no Corinthians e o resto é história.
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Cassano também dava trabalho a Capello
A história de Fabio Capello é cercada de conflitos. Ele se desentendeu com o craque holandês Ruud Gullit, ainda no Milan, e no Real Madrid bateu de frente com outro italiano como ele: Antonio Cassano. O jogador veio da Roma e chegou badalado a Madri, mas o técnico viu problemas ali.
Segundo Capello, Cassano pedia ao cozinheiro que fizesse um prato de batatas fritas para ele antes de um jogo. “Obviamente eu tirei as batatas dele, mas também repreendi o cozinheiro, que preparou para ele. Inventei o termo ‘cassanata’”, contou o técnico.
O título espanhol com o Real Madrid em 2007
O Real Madrid de Capello se recuperou de um buraco na temporada 2006/07. Chegou a ficar nove pontos atrás do Barcelona e teve que buscar a melhora. Um dos artífices dessa melhora foi David Beckham, que se converteu em um meio-campista central, fazendo muitas funções defensivas, para equilibrar um time cheio de atacantes.
Na última rodada, o Real Madrid precisava vencer o Mallorca para não depender de uma derrota do Barcelona, que jogava contra o Gimnastic. Só que o time de Capello saiu perdendo por 1 a 0 e foi para o intervalo assim. Enquanto isso, o Barcelona já vencia no intervalo por 3 a 0.
“Naquela temporada, estávamos perdendo por 1 a 0 para o Mallorca. No intervalo, fiz todos sentarem no chão. Tirei Roberto Carlos, que estava na minha frente, e sentei ao lado deles também. Disse: ‘Nós tiramos nove pontos do Barcelona e agora vamos entregar o campeonato?’. Eu tinha que dar a eles tranquilidade, se eu gritasse, eu colocaria ainda mais pressão neles. Sabe como terminou? 3 a 1 para nós, campeões da Espanha”.
Observação é um trabalho fundamental do técnico
Capello ainda disse um dos trabalhos fundamentais do técnico é cuidar do talento e corrigir erros para aprimorar os jogadores. E criticou a forma como as coisas são feitas atualmente. “Hoje em dia não observamos mais nada. Eu recebei o Ibra (Zlatan Ibrahimovic) na Juventus e ele não sabia como chutar ou cabecear. E olhe o que ele se tornou. Van Basten tinha um problema na sua corrida para cobrar faltas, percebi e no domingo seguinte ele marcou um gol de falta. Isso é para dizer que criar padrões é fácil, mas acho que corrigir erros é o mais difícil”, analisou o treinador.
Como é comum nesse tipo de palestra, ele também soltou algumas frases de efeito. “Sem coragem para encarar as dificuldades, os objetivos não podem ser atingidos. Todas as desculpas têm pernas curtas. Álibis são para os perdedores. Aqueles que vencem começam pelas derrotas e as analisam. Quando eu tinha reuniões depois das partidas, primeiro ouvia o que minha comissão técnica pensava, depois decidia como intervir”, disse.
Capello saiu do Real Madrid em 2007 para ser o técnico da seleção da Inglaterra, cargo que ocupou até 2012. Depois, treinou também a seleção da Rússia de 2012 a 2015. Por fim, seu último trabalho foi pelo JS Suning, clube da China, que se encerrou em 2018.



