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Adriano: “Depois da morte do meu pai, meu amor pelo futebol nunca mais foi o mesmo”

Em depoimento no Player’s Tribune, Adriano Imperador contou como sua vida mudou após a morte do seu pai e como perdeu a vontade de jogar, apesar de ter tentado

Adriano Imperador. Um apelido imponente para um jogador que mereceu isso ao longo de uma carreira estelar. Flamengo, seleção brasileira, lenda na Itália. Uma perna esquerda dona de um dos chutes mais potentes que o futebol já viu. Ídolo, craque, humilde, artilheiro, recluso. Uma das coisas que mais se fala sobre Adriano é por tudo que ele abandonou. Constantemente, se fala sobre o desperdício do imenso talento que ele tinha. Em depoimento ao Player’s Tribune, Adriano finalmente falou. Contou o que aconteceu na sua vida e por que ele deixou o futebol para voltar à sua comunidade e estar com a sua família. A morte do pai, em 2004, é o principal evento que muda a carreira do ex-jogador.

O depoimento ao Players’ Tribune começa falando do seu início de carreira, a vida feliz na infância, o futebol sempre presente, a escolinha do Flamengo, a viagem até o treino com a avó, a quase dispensa ainda como lateral esquerdo, a conversão para atacante e a forma como impressionou quando treinou com os profissionais e como chegou à seleção brasileira quando nem esperava, ainda aos 18 anos, quando o então técnico Emerson Leão o convocou.

Pô, fala sério. Eu tinha 18 anos e morava na favela. Como é que você pode dizer que não fui tocado por Deus? Minha história não tem muita lógica, nem mesmo pra mim.

Um ano depois, fui para a Inter de Milão e algumas pessoas passaram a me chamar de “Imperador”.

Ele fala com carinho sobre a Internazionale, um clube que foi acolhido pelo presidente Massimo Moratti, a quem destinou algumas palavras de agradecimento. Ele conta como começou a sua trajetória na Inter, ainda nos primeiros momentos.

Nunca vou esquecer o primeiro jogo contra o Real Madrid, um amistoso no Santiago Bernabéu, e eu entrei durante a partida. Pouco depois, sofri uma falta fora da área e eu peguei a bola pra bater. De repente, adivinha quem vem atrás de mim dizendo: “Não, não, não. Eu vou bater.”

Materazzi, zagueirão daquele tamanho, com ele a porrada come!

Eu mal conseguia entender o que ele estava dizendo, porque eu não falava italiano ainda. Mas eu entendi que ele não tava gostando de alguma coisa.

“Não, não, não!”

Ele queria pegar a bola. Mas o Seedorf chegou e disse: “Não, quem vai bater é o Adriano!”.

Ninguém mexe com Seedorf. Aí o Materazzi saiu fora. E o que é tão engraçado é que, se você assistir ao vídeo, vai ver o Materazzi parado com as mãos na cintura, pensando: “Esse filho da mãe vai mandar a bola pra fora do estádio!!!”.

As pessoas me perguntam o tempo todo sobre aquela cobrança de falta.

Como, como, como? Como você chutou a bola com tanta força?

Eu digo a eles: “Ah, cara! Não sei! Eu bati com a esquerda e Deus fez o resto!”.

TUM!!!

Canto superior do Casillas.

Eu realmente não consigo explicar. Simplesmente aconteceu.

Esse foi o início de um caso de amor com a Inter. Até hoje, a Inter é o meu clube. Eu amo Flamengo, São Paulo, Corinthians… Amo muitos dos lugares onde já joguei, mas a Inter é algo especial para mim.

A imprensa italiana? Ok, essa é outra história. Hahahaha.

Mas o clube Inter de Milão? O melhor, cara.

Me dá arrepios só de lembrar de como a torcida cantava no San Siro.

Che confusione
Sarà perché tifiamo
Un giocatore
Che tira bombe a mano
Siam Tutti em Piedi
por questo brasiliano
batti le mani
che no campo c’è Adriano
“Todos nós estamos com este brasileiro.”

Um cara que veio da favela, sendo chamado de “Imperador”, na Itália? Eu nem tinha feito muito ainda, e todos estavam me tratando como um rei. Foi louco. Lembro da minha família vindo do Rio para me visitar… E, quando digo minha família, você não entende o que eu quero dizer, cara. Quero dizer minha família. Não estou falando apenas de mamãe e papai, estou falando de 44 pessoas! Primas e primos! Tias e tios! A galera toda!

A galera toda entrou naquele avião.

Então a notícia chegou ao presidente do clube, Moratti (a lenda!). E ele disse: “Ei, este é um momento especial para o garoto. Vamos pegar um ônibus para a família dele.” Moratti reservou um ônibus só para a minha família. Você pode imaginar 44 brasileiros em “turnê” pela Itália? Hahaha! Que cena. Foi uma festa só!

Esta é a razão pela qual nunca direi uma palavra ruim sobre o Moratti ou sobre a Inter. Todo clube deveria funcionar assim. Ele se importava comigo de verdade, como pessoa.

“Mas Adriano, por que você se afastou do futebol? Por quê?”

Adriano é homenageado pela torcida da Inter em outubro de 2004 como “Rei de Milão” (Imago / OneFootball)

Agora, eu sei o que você está pensando.

“Mas, Adriano, por que você se afastou do futebol? Por quê?”

Todas as vezes que volto pra Itália me perguntam isso.

Às vezes, acho que sou um dos jogadores de futebol mais incompreendidos do planeta. As pessoas realmente não entendem o que aconteceu comigo. Eles entenderam a história toda errada. É muito simples, para falar a verdade.

No intervalo de nove dias, eu fui do dia mais feliz para o pior da minha vida.

Eu fui do céu ao inferno. Sério.

25 de julho de 2004. A final da Copa América contra a Argentina. Todo brasileiro se lembra desse jogo. A gente tava perdendo para aqueles desgraçados nos minutos finais. Eles estavam catimbando, zoando com a gente, tentando entrar na cabeça dos jogadores brasileiros para ganhar tempo. Luís Fabiano queria dar soco em todo mundo! Hahaha! “Esquece o jogo! Vamos pegar esses caras de porrada!”

O que aconteceu depois parecia um sonho, cara. Um filme. Uma música. Não sei o que foi, mas não parecia a realidade.

Bola alta na área. Confusão. Corpos. Cotovelos. Eu não conseguia ver nada! Se você assistir ao vídeo, eu coloco meu cotovelo pra cima para acertar em alguém. De repente, a bola sobra no meu pé. Um presente do céu.

Eu pensei: “Oh! Vem cá, tum!!”

Estaria mentindo pra você se dissesse que sabia onde estava mirando.

Eu apenas bati com a esquerda, o mais forte que pude.

THUM!!

Beijo do gordo para os argentinos!!!

A bola balançou a rede e não sei explicar a sensação. Incrível.

Ali empatamos o jogo, mas sabíamos que tínhamos quebrado os caras. Nós sabíamos o que aconteceria nos pênaltis.

Juanzão meteu lá, já era!

Fomos campeões.

E a Argentina, não.

Vencer a Argentina assim, pelo meu país, com minha família assistindo… Provavelmente foi o dia mais feliz da minha vida.

Como não poderia pensar que Deus desceu sua mão do céu para tocar minha vida?

E isso é uma lição para todos. Porque não importa quem você seja – você pode estar no topo do mundo, você pode ser O Imperador – mas sua vida pode mudar num…

Snap!

…Estalar de dedos.

Adriano comemora o gol do Brasil na final da Copa América contra a Argentina, em 2004 (Imago / OneFootball)

4 de agosto de 2004. Nove dias depois. Eu estava de volta à Europa com a Inter. Recebi uma ligação de casa. Eles me disseram que meu pai havia morrido. Ataque cardíaco.

Eu realmente não queria falar sobre isso, mas vou te dizer que, depois daquele dia, meu amor pelo futebol nunca mais foi o mesmo. Ele amava futebol, então eu amava futebol. Simples assim. Era meu destino. Quando joguei futebol, joguei pela minha família. Quando marquei, marquei para a minha família. Então, quando meu pai morreu, o futebol nunca mais foi o mesmo.

Eu estava do outro lado do oceano na Itália, longe da minha família, e não conseguia lidar com tudo aquilo. Fiquei tão deprimido, cara. Comecei a beber muito. Eu realmente não queria treinar. Não teve nada a ver com a Inter. Eu só queria ir pra casa.

Para ser honesto com você, embora eu tenha marcado muitos gols na Série A ao longo desses anos, e embora os torcedores realmente me amem, minha alegria se foi. Foi meu pai, sabe? Eu não poderia simplesmente apertar um botão e me sentir eu mesmo novamente.

A fala de Adriano sobre o pai não é nova. Em maio de 2020, falando a meios de comunicação italianos, ele comentou que a morte do pai deixou um vazio irreparável na sua vida. Ele deu muitas alegrias aos torcedores da Inter, como o título da Copa da Itália de 2005, que quebrou um jejum de taças do clube.

“Nem todas as lesões são físicas, entende?”

Em 2009, Adriano atua pela Internazionale (Imago / OneFootball)

Quando rompi o tendão de Aquiles em 2011? Cara, eu sabia que ali estava tudo acabado pra mim, fisicamente. Você pode fazer uma cirurgia, reabilitar e tentar continuar, mas nunca mais será o mesmo. Minha explosão se foi. Meu equilíbrio se foi. Merda, eu ainda manco. Ainda tenho um buraco no tornozelo.

Foi a mesma coisa quando meu pai morreu. Mas a cicatriz estava dentro de mim.

“Cara, o que aconteceu com o Adriano?”

É muito simples.

Tenho um buraco no tornozelo e outro na alma.

Em 2008, foi a vez do Mourinho, na Inter, e eu já estava saturado. A imprensa me seguindo por toda parte, e tudo com o Mourinho era: “Foda-se, pá! Puta que pariu, caralho! Você vai me foder, não é, garoto?”.

Eu dizia: “O que foi, cara?”

Não aguentava mais. Não conseguia mais jogar com aquela paixão.

Daí fui convocado para a Seleção Brasileira e, antes de sair, o Mourinho falou: “Você não volta mais”.

“É, você já sabe.” E não voltei mais.

Passagem só de ida.

Adriano com Mourinho, técnico da Inter, em 2008 (Imago / OneFootball)

“Voltei a ser só o Adriano”

A imprensa, às vezes, não entende que somos seres humanos. Era muita pressão ser O Imperador. Eu vim do nada. Eu era um garoto que só queria ir jogar futebol e curtir com os amigos. E eu sei que não é algo que você ouve de muitos jogadores hoje em dia, porque tudo é muito sério e há muito dinheiro envolvido. Mas estou apenas sendo honesto. Nunca deixei de ser aquele moleque da favela.

A imprensa dizia que eu tinha “desaparecido”. Eles falavam que eu tinha voltado para a favela e estava me drogando, e mais um monte de m#[email protected] Publicavam fotos minhas dizendo que eu estava cercado por criminosos e que minha história era uma tragédia. Quando escuto uma coisa dessas, só rindo mesmo, porque eles não têm a mínima ideia do que acontece na minha vida. Eles não sabem como isso pode machucar uma pessoa.

Voltei para o meu povo, meus amigos, minha comunidade. Eu não queria morar num castelo, isolado de tudo e de todos. Voltei para as pessoas que me conheciam quando eu era o ADI-RANO [forma que a avó dele o chamava, assim, dessa forma mesmo] que comia pipoca.

Claro, tudo tem um preço. Eu estava fora de forma – física e mentalmente. Eu sabia que precisava de ajuda. Então acabei indo para o São Paulo para buscar suporte do REFFIS. Na época, o SPFC tinha alguns dos melhores médicos do mundo. Comecei a consultar com um psicólogo para me ajudar a lidar com minha depressão e fui capaz de me reabilitar.

E é aqui que tenho de dar um carinho ao Moratti, porque ele sempre me apoiou. Ele me deixou à vontade, porque ele sabia o que eu estava passando. Fui e voltei algumas vezes da Itália para o Brasil. Mas, no final, não consegui mentir pra ele.

Um dia ligamos para o Moratti, que me perguntou: “Adriano, você quer ficar aí um pouquinho?”.

E eu disse a ele: “Quero, sim. Não vou mentir para o senhor”.

E ele aceitou prontamente. Ele me deixou sair em paz. E eu o respeito muito por isso.

“Adriano desistiu de milhões para voltar pra casa.”

Sim, talvez eu tenha desistido de milhões. Mas quanto vale a sua paz de espírito? Quanto você pagaria para ter de volta a sua essência?

Na época, eu estava desolado com a morte do meu pai. Queria me sentir eu mesmo novamente. Eu não estava drogado. Isso nunca. Eu estava bebendo? Sim, claro. Merda, sim, eu estava. Saúde! Mas, se quiser testar – te juro por Deus –, você não vai encontrar droga nenhuma no meu sangue. O dia em que eu usar droga é o dia em que minha mãe e minha avó vão morrer. Bebida alcoólica? Ah, isso vai dar mesmo, bastante, até porque eu gosto de tomar um danone.

Quando voltei para o Rio para jogar pelo Flamengo, não queria mais ser o Imperador. Eu queria ser o Adriano. Eu queria ter prazer novamente. Vou contar a real sobre esse time do Flamengo: o grupo foi maravilhoso porque era de verdade. Não era só eu não, cara. O grupo. Às vezes, a gente chegava para o treino não pelo futebol, mas pela resenha depois. Assim que o treino acabava – poom! –, hora de tomar um querosene. Hora da resenha. Direto para o Mercado Produtor. Todo o time. Até as esposas já sabiam: “Estaremos em casa à meia-noite!” Hahaha! ;-)

No treino do dia seguinte, se alguém estivesse cansado, o outro dizia: “Vou correr para você!”. E se um estava ferrado, o outro dizia: “Vou correr por ele. Deixa comigo!!!”.

Sempre fizemos tudo juntos, cara.

E vencemos. Demos um Brasileirão para o Flamengo depois de 17 anos. Foi especial.

Nunca fui completamente o mesmo depois que meu pai faleceu, mas naquela temporada eu realmente me senti em casa. Senti alegria novamente. Eu voltei a ser o Adriano.

Adriano, da Inter, em agosto de 2004 (Imago / OneFootball)

“Sem Adriano, o Imperador não presta”

Adriano era o menino da favela.

Adriano era o menino do ônibus com sua avó.

Adriano era o garoto que o Flamengo ia dispensar.

Adriano foi o menino que lutou.

Adriano foi o que sobreviveu.

Nunca deixei de ser essa pessoa. O dinheiro, a fama, o reconhecimento… Nada muda como você nasceu, entende?

Eu não ganhei Copa do Mundo.

Também não ganhei a Libertadores. (Aquele Washington, safado…)

Mas quer saber? Eu ganhei quase tudo. E eu tive uma vida incrível, do [email protected]@lh#, cara.

Sempre tive muito orgulho de ser o Imperador. Mas sem Adriano, o Imperador não presta!

Adriano não usa coroa. Adriano é o menino da favela que foi tocado por Deus.

Você entende agora?

Você vê?

Adriano não sumiu nas favelas. Ele apenas voltou pra casa.

Adriano é homenageado pela Inter (Imago / OneFootball)

Adriano nos convida a refletir

Entender Adriano é olhar para o lado humano. É comum ouvirmos lamentos que o atacante, agora ex-jogador, teria desperdiçado a carreira ao largar mão do esporte de alto nível muito cedo. Imaginamos o que seria da seleção brasileira nas Copas do Mundo de 2010 e 2014 com Adriano, aquele Adriano Imperador, seguindo firme a carreira. Mas o que isso teria custado a Adriano?

O que ele deixa bem clara ao falar de forma tão aberta sobre o assunto no Players’ Tribune é que o custo para se manter por ali seria a sua saúde, a sua sanidade e sua felicidade. E isso não há quem pague. Nem a grana alta gerada pelo futebol, nem o prestígio de ser idolatrado por milhões, nem a sensação de fazer um gol decisivo.

Ser ídolo é algo impossível de ser comprado. Nem os maiores bilionários da terra podem comprar a idolatria. Ao menos não com o dinheiro que têm. Só se conquista isso com o que você faz. Mas isso não pode ser maior do que quem você é, ou ao preço da própria sanidade. É como ter um bom trabalho, mas que te custa a saúde, a sanidade, a felicidade. Chega um ponto que nem o bom salário vale mais a pena.

Adriano lida com algo que é difícil demais: a expectativa dos outros. O talento que ele tem é algo raro, algo que muitos sonham em ter. Por isso, muitos projetam nele o que gostariam de fazer. É absolutamente natural. Outros, apaixonados pelo futebol, querem ver mais de Adriano, porque desfrutavam dele em campo.

O seu depoimento clarifica algo que sempre ficou nebuloso: a forma como o atacante parecia desmotivado a continuar na profissão. Às vezes, abrir mão de coisas grandes é um ato de grandeza. Também é um ato de coragem, porque tá longe de ser fácil. Adriano teve a ousadia de não seguir os sonhos de tantas pessoas que queriam vê-lo brilhar por tantos anos.

Que o depoimento de Adriano nos faça olhar que nem sempre as conquistas esportivas são as mais importantes. Às vezes, antes do jogador, há uma pessoa que é mais feliz fora dali. Antes do Imperador vem o Adriano.

Assista à entrevista completa com Adriano no canal do Players’ Tribune e leia o depoimento completo do jogador no site:

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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