Itália

Cada um por si

(Coluna fechada antes da confirmação da saída de Spalletti)

O dia era 4 de junho de 2009. Por duas horas, Luciano Spalletti permaneceu reunido com a presidente Rosella Sensi, antes que fosse anunciada sua continuidade à frente da Roma. Havia sido uma temporada difícil para os giallorossi, com um sexto lugar conquistado a duras penas, representando a pior colocação da equipe sob o comando do técnico toscano. A torcida terminou o campeonato pedindo à diretoria que vendesse o clube, e o relacionamento de Spalletti com a cúpula romanista parecia desgastado.

Uma separação naquele momento seria compreensível, mas a Roma olhou ao redor e percebeu não ter opções mais interessantes. A saída de Spalletti só se justificaria plenamente caso se abrisse uma porta para ele, como por exemplo a Juventus, mas nada se concretizou. O clima vinha pesado desde maio, quando treinador acusou gente importante na direção, como Bruno Conti, de armar sua demissão em reuniões internas.

É correto dizer que Spalletti não começou a temporada 2009/10 de corpo e alma na Roma. E talvez por isso o clube esteja próximo de dar um fim ao relacionamento, depois de duas derrotas nas primeiras rodadas da Serie A, para Genoa e Juventus. A tabela era complicada, mas a Roma de outros tempos teria força para buscar os pontos.

Na Itália, já se comenta abertamente sobre o desejo de separação das duas partes. Spalletti, por estar chateado com a inoperância do clube no planejamento da temporada – “Sem programação não podemos fixar objetivos”, disse –, culminando com o fracasso em contratar um atacante de peso no fechamento do mercado. Ruud van Nistelrooy foi sondado e preferiu ficar na reserva do Real Madrid. O goleiro contratado, o romeno Lobont, não resolve o problema: chega lesionado e para ser banco quando tiver condições.

A Roma, além dos maus resultados, pode aludir a razões mais antigas: o contato de Spalletti com os dirigentes do Chelsea no fim da temporada 2007/08, quando o clube londrino procurava um novo treinador. A viagem do técnico nunca foi plenamente perdoada em Trigoria.

O simples desejo de separação, no entanto, não é suficiente para que ela se concretize em um piscar de olhos. Afinal de contas, Spalletti tem mais de € 7 milhões a receber pelo que resta de seu contrato, até junho de 2011. Improvável que a Roma o demita e mantenha tamanho gasto em seu orçamento. Até mesmo uma rescisão consensual é delicada: como chegar a um valor que satisfaça aos dois lados? Sem contar os seis outros integrantes da comissão técnica.

Um fato que pode desbloquear a questão é o interesse dos russos do Zenit por Spalletti. Uma eventual proposta de São Petersburgo certamente seria financeiramente importante para o técnico, que facilitaria assim a saída da Roma.

Até mesmo o nome do substituto de Spalletti já é noticiado na imprensa italiana: Cláudio Ranieri, demitido pela Juventus a duas rodadas do fim do último campeonato. Ranieri é visto como um nome experiente, capaz de ajudar o time a se recuperar do começo difícil, e também é consideravelmente mais barato que Spalletti, fato que não pode ser ignorado na atual situação da Roma.

A provável saída de Spalletti não deve ocorrer da maneira que faria mais justiça ao treinador, que assumiu a Roma em 2005, vinda de uma temporada desastrosa, e conseguiu três vice-campeonatos consecutivos (o primeiro herdado no escândalo de 2006, os outros dois em campo), atrás apenas de uma Inter com muito mais meios financeiros.

Neste período, poucas equipes italianas e europeias mostraram um jogo tão agradável quanto o da Roma, baseado em velocidade e categoria, apostando em um esquema 4-2-3-1 que virou modelo para vários outros clubes por sua funcionalidade. Não por acaso, Spalletti venceu por duas vezes o “Oscar del Calcio” como melhor treinador, em 2006 e 2007.

Exatamente por sua importância para a história recente da Roma, tanto Spalletti quanto a Roma poderiam ter conduzido de outra maneira a separação que neste momento parece inevitável.

Um time e um bando

A atuação da Internazionale na goleada de 4 a 0 sobre o Milan fez com que o mau desempenho na estreia contra o Bari (empate por 1 a 1) parecesse apenas um blefe.

A verdade é que os nerazzurri fizeram o que há muito tempo não faziam: jogaram como um time. Sem invenções, com cada jogador atuando na posição em que é capaz de render seu máximo, o que foi possibilitado pela chegada de Sneijder, apresentado na véspera e a princípio nem relacionado (isso sim um blefe).

A Inter envolveu o Milan com um jogo de toques rápidos, transição entre os setores, supremacia física. Chama a atenção a facilidade com que eram abertos os espaços na retaguarda rossonera, sobretudo no setor defendido por Jankulovski, onde Maicon – melhor em campo ao lado de Diego Milito – fez a festa.

O primeiro gol do time de José Mourinho aproveitou de um entrosamento passado entre Milito e Thiago Motta. No Genoa, o brasileiro marcou um gol muito semelhante ao do último sábado, em um empate por 3 a 3 com a Fiorentina, também recebendo passe do argentino. (veja o gol no dérbi aqui e o gol pelo Genoa aqui).

Até aquele momento, o Milan havia tentado alguma coisa, sem sucesso. A fórmula era a de esperar que Pato resolvesse com uma jogada individual, ou que Ronaldinho decidisse se movimentar um pouco mais para fugir da marcação de Stankovic. Não aconteceu nenhuma das duas, e a equipe de Leonardo se comportava como um bando em campo.

Prova da dificuldade do brasileiro em impor sua autoridade foi o episódio envolvendo Gattuso, que permaneceu em campo machucado até fazer o pênalti que deu origem ao segundo gol (quando já deveria ter sido expulso por impedir uma ocasião clara). Enquanto Seedorf, de tênis no banco de reservas, demorava para estar pronto para o jogo, o volante da Azzurra recebia seu segundo cartão amarelo e era expulso. Não é preciso ser um gênio para saber que um jogador com as características de Gattuso tem de estar em condições físicas perfeitas para render o máximo.

Em vez de reequilibrar o time, Leonardo deixou tudo como estava. Ou seja, Pirlo e Flamini para cobrir todo o meio-campo, já que Pato, Borriello e Ronaldinho não participavam da recomposição defensiva. Não foi nenhuma surpresa quando Maicon, em uma arrancada que comprova sua volta à melhor forma, fez o terceiro.

O posicionamento do Milan só foi corrigido na segunda etapa, com as entradas de Seedorf e Ambrosini, mas já era tarde. Só não veio uma goleada histórica porque a Inter reduziu o ritmo – e ainda assim se manteve dona da partida, chegando às redes primeiro com Eto’o, anulado, e depois com Stankovic, para valer, com uma bomba de longa distância. Sem chances para Storari, que pode ter todas as deficiências, mas não teve nenhuma responsabilidade no resultado.

O fato de quatro jogadores diferentes terem marcado pela Inter ressalta um sentido coletivo que não se via na primeira temporada com Mourinho, quando várias das vitórias eram fruto do brilho individual de Ibrahimovic. Mais atuações como a do dérbi farão da Beneamata uma concorrente forte não apenas ao scudetto, mas também à Liga dos Campeões. Nesse sentido, os confrontos com o Barcelona pela fase de grupos serão um interessante tira-teima.

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Equipe Trivela

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