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10º – Vittorio Pozzo: “il Vecchio Maestro”

Conheça a carreira de Vittorio Pozzo, técnico campeão do mundo pela Itália em 1934 e 1938 e que marcou a história do futebol italiano

Ser o único homem do mundo a ganhar duas Copas do Mundo como treinador já seria o bastante para colocar Vittorio Pozzo na lista dos principais técnicos da história do futebol. Mas a façanha de ter levantado o troféu do Mundial em 1934 e 1938 é apenas um capítulo na biografia deste italiano, que tem seu trabalho lembrado e reverenciado até hoje, mais de 60 anos depois de ter encerrado a carreira.

Pozzo não era somente um técnico de futebol. Foi um grande líder e motivador de suas equipes e um belo estrategista, dentro e fora do campo. Nas quatro linhas, foi responsável por uma das primeiras revoluções táticas que se tem notícia. Fora delas, precisou caminhar pela linha tênue entre não desagradar o fascismo de Mussolini e, ao mesmo tempo, não entrar para a história como adepto ao regime.

Nascido em Turim em março de 1886, Vittorio Pozzo teve contato com o futebol durante os estudos que fez na França, Inglaterra (país que declaradamente ele admirava) e Suíça, onde iniciou a carreira em 1905, defendendo o Grasshoppers. No ano seguinte, retornou à cidade natal, onde ajudou a fundar o Torino.

Ele passou então a jogar pelo clube e pendurou as chuteiras em 1911. No ano seguinte, estreou como técnico, dirigindo a seleção olímpica da Itália. A passagem foi tão rápida quanto a precoce eliminação nas Olimpíadas de Estocolmo, na Suécia, com uma derrota diante da Finlândia.

Após da passagem meteórica pela Azzurra, “il Vecchio Maestro” (como seria chamado pelos italianos anos depois), tornou-se técnico do Torino. Aliás, sua história com o clube que ajudou a fundar tem um momento trágico: foi Pozzo quem ajudou a identificar os corpos mutilados de muitos amigos, mortos no acidente aéreo de 1949.

Ele ainda voltaria a dirigir a seleção olímpica da Itália numa curta passagem nas Olimpíadas de Paris, em 1924, chegando às quartas de final. E conciliava o trabalho com o futebol ao emprego na multinacional Pirelli e aos afazeres de jornalista esportivo, pois escrevia periodicamente para o jornal La Stampa, de Turim. Também teve um curto trabalho no Milan, entre 1924 e 1925.

Revolução tática

Antes de entrarmos na era das conquistas de títulos e da maneira como Vittorio Pozzo motivava suas equipes, é preciso entender a revolução tática que este homem criou no futebol da década de 1930 do século passado, um esporte que começava a tomar grandes proporções, via nascer seu campeonato mundial e se fortalecia em todo o mundo.

Inspirado em atuações de Charlie Roberts, do Manchester United – a quem viu jogar quando morava na Inglaterra –, o técnico criou o esquema tático batizado de “Metodo”, algo que parece simples nos dias de hoje, mas que efetivamente mexeu com as estruturas do esporte naquela época.

Ele passou a montar seus times com dois jogadores recuados, como volantes atuais, e um meia de ligação, responsável por ligar as jogadas com outros dois homens que estariam posicionados no ataque. Pozzo desmontava, então, o 2-3-5 (ou pirâmide invertida) famoso da época, para introduzir o seu 2-3-2-3, ou WM, que havia sido criado por Herbet Chapman no Arsenal.

Um dos seus principais argumentos para a utilização do novo esquema tático era o das características dos jogadores italianos que, para ele, casavam perfeitamente com esta maneira de jogar. Suas equipes tinham, obrigatoriamente, uma defesa forte e um contra-ataque rápido e eficiente, nada muito diferente do que vemos hoje no futebol moderno.

O Metodo foi se modernizando e ganhando variações ao longo do tempo, como a maior participação dos meias de ligação, mas é até hoje visto como um importante capítulo da evolução tática do futebol.

Era gloriosa

Em 1929, Pozzo assumiu pela terceira vez o cargo de técnico da seleção italiana e o fez propagando que não aceitava dinheiro algum para o trabalho. Era o começo dos anos dourados da Azzurra, bicampeã mundial e campeã olímpica.

No novo “emprego”, o treinador foi pioneiro em pelo menos mais duas iniciativas: criou o chamado retiro – isolando seus jogadores em longos períodos de concentração – e um sistema de trabalho em que não admitia, por exemplo, fumantes ou atletas de “caráter duvidoso”.

Ambas inovações podem ser explicadas pelo fato dele ter sido tenente das “Alpini”, as tropas de montanha do Exército italiano, durante a Primeira Guerra Mundial. Era claro que Pozzo levava para os campos de futebol as experiências adquiridas nas trincheiras. Há relatos de que ele usava histórias da guerra para motivar os seus atletas e até os fazia cantar hinos militares.

Logo no ano seguinte à sua nova chegada à seleção, o treinador levou o time à conquista da Copa Internacional de Seleções, uma espécie de Eurocopa da época, embora disputada em moldes bem diferentes dos atuais. O feito se repetiria em 1935.

Mas foi na Copa do Mundo de 1934, na própria Itália, que o mundo passaria a admirar e reconhecer o talento de Pozzo. Com Giuseppe Meazza e Schiavio comandando o time dentro de campo, os italianos conquistaram o Mundial monstrando um futebol forte, capaz de vencer verdadeiras batalhas. Na mais famosa delas, ganharam da Espanha nas quartas de final em jogo extra, disputado apenas um dia depois que as duas seleções haviam empatado.

Se é verdade que aquela Copa ficou marcada por polêmicas envolvendo a arbitragem – que teria favorecido os anfitriões – e até mesmo o fato de que o fascismo predominante no país também poderia ter influenciado politicamente, também é verdade que o dedo do técnico foi fundamental para a conquista. Basta lembrar, por exemplo, que ele fez questão de escalar “oriundis” – estrangeiros com ascendência italiana – que foram fundamentais para a conquista. Entre eles, estava o brasileiro Filó, jogador da Lazio conhecido em terras italianas por Guarisi.

Fascista ou não?

Em 1938, na Copa da França, a Itália chegou com o status de favorita. Além de ser a então campeã mundial, a Azzurra havia conquistado também a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, na Alemanha, dois anos antes.

O favoritismo italiano se confirmou e a seleção tornou-se a primeira bicampeã da história dos Mundiais e a primeira a conquistar o título mais importante do futebol em solo estrangeiro. Foram quatro vitórias em quatro jogos disputados.

Se quatro anos antes o fascismo já havia dominado as notícias sobre a Copa, não foi diferente nesta última edição pré-Segunda Guerra Mundial. Nos jogos da Itália, por exemplo, muitos italianos que moravam na França fugidos do regime de Mussolini foram ao campo vaiar a própria seleção.

Por ordem do ditador, os jogadores deveriam fazer a saudação fascista ao se apresentarem em campo. Logo na estreia, diante da Noruega (vitória por 2 a 1), alguns titubearam ao ouvirem numerosas vaias vindas das arquibancadas. Foi quando Pozzo agiu como tenente do Exército: ele próprio manteve o braço esticado e ordenou a seus jogadores que fizessem o mesmo, até que as vaias cessassem.

O episódio entrou para a biografia do técnico como uma dúvida se ele seria ou não adepto ao regime de Mussolini. “A saudação fascista é a bandeira oficial do momento, é uma espécie de cerimônia”, explicou posteriormente, numa tentativa de mostrar que não queria confundir futebol com política.

Ainda naquela Copa, por ordem de Mussolini, a Itália trocou o famoso uniforme azul por camisas pretas nas quartas de final contra a França.

Fim da carreira

Vittorio Pozzo seguiu no cargo de treinador da Itália até 1948, numa época em que o futebol esteve bastante conturbado por causa da guerra. Ele pediu demissão após a derrota para a Dinamarca nas Olimpíadas de Londres e voltou a atuar como jornalista. Chegou, inclusive, a cobrir a Copa do Mundo de 1950, no Brasil.

Em 19 anos como técnico da Itália, Vittorio Pozzo obteve 63 vitórias, 17 empates e 15 derrotas. Ele morreu em dezembro de 1968, aos 82 anos de idade.

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Equipe Trivela

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