Itália

Campeã de novo. E agora?

“Depois do scudetto no tapetão, o scudetto na poltrona”. Assim dizia uma irreverente faixa no estádio de San Siro no último domingo, onde a Internazionale faria a festa do título contra o Siena, menos de 24 horas depois de se sagrar campeã por antecipação graças à derrota do Milan para a Udinese na noite de sábado. Os jogadores começaram a festa na concentração de Appiano Gentile, antes de se juntarem ao povo interista na Piazza del Duomo.

O tetracampeonato da Inter, que iguala o feito do Grande Torino desaparecido há sessenta anos no desastre de Superga, é mesmo formado por histórias bem heterogêneas. Desde o título que caiu no colo em 2006, meses depois do último jogo, graças ao mar de lama que tomou conta do futebol italiano. Passou por 2007, em um campeonato ainda condicionado pelas punições do ano anterior, e chegou a 2008, quando um título praticamente ganho quase escapou pelos dedos na última rodada.

O título deste ano é, portanto, aquele conquistado com maior autoridade. Não será uma Inter lembrada por um jogo brilhante, como o Barcelona na Espanha, mas é um time que não deixa dúvidas sobre sua superioridade em relação aos rivais. Não tanto pelos resultados dos confrontos diretos, mas sobretudo pela capacidade de se impor sobre os médios e pequenos, onde seus rivais sempre falharam. Depois da série de oito vitórias entre a 10ª e a 17ª rodada, já era difícil apostar contra.

O 17º scudetto da Inter, que iguala os nerazzurri ao Milan, ficando atrás apenas dos 27 da Juventus, é o scudetto de José Mourinho. Que não promoveu nenhuma inovação técnica ou tática – pelo contrário, seu 4-3-3 fracassou no início da temporada e o esquema antes usado por Roberto Mancini foi o que funcionou novamente –, mas trouxe um ar de novidade por sua inquestionável capacidade de comunicação.

Mourinho foi capaz de levantar discussões que o ambiente do futebol italiano relutava em iniciar. Como, por exemplo, a falta de atrativos do campeonato para o público estrangeiro e a excessiva interferência de presidentes de clubes no trabalho dos treinadores. Além disso, cunhou expressões que caíram no gosto do torcedor. Em uma de suas melhores entrevistas, com seu acentuado sotaque, disse que Milan, Juventus e Roma terminariam a temporada com “zero tituli”. Marcou tanto que a manchete da Gazzetta dello Sport no domingo era “Inter: uno tituli”.

Vencer logo de cara é difícil para qualquer técnico estrangeiro em qualquer campeonato. E Mourinho conseguiu por duas vezes, no Chelsea (terminando com um jejum de meio século) e agora na Inter. Além disso, ser campeão no ano de estreia na Serie A é um feito para poucos. O último havia sido Arrigo Sacchi, no Milan de 1987/88. Antes disso, outro interista, Giovanni Invernizzi, na temporada 1970/71.

Os jogadores respeitam Mourinho, porque ele os defende em qualquer ocasião, até nas mais improváveis, como no “cala-boca” de Ibrahimovic para a torcida no jogo contra a Lazio e nas enésimas desventuras de Adriano. Sua maneira de agir é, de certa forma, uma tática para chamar a atenção para si.

É verdade que, na fria análise dos números, a Inter conquistou com o português a mesma coisa que conquistou com Mancini na última temporada. Mas não se contrata um técnico como Mourinho pensando em apenas um campeonato. Obviamente, espera-se uma evolução na próxima campanha, sobretudo no terreno europeu, onde a Inter esteve abaixo da crítica nesta temporada. Sim, foi eliminada fazendo frente ao poderoso Manchester United, mas só teve este destino porque foi capaz de terminar em segundo lugar em um grupo fraco, ficando atrás do Panathinaikos.

Basta uma olhada para o elenco atual da Inter para entender que há várias peças a mexer. Crespo e Cruz, ambos em fim de contrato, devem sair. Na defesa, jogadores como Córdoba e Materazzi – já pouco utilizado nesta temporada – estão em idade avançada e não dão tantas garantias quanto antes. O mesmo discurso vale para Vieira, um jogador que deixou claramente seus melhores anos para trás. Figo percebeu isso (um pouco tarde) e vai pendurar as chuteiras.

Javier Zanetti é um caso à parte: permanecerá enquanto quiser, como Maldini no Milan, porque é um capitão que lidera por exemplo, é um profissional de primeira linha e mostra capacidade de adaptar seu jogo às condições físicas com o passar dos anos.

De qualquer forma, o futuro da Inter passa por jovens promissores como Balotelli – que precisa urgentemente trabalhar seu caráter para ser o grande jogador que pode ser – e Santon, a revelação desta temporada. E deve ser montado em cima de uma espinha dorsal de jogadores que colaboraram de forma fundamental para o scudetto, como Júlio César, Maicon e Cambiasso.

E Ibrahimovic? O sueco é um capítulo à parte. Sua importância para a equipe é inquestionável, e não por acaso ele foi campeão – decisões judiciais à parte – em todos os anos desde que chegou à Itália. No domingo, protagonizou mais um episódio polêmico, mesmo em uma ocasião festiva, ao perguntar de forma veemente para Mourinho se não seria substituído. Pois ele, irritado porque Balotelli não havia lhe passado a bola do segundo gol (ignorando ordens do técnico, que pediu aos jogadores que dessem a artilharia ao sueco), acabou permanecendo em campo e marcou seu 22º gol na temporada, ficando a um de Di Vaio, do Bologna, líder dos goleadores.

Tanto Mourinho quanto Massimo Moratti tentam minimizar as notícias sobre uma saída de Ibrahimovic no fim da temporada, mas o sueco fala em seu desejo de mudar de ares sempre que tem a possibilidade. Perdê-lo será um duro golpe, mas por outro lado pode ser a possibilidade de bancar outras negociações importantes para elevar o nível da equipe. Da mesma maneira, jogadores como Mancini e Quaresma, as duas contratações mais fracassadas da temporada, também podem ser vendidos ou pelo menos servir como moeda de troca.

O exemplo do Milan prova que não é exatamente de grandes nomes que se cria um time potente. Por isso, em vez de medalhões como Drogba e Lampard, cobiçados nos últimos anos, a Inter deve pensar em se voltar para jogadores de clubes menores com capacidade para dar o salto de qualidade.

Diego Milito, ídolo do Genoa com seus 20 gols na temporada, é um destes nomes. Mourinho já admitiu que as negociações estão adiantadas. Outro é Fabio Quagliarella, atacante da Udinese que agrada ao técnico de Setúbal – ouviu isso dele pessoalmente no jogo entre as duas equipes no returno.

Para reforçar o meio-campo, a ideia também deve ser apostar em nomes que se destacaram na Serie A. Os brasileiros Felipe Melo, da Fiorentina, e Thiago Motta, do Genoa, são dois ótimos exemplos. Para a defesa, surge o nome do bom dinamarquês Simon Kjaer, 20 anos, do Palermo, cobiçado por meia Itália.

Mas a montagem da nova Inter não passa apenas pelo mercado. Da mesma maneira que identificou em Santon um titular em potencial, Mourinho vê na Primavera nerazzurra outros jogadores capazes de se firmarem a médio e longo prazo.

Um deles é o versátil atacante Mattia Destro, nascido em 1991 como o lateral. Outros dois são jovens eslovenos que a Inter foi buscar ainda para suas categorias de base: o goleiro Vid Belec e o volante René Krhin. Não são apostas imediatas, mas vale anotar seus nomes, assim como o do meia brasileiro Philippe Coutinho, destaque da Seleção Brasileira sub-17. Coutinho só se apresentará ao clube em 2010, quando completar 18 anos.

O mais importante para estes futuros talentos é crescerem em um ambiente vencedor. A Inter tem todas as condições para consolidar uma hegemonia nacional e ainda pensar em lutar, enfim seriamente, pela conquista da Liga dos Campeões. Basta se planejar. Não há dúvida de que o time está nas mãos certas para isso.

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Equipe Trivela

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