Itália

Apenas o talento não basta

Que imagem o jovem Mario Balotelli carregará do empate por 3 a 3 da Internazionale contra a Roma, no último domingo? A do atacante que marcou dois gols e ajudou seu time a arrancar um ponto valioso na corrida pelo “scudetto”, ou a do menino mimado que voltou a demonstrar falta de respeito pelos outros protagonistas do espetáculo?

As imagens do camisa 45 mandando a torcida romanista calar a boca depois de marcar um gol de pênalti (inexistente) e posteriormente mostrando a língua para os jogadores adversários entram para a coleção de atitudes condenáveis que o atacante de 18 anos vem colecionando em tão pouco tempo de carreira.

Balotelli surgiu como uma grata revelação do futebol italiano. Com uma história de vida interessante, o filho de imigrantes ganenses criado por italianos foi promovido por Roberto Mancini à equipe principal da Inter na metade da temporada 2007/08 e impressionou logo de cara. Passou a ser tratado como a resposta nerazzurra ao milanista Pato.

Daí em diante, ficou a impressão de que ele não soube lidar com a rápida ascensão. A chegada de José Mourinho a Appiano Gentile expôs ao público a atitude indiferente do atacante nos treinamentos, o que lhe valeu algumas broncas em público (e certamente outras em particular).

A falta de aplicação impediu que Balotelli tivesse mais oportunidades, sobretudo nos períodos em que Mourinho não contava com Adriano, e culminou com manifestações sobre o desejo de ser emprestado em janeiro – o que foi prontamente rechaçado pelo treinador, que o manteve sem jogar até que terminasse a janela de transferências.

Em fevereiro, foi a vez de Pierluigi Casiraghi, técnico da seleção sub-21 da Itália, se irritar com a indisciplina do atacante, que se apresentou com atraso para um treinamento.

No jogo contra a Roma, é verdade, Balotelli foi perseguido pela torcida adversária durante boa parte do jogo – houve quem falasse em insultos racistas –, mas também houve vaias da torcida da Inter, insatisfeita com sua participação no primeiro tempo, abusando do individualismo e do preciosismo.

A mudança tática de Mourinho para o segundo tempo, que recuou Balotelli para a linha ofensiva do meio-campo no esquema 4-2-3-1, ajudou o jovem atacante a se reencontrar no jogo. Vieram o primeiro gol da Inter e o terceiro da Roma, e então o lance que botou fogo na partida – e provavelmente no campeonato. Balotelli tenta invadir a área entre dois jogadores e esbarra no quadril de Marco Motta, que não faz nenhum movimento na direção do interista. O árbitro Nicola Rizzoli apitou com convicção, mas equivocadamente.

Balotelli marcou pela segunda vez na partida e, com seu time em desvantagem no placar, se sentiu no direito de provocar os torcedores e jogadores adversários. Sentiu-se como um jogador consagrado – e nem mesmo estes deveriam achar normal este tipo de gesto, desrespeitoso com quem assiste no estádio e pela televisão.

Talvez Balotelli espere que tal atitude seja interpretada como “personalidade”, quando não passa de uma prova de imaturidade que atrai antipatias. A personalidade que deve servir de exemplo é a de gente como o capitão Javier Zanetti, jogador sempre sereno e dedicado às cores do clube.

O fato de Crespo ter marcado o gol de empate ajuda a mostrar uma diferença importante. O argentino festejou muito, sem demonstrações de raiva ou rancor – mesmo tendo sido ignorado por Mourinho durante boa parte da temporada e até excluído da lista de inscritos para a Liga dos Campeões. Crespo já decidiu deixar a Inter no fim de seu contrato, em junho, mas nem por isso deixa de se preocupar apenas em jogar seu futebol quando tem oportunidades.

Mas Balotelli não precisa nem olhar para um exemplo de outra geração para aprender como a juventude não é desculpa para a imaturidade. O jovem lateral Davide Santon cavou seu espaço no time com humildade, fez uma ótima partida contra o Manchester United na Liga dos Campeões e já pode se considerar titular absoluto – algo que Balotelli ainda está longe de ser, para sustentar tamanha marra.

O presidente Massimo Moratti evitou criticar Balotelli, mas seu comentário (“Esse é o caráter dele”) deixa transparecer uma certa insatisfação com o comportamento, algo que deve ser corrigido internamente. É compreensível que Mourinho defenda o jogador da onda de críticas que se formou desde domingo, mas espera-se que providências sejam tomadas para que cenas como aquelas não se repitam.

É um jogador de talento evidente, mas se algo não for feito para direcionar suas prioridades, pode ser apenas mais um prodígio que se perdeu.

Uma ideia compartilhada por Sandro Mazzola, um dos maiores ídolos da história nerazzurra: “Balotelli demonstrou mais uma vez não saber se comportar em campo de maneira profissional. Ele disputou um primeiro tempo desastroso e mesmo assim Mourinho decidiu mantê-lo em campo. O técnico está trabalhando muito na sua cabeça, mas evidentemente não basta. E se Mario não melhorar sua cabeça, haverá pouco a fazer para seu crescimento”.

Ou, simplesmente, como disse Carlo Mazzone, decano dos técnicos italianos: “Ele precisa compreender que não é o dono do mundo”.

Ele faz falta

Se Carlo Ancelotti já parecia rumar para a porta de saída do Milan há uma semana, o que dizer de sua situação atual, após a eliminação diante do Werder Bremen na Copa Uefa e a derrota para a Sampdoria em Gênova?

Os atestados públicos de estima de Berlusconi e Galliani pelo treinador, de agora em diante, só servirão para que o time não desvie seu foco da importante disputa por uma vaga na próxima Liga dos Campeões. Terminar abaixo do quarto lugar seria um desastre financeiro para o clube.

Ancelotti, se pudesse fazer um desejo, certamente gostaria de voltar atrás e não perder Gattuso por contusão. No setor ofensivo, Kaká e Pato são os motores que fazem o time andar, e suas ausências também são bastante sentidas. Ainda assim, o Milan tem o segundo melhor ataque do campeonato, com 43 gols marcados, e apenas a sexta melhor defesa, com 27 gols sofridos.

Os números do Milan com e sem Gattuso nesta temporada, levantados na coluna de Germano Bovolenta na Gazzetta dello Sport, impressionam pelas discrepâncias. No campeonato, com o camisa 8 em campo, foram oito vitórias, três empates e nenhuma derrota. Sem ele, 6 vitórias, 3 empates e 6 derrotas. Na Copa Uefa, com Gattuso, foram três vitórias e um empate. Sem ele, três empates e uma vitória apenas.

A exposição defensiva provocada pela falta de um jogador com as mesmas características de Gattuso se torna mais grave quando começam a faltar nomes para compor a zaga. A volta de Alessandro Nesta antes do fim da temporada é cada vez mais improvável, e Kaladze pode seguir o mesmo caminho. O fiasco de Senderos e a óbvia impossibilidade de Maldini jogar todas as partidas aumentam o drama.

Junte-se a isso tudo a falta de um esquema alternativo (Ancelotti deveria ter testado o 4-4-2 em algum momento, e não o fez) e se tem a explicação para mais uma temporada abaixo das expectativas em Milanello.

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Equipe Trivela

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