A capital do mercado

Rafa Benítez deixou a Internazionale depois de vencer o Mundial de Clubes, em dezembro, porque fez um desabafo contra a diretoria: queria “quatro ou cinco reforços” que lhe haviam sido prometidos desde o início da temporada. O presidente Massimo Moratti não engoliu a manifestação pública do espanhol e lhe mostrou o bilhete azul. Mas reconheceu que o elenco campeão europeu na última temporada precisava de novidades, e assim foi às compras para dar ao novo técnico, Leonardo, condições para sonhar com a reação no campeonato.
A possível arrancada nerazzurra, no entanto, tem de levar em conta que o Milan também termina janeiro muito mais forte do que terminou dezembro. Não há dúvidas de que o mercado de inverno no futebol italiano foi agitado pela rivalidade entre os dois grandes de Milão, naquela que se transformou na Serie A mais imprevisível dos últimos anos, com o fortalecimento do Napoli e a surpresa Lazio brigando pelas primeiras posições.
A contratação de Antonio Cassano quase sem custos – e a simultânea saída de Ronaldinho, abrindo considerável espaço na folha de pagamentos – foi uma tacada de mestre da direção milanista, que em agosto já havia conseguido Ibrahimovic e Robinho em condições excelentes em relação ao valor de mercado que ambos já tiveram.
Mas o Milan não parou por aí. Fez uma aposta interessante no espanhol Dídac Vilà para a lateral-esquerda, posição há muito carente no elenco rossonero. Ainda chegou Emanuelson, holandês jovem e que pode atuar como volante pela esquerda ou até pela ponta, podendo ainda quebrar galho na lateral, em que pese sua reduzida capacidade de marcação.
As outras duas contratações foram emergenciais, causadas pelo incrível número de desfalques por lesão no meio-campo: os veteranos Van Bommel, ex-Bayern, e Legrottaglie, ex-Juventus. Com Legrottaglie, o técnico Massimiliano Allegri pode se sentir mais à vontade para seguir utilizando Thiago Silva como volante em caso de necessidade. Yepes, pouco utilizado na primeira parte da temporada, tem dado boas respostas na zaga.
Na Inter, o primeiro a chegar foi Ranocchia, zagueiro de grande futuro, mas já com potencial para ser titular. Mas o grande reforço é Pazzini, o melhor centroavante italiano da atualidade. A dupla dá início a um processo de “italianização” da Beneamata que pode não ser apenas coincidência, segundo Moratti. Depois de conquistar a Europa e o mundo com um time integralmente estrangeiro, o presidente parece disposto a apostar mais em jogadores locais – desde que, obviamente, tenham capacidade para vestir as cores do clube.
Para a lateral-esquerda, o japonês Nagatomo é uma aposta válida, depois de brilhar na conquista da Copa da Ásia e fazer uma primeira parte de temporada sólida pelo Cesena. Santon, que faz o caminho inverso também por inverno, parece ter sofrido com as lesões e um certo deslumbramento após seu ótimo começo no clube. Por fim, Kharja chega como jogador para compor elenco no meio-campo, após a saída de Muntari para o Sunderland.
A diferença entre Milan-Inter e os rivais, portanto, aumentou. O Napoli agiu com cautela, evitando gastos excessivos e preferindo manter o equilíbrio do time que vem fazendo uma temporada excepcional. Mas fez uma aposta interessante no jovem zagueiro espanhol Victor Ruíz e buscou Mascara, do Catania, para reforçar as opções no banco de reservas. A Lazio também se mexeu pouco, buscando o ex-genoano Sculli como opção.
A Juventus terminou o mercado investindo alto em Matri (empréstimo inicial com previsão de compra por € 15 milhões), ciente da necessidade de um centroavante goleador. Barzagli é mais um exemplo de campeão mundial decadente, a exemplo de Toni. O elenco continua sem laterais à altura e sem um meia-esquerda forte. Pela segunda temporada consecutiva, janeiro termina apenas com a preocupação em limitar os danos. No ano passado o time pelo menos seguia na Europa, agora nem isso. Agora a preocupação é não deixar escapar de novo uma vaga na Liga dos Campeões, mas até este objetivo parece mais complicado.
Pior que a Juve, só a dupla de Gênova. O Genoa rasgou em seis meses o ambicioso projeto desenhado no início da temporada e tentou mudar mais de meio time em janeiro. Saíram Toni, Ranocchia, Kharja, Sculli e Palladino, deixando para o técnico Davide Ballardini a missão de começar de novo com a temporada em andamento. E as contratações são apostas duvidosas, como o argentino Boselli, que vem de fracassar no inglês Wigan.
E a Samp, que deixou sair “só” a dupla Cassano-Pazzini? Se o mercado tem dois vencedores, sem dúvida tem uma grande perdedora.



