Itália

Allegri ma non troppo

“Um conselho a Allegri? Pentear-se antes das entrevistas”. Foi com uma dose de ironia e provocação que Silvio Berlusconi falou sobre seu treinador após a derrota do Milan por 2 a 1 para a Juventus no último sábado, em San Siro. O manda-chuva rossonero não costuma se furtar a dar pitacos sobre a atuação da equipe, mas desta vez se esquivou, talvez para evitar um princípio de crise. O fato é que Berlusconi não encontrou Massimiliano Allegri após a partida, e quem conhece seu modo de agir sabe que a paciência está se esgotando rapidamente.

Desde 2005 o Milan não perdia em casa para a Juve, e o revés deste ano chegou menos de duas semanas depois de uma lição de futebol tomada diante do Real Madrid no Santiago Bernabéu. Ou seja, os dois grandes testes da temporada até aqui terminaram em fracasso.

Na noite da derrota para os bianconeri, Ronaldinho, que havia ficado de fora por lesão, jantou com amigos e confessou a eles sua insatisfação com o modo de atuar da equipe. “Não se pode jogar assim. Não podemos deixar Zlatan (Ibrahimovic) sozinho no meio de quatro adversários”, afirmou o brasileiro, segundo reportagem da Gazzetta dello Sport. Publicamente, Ronaldinho negou a crítica, mas o estrago já estava feito. E engana-se quem pensa que o brasileiro esteja mais próximo da porta de saída. Convocado novamente para a Seleção Brasileira, sabe que ir para o Los Angeles Galaxy seria um golpe em suas pretensões de continuidade com a camisa amarela. A prioridade do camisa 80 é renovar com o Milan, e a de Berlusconi é seguir contando com ele.

É nesse ambiente que Allegri tem de conviver às vésperas do delicado jogo de volta contra o Real Madrid, que pode comprometer as possibilidades de classificação do Milan na Liga dos Campeões, e também do dérbi contra a Internazionale, marcado para o dia 14 de novembro. Resultados negativos podem fazer com que ele, como se diz na Itália, nem chegue a comer o panetone.

A história do jogo contra a Juventus poderia ser diferente se uma das duas tentativas de Ibrahimovic no início do jogo tivessem resultado em gol, mas a primeira bateu no travessão e a segunda foi bem defendida por Storari. De qualquer maneira, o problema do Milan é ser um time concentrado demais nas individualidades, sem sentido de equipe. A bola não chega aos homens da frente, mas eles também não fazem muito esforço para ajudar a recuperá-la quando a posse é do adversário.

Evidentemente, nem todo problema é de responsabilidade do técnico, que não tem pra onde correr quando as opções para jogar ao lado de Nesta são Bonera (que saiu lesionado para a entrada de Abate), Sokratis e Antonini. De qualquer maneira, tem faltado versatilidade tática e agilidade nas alterações. Faltou em Madri e faltou novamente contra a Juve, quando Seedorf e Inzaghi só entraram nos lugares de Boateng e Pato nos 20 minutos finais.

Vale lembrar que a Juventus não tinha Krasic, suspenso, e no aquecimento perdeu Chiellini. Ou seja, a Vecchia Signora entrava desfalcada de seu principal jogador na temporada até aqui e de seu melhor defensor. Ainda assim, deu um banho de organização, mesmo quando duas baixas sofridas durante o jogo provocaram improvisações: Pepe na lateral quando saiu De Ceglie, e Sissoko na meia-direita quando saiu Martínez. Foi justamente uma jogada do malinês que resultou no segundo gol, marcado por Del Piero (agora recordista juventino de gols na Serie A, com 179).

Outra aposta errada de Allegri foi eleger Robinho como substituto de Ronaldinho na armação de jogadas, ainda que tenha funcionado contra um Napoli que passou boa parte do jogo com um homem a menos. Fora de suas características, o ex-santista esteve apagado e foi presa fácil para a marcação de Felipe Melo, o melhor homem em campo (comparado pela imprensa italiana ao Emerson da Juve de Capello). Se Ibrahimovic ainda lutou para resolver na frente e marcou o gol de honra, o mesmo não pode se dizer de Pato, sempre alheio ao jogo e vaiado pela primeira vez em San Siro, justamente quando completava 100 jogos pelo clube. O camisa 7 precisa de um choque de realidade, talvez até uma partida no banco, para retomar a concentração, já que seu talento é inegável.

Neste momento, parece difícil sustentar o tridente ofensivo. Pelo menos em algumas partidas mais delicadas, optar por um 4-4-2 mais equilibrado pode ser a solução. E outra questão importante: onde estão os jovens que se destacaram na pré-temporada, como Merkel, Albertazzi e Strasser? Por que tanto temor em lançar os garotos quando o jogo é para valer, se eles já mostraram potencial? Hoje o elenco do Milan é curto e deficiente em vários setores. A relutância em renovar torna essa lacuna ainda mais grave.

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Equipe Trivela

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