Itália

A esperança é azul

“Nem a história salva a Itália”, apostou este colunista no início da Eurocopa. Pois a zebra me derrubou do cavalo. Ainda que tenha sido vilipendiada pela Espanha na final do torneio, a Squadra Azzurra fez uma campanha acima de quaisquer expectativas. O sucesso no leste europeu, principalmente, renovou a confiança do torcedor em sua seleção.

Desde as comemorações da vitória na Copa do Mundo de 2006, o povo italiano havia perdido boa parte do interesse na seleção. A Nazionale, que fracassou nas duas competições seguintes, acabou se distanciando do torcedor, um afastamento potencializado pela falência moral do futebol do país. Na Polônia e na Ucrânia, assistir aos momentos de superação de um grupo fraco contagiou a Itália. Os dois últimos jogos da campanha foram vistos em praças lotadas nas principais cidades da Velha Bota e a paixão também contaminou o alto escalão do governo.

As lágrimas derramadas por meio time italiano após a matança espanhola exemplificaram a confiança infantil de uma equipe que finalmente resolveu acreditar em sim mesma. Os impiedosos 4 a 0 irão arder por muito tempo, mas dificilmente o resultado na final poderia ter sido outro que não uma vitória da Fúria. Estivesse a Itália no ápice do condicionamento físico, quem sabe não veríamos um placar menos dilatado. Mas os italianos jogaram com um atleta a menos até que um sacrificado Chiellini deixasse o campo e depois que a musculatura de Thiago Motta não suportou o tranco. Somados os períodos, testemunhamos quase 45 minutos de um novo Barcelona x Santos no Mundial de Clubes.

Na memória do torcedor italiano, porém, ficarão os sucessos nas quartas de final contra a Inglaterra e na semifinal frente à Alemanha. As vitórias fizeram com que a Nazionale recuperasse o prestígio há tanto tempo perdido. Sem demonstrar medo, os italianos fizeram 57 finalizações nas duas partidas, uma estatística que surpreende quem gosta de martelar no clichê do defensivismo da equipe. Cesare Prandelli remou contra a história ao apostar em um time que conseguia dar ritmo próprio ao jogo. Na final contra a Espanha, a Itália até teve mais posse de bola antes de levar o terceiro gol.

Prandelli merece ser tão incensado porque realizou um grande trabalho logo na primeira vez em que conseguiu trabalhar mais de dez dias com seus convocados. Nos dois anos de trabalho até a Euro começar, o treinador havia montado um time seguro e que, se não agradava aos olhos, corria poucos riscos contra rivais extremamente abordáveis, como Estônia, Eslovênia, Irlanda do Norte. Esse mesmo estilo de jogo mais “recatado”, genuinamente italiano, porém, sofria ao encontrar adversários mais poderosos.

Na Euro, as coisas mudaram: por trabalhar intensivamente com o grupo, Prandelli conseguiu corrigir os rumos durante a competição. Mudou o esquema tático quando conseguiu estabilizar a defesa e sacou os pontos fracos do time no momento certo. Quando necessário, também promoveu o retorno dos preteridos – assim, Montolivo e Balzaretti conseguiram realizar suas melhores partidas pela seleção. Mais do que renovar o grupo, Prandelli conseguiu revigorar o jogo da seleção. Fez de Pirlo o melhor jogador da Eurocopa, tirou o máximo de De Rossi, seja como zagueiro ou meia, e recuperou Cassano.

Como decidiu cumprir o contrato que o liga à seleção italiana até o fim da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, o próximo passo de Prandelli será enxertar novos nomes a um grupo que arrisca ter chegado a seu ápice nessa Eurocopa. É arriscado apostar que Pirlo consiga manter o alto nível até o Mundial, por exemplo. O camisa 21 terá 35 anos nas costas e virá de duas temporadas com poucas férias, por causa da disputa da Eurocopa e da Copa das Confederações. Atletas como Balotelli, Borini, Criscito e até Destro, Schelotto, Ogbonna e Verratti terão de se firmar, portanto.

Para montar o grupo da forma como quiser, porém, Prandelli terá de vencer uma batalha política que já está travada. Os grandes clubes italianos se opõem a liberar atletas para períodos de treinamentos além do que a Fifa exige. Se quiser ganhar a queda de braço, o treinador terá de se impor enquanto ainda sopram os bons ventos da Euro.

Pallonetto

 

– As notas do colunista para a Itália que eliminou a Alemanha nas semifinais: Buffon (7); Balzaretti (7), Barzagli (7,5), Bonucci (6,5), Chiellini (7); Marchisio (6,5), Pirlo (7,5), De Rossi (6,5); Montolivo (7); Cassano (6,5), Balotelli (9). Substitutos: Diamanti (6), Thiago Motta (6,5), Di Natale (5,5).

– As notas do colunista para a Itália que caiu para a Espanha na final: Buffon (6); Abate (5), Barzagli (4,5), Bonucci (5), Chiellini (4,5); Marchisio (4), Pirlo (5,5), De Rossi (5,5); Montolivo (5); Cassano (5), Balotelli (5,5). Substitutos: Balzaretti (5,5), Di Natale (5,5), Thiago Motta (sem nota).

– A contratação de Seedorf pelo Botafogo contagiou a torcida carioca, obviamente. Mas é importante que o alvinegro saiba qual Seedorf chegará ao Brasil. Com problemas físicos, o holandês fez apenas 14 partidas como titular no último Campeonato Italiano. Não foi bem. O meia ficou com a pior média de notas do jornal Gazzetta dello Sport entre os jogadores do Milan.

– O Parma está se esforçando para substituir bem Giovinco, craque do time nas duas últimas temporadas. O clube já anunciou os acertos com o brasileiro Amauri (ex-Juventus), o colombiano Pabón (Atlético Nacional) e o francês Belfoldil (Lyon). Além do grego Ninis (Panathinaikos), contratado em março.

– A Cidade Eterna estará mais brasileira na próxima temporada. A Lazio oficializou a contratação do meia Éderson (ex-Lyon) e a Roma acertou com o zagueiro Leandro Castán e o lateral esquerdo Dodô, ambos ex-Corinthians, além de ter contratado em definitivo o meia Marquinho junto ao Fluminense.

– Mais Brasil: depois de rescindir com a Inter, Lúcio pode ser anunciado pela Juventus a qualquer momento; Thiago Silva renovou com o Milan por cinco anos e terá o segundo maior salário do futebol italiano (atrás apenas de Ibrahimovic); e a Fiorentina emprestou o promissor Ryder Matos ao Bahia.

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Equipe Trivela

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