Itália

A pior Itália da história

 “Tutto nero” (Tudo negro) estampa a capa da Gazzetta dello Sport nesta sexta-feira. A manchete é um trocadilho com o título “Tutto vero” (Tudo verdade) do mesmo jornal em 2006, um dia após a conquista do título mundial em Berlim. Se aquela Azzurra fez história ao se sagrar campeã nos pênaltis contra a França, a de hoje, com muitos personagens em comum, volta para casa pela porta dos fundos. Uma se cobriu de glórias. A outra, de vergonha.

Quem acompanha esta coluna sabe que não há razões para se surpreender com o fiasco. Em vez de se agarrar à infame tese de que “a Itália é sempre assim, começa mal mas chega”, era necessário fazer uma avaliação racional dos fatores que tornaram a eliminação na fase de grupos, em uma das chaves mais fáceis do Mundial, a crônica de uma morte anunciada. Não faltou disposição. Faltou talento. Não faltou vontade. Faltou futebol.

Quando se leva a uma Copa do Mundo um elenco envelhecido, repleto de jogadores que já deixaram para trás seus melhores dias (Cannavaro, Camoranesi, Gattuso, Zambrotta, só para citar alguns dos campeões mundiais de 2006), e sem um padrão tático definido, não existe milagre. Não existe camisa que jogue sozinha.

Marcello Lippi assumiu a responsabilidade pelo fracasso após a derrota para a Eslováquia, mas estranho seria se não o fizesse. Foi ele o grande responsável por abrir mão de uma renovação que se fazia necessária. Talvez, com gente mais jovem, a Itália não fosse campeã do mundo. Mas dificilmente emularia tamanho vexame. Sem falar na omissão daqueles que não são tão jovens, mas tinham muito a oferecer pela Azzurra, como Cassano e Totti.

A suposta “força do grupo” defendida por Lippi nunca apareceu. E talvez nem tenha existido, já que insatisfações como a de Iaquinta, escalado fora de posição em um amistoso, foram externadas através da imprensa.

O futebol italiano é reconhecido mundialmente por sua capacidade tática, mas o técnico não mostrou nada disso. Em vez de definir uma formação base e testar variações, Lippi não sabia nem por onde começar. Nos três jogos do Mundial, foram três formações diferentes: 4-2-3-1 na estreia contra o Paraguai, 4-4-2 contra a Nova Zelândia e 4-3-3 contra a Eslováquia. Ainda por cima, sempre com jogadores fora de posição. Marchisio, queimado como meia de ligação e meia externo, que o diga.

Orgulho de representar o país é bonito, e ninguém nega que esse sentimento fosse comum ao grupo. Mas não basta, e nunca bastará. Expor ao ridículo jogadores que já tiveram grandes momentos, mas hoje são incapazes, vai para a conta de Lippi e também da federação, que bancou um projeto ultrapassado.

Dos atletas, com exceção de Quagliarella (que no amistoso contra a Suíça já tinha mostrado que estava bem), ninguém se salvou. Ninguém mereceria uma nota 6 no boletim. Em maior ou menor escala, todos aqueles que entraram em campo contribuíram para o fracasso. Até De Rossi, uma das poucas mentes lúcidas dos dois primeiros jogos, colocou tudo a perder na partida que carimbou o passaporte de volta para casa.

É impossível garantir que seria diferente com outros nomes. Mas Lippi tinha a obrigação de ter tentado, nem que fosse para provar que estava certo. É indecente não ter dado oportunidade a Cassano, jogador mais talentoso das duas últimas temporadas na Serie A. Ou espaço para que o explosivo Balotelli mostrasse que podia ser útil à causa.

As melhores palavras sobre o fiasco são de Arrigo Sacchi, vice-campeão mundial em 1994 e um dos maiores conhecedores do futebol italiano. Segue a tradução de sua coluna desta sexta na Gazzetta dello Sport:

“Voltamos para casa derrotados por times de pouca história. Últimos no grupo mais fácil. Espero que essa forte reprovação não se resolva com o bode expiatório de sempre, e que faça refletir sobre todo um sistema em grave atraso.

A seleção, que em 2006 nos salvou da crise gerada por Calciopoli, não se repetiu. Em um ambiente onde à presunção se unem ignorância e violência, é difícil crescer e se renovar também no aspecto técnico-tático. Espera-se sempre que a seleção oculte os limites culturais e educativos de todo um ambiente cada vez mais controverso e retrógrado.

Não importa que tenhamos estádios velhos, que os clubes troquem 15-16 técnicos por ano, e a maior parte deles viva com dívidas. Como não significa nada que os estádios sejam frequentados por esfaqueadores violentos e que haja um turbilhão de interesses ilegais. Desta vez, a seleção se suicidou.

É uma página negra para o futebol italiano, mas que podia ser prevista se não fôssemos cegados por presunção e ignorância. Neste último ano, todas as equipes italianas foram bruscamente eliminadas das copas (exceto a Inter, mas com jogadores e técnico estrangeiro), um sinal claro da nossa fraqueza.

Muitos acreditavam no milagre, como em 2006. Mas aquela foi mais a vitória da motivação e do medo que do valor técnico e do jogo. Talvez hoje pode existir uma crise generacional, criada também pelo desdém com as categorias de base. Mas não creio que os valores técnicos e de talento possam ser inferiores aos dos amadores neozelandeses ou dos eslovacos. Derrotas como essas são amargas, mas é preciso se esforçar para compreender os motivos.

Não vamos nos esconder por trás de Lippi como fazemos habitualmente. Marcello errou ao apostar em jogadores vindos de uma temporada modesta ou com pouco entusiasmo. No primeiro tempo, de 11 jogadores, três haviam feito um bom campeonato.

Talvez ele devesse buscar alternativas sem apostar no velho grupo. Talvez não vencêssemos o Mundial, mas certamente teríamos uma equipe mais rica em motivação, entusiasmo, condição física. É uma derrota que deverá ser analisada profundamente, e todos terão de fazer um exame de consciência”.

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Equipe Trivela

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