Autoridades inglesas e da Uefa investigam as finanças do Manchester City há meses por uma possível violação, como foi informado pelo Football Leaks em novembro. Membros da câmara de investigação da diretoria de controle financeiro da Uefa, um grupo que analisa as contas dos clubes suspeitos de violar as regras de controle financeiro, se encontraram há duas semanas em Nyon, na Suíça, onde fica a sede da Uefa. O encontro foi para finalizar as conclusões do grupo depois de analisarem os documentos.

Um nome que é chave no grupo é Yves Leterme, ex-primeiro ministro da Bélgica, líder do painel de investigação, que é quem irá enviar a outro órgão interno na Uefa, que pode ser registrada ainda nesta semana. Segundo informações do New York Times, o grupo espera uma punição de ao menos um ano de banimento do clube.

Nas revelações do Football Leaks, a Uefa teria acobertado as violações de Manchester City e PSG, ambos com uma segunda violação depois de terem recebidos punições com multa e redução do número de inscritos em competições europeias de 25 para 21. A punição em 2014 foi dura, mas ainda foi insuficiente para impedir que os dois clubes seguissem desafiando a Uefa. Houve questionamentos na época sobre por que a Uefa puniu clubes como o Estrela Vermelha, mas não Manchester City e o PSG com a exclusão de competições europeias. A torcida do Manchester City protestou contra o Fair Play Financeiro ainda em 2014.

A possibilidade da exclusão do Manchester City de competições europeias seria um golpe duro nos investidores, que conquistaram a quarta Premier League em oito temporadas no último domingo. A Champions League é uma ambição natural de um clube que se tornou uma potência nacional e um dos mais badalados no mundo pelo enorme poder financeiro para realizar contratações e pagar altos salários.

O atual elenco do Manchester City é um dos melhores do mundo. O clube tem como dono o xeque Mansour bin Zayed al-Nahyan, que é da família real dos Emirados Árabes. Ele é meio irmão do atual presidente do país, Khalifa bin Zayed Al Nahyan. O seu poder financeiro é grande e o time investiu muito dinheiro para transformar o Manchester City, que ficava no meio da tabela e estava na segunda divisão em 2002, em uma potência nacional e agora também europeia.

O Manchester City, aliás, nega veementemente qualquer irregularidade em suas finanças. Mais do que isso, o clube promete uma briga feroz contra a Uefa se for punido. “As acusações de irregularidades financeiras são inteiramente falsas”, disse um comunicado da Uefa neste ano. “O clube publicou as suas contas de forma integral e completa em uma questão de registro legal e regulatório”.

Uma grande questão para a Uefa é que se a entidade não conseguir montar um caso e efetivamente punir clubes como o Manchester City e o PSG, o seu sistema de controle financeiro, o chamado Fair Play Financeiro, que existe desde 2011, passará a ser ainda mais questionado. Segundo o New York Times, funcionários dos órgãos de controles financeiros disseram, de modo privado, que suas reputações poderiam ser afetadas se seus trabalhos acabassem sem punição, apesar de violações encontradas.

Um dos modos de violação cometidos pelo Manchester City seriam seus patrocínios, tanto na camisa quanto do nome do estádio, com a Etihad, empresa emiratense. Os valores teriam sido inflados para justificar o dinheiro ter entrado no clube e equilibrar as contas. Como mostrado nos e-mails divulgados pelo Football Leaks, a Uefa fez vista grossa para possíveis violações do clube inglês e do PSG, que ameaçaram levar a disputa para os tribunais.

E-mails revelaram, por exemplo, que o patrocínio da Etihad ao Manchester City paga, na verdade, apenas 8 milhões de libras ao clube, e outros 59,9 milhões de libras são investidos pela ADUG, empresa de Mansur usada para comprar o City. Ou seja: uma forma de mascaram investimento como patrocínio. Segundo as regras da Uefa, o clube pode ser patrocinado por empresas ligadas aos seus donos, desde que os valores reflitam o valor de mercado. A revista Spiegel relatou que o clube fez várias manobras financeiras para driblar as violações da Uefa.

Um dos motivos da punição ao Manchester City, segundo informado pelo New York Times, seria justamente a apresentação de documentos falsificados pelo clube, tanto para autoridades inglesas quanto para a Uefa, sem efetivamente revelar os valores verdadeiros dos patrocínios. Em 2014, o City entrou em acordo com a Uefa e pagou uma multa de 49 milhões de libras, além das restrições em inscrição de jogadores.

Diante das investigações, os investigadores se reuniram com dirigentes do Manchester City em abril, na Suíça, para ouvir as explicações sobre as possíveis violações. Ainda segundo o New York Times, as pessoas envolvidas no caso não ficaram convencidos com as explicações dadas pelos dirigentes do clube inglês. Foi a partir daí que a ideia de pedir uma punição ao clube surgiu. A situação pode esquentar, porque se a acusação for montada assim, a Uefa acusaria a família real dos Emirados Árabes de mentirem a diversos envolvidos, entre eles a Premier League.

Os resultados dessa punição podem gerar um caos e uma expectativa que a Uefa seja tão rigorosa quanto com o PSG. E aí a porca torce o rabo, porque o PSG tem como donos a família real do Catar. E a beIN Sports, emissora esportiva que tem como donos justamente a família real do Catar e que está presente em diversos países europeus. Mais do que isso: é um canal que tem acordo com a Uefa para transmissão da Champions League em alguns países. Tanto a beIN Sports quanto o PSG têm como executivo-chefe Nasser al-Khelaifi. Ele foi eleito para o comitê executivo da Uefa no começo de 2019. Sentiram o problema?

Se punido, as punições provavelmente só poderiam ser aplicadas na temporada 2020/21. Isso porque ainda que a punição seja pedida rapidamente, o Manchester City terá direito a apresentar a sua defesa e ainda recorrer ao Tribunal Arbitral do Esporte (TAS). Como as fases preliminares da Champions League começam já em junho com os primeiros times dos países piores colocados no ranking, seria inviável mexer na competição depois que ela começou. Portanto, se o Manchester City for condenado e perder o recurso no TAS, será punido apenas na temporada 2020/21.

A ideia do Fair Play Financeiro

A ideia do Fair Play Financeiro era evitar que os clubes gastassem demais, acima do seu orçamento, e acabassem se enfiando em dívidas. O rápido aumento do custo dos jogadores e dos seus salários, em uma bolha financeira, fez com que muitos clubes entrassem em dívidas grandes e ficassem com problemas financeiros, desde a falta de pagamento a credores e até jogadores, até a falência.

Isso tinha um custo operacional para o Uefa que ia além do financeiro, porque impedia alguns clubes de seguirem jogando e parecia incentivar mais e mais casos de clubes que gastavam demais e depois quebravam e caiam pelas tabelas. Em outubro, a Uefa divulgou os dados que mostram que as dívidas dos clubes diminuíram, que era um dos objetivos. E diante das revelações do Football Leakes, a Uefa admitiu reabrir investigações contra Manchester City e PSG, o que efetivamente foi feito.

Em janeiro de 2019, a Uefa divulgou que os clubes, somados, tiveram lucro pela primeira vez. A desconfiança sobre o Fair Play Financeiro segue muito grande, porque clubes como Milan e Internazionale sofreram com as restrições que a Uefa impôs, mas Manchester City e PSG pareceram passarem batidos – mesmo com o PSG gastando € 220 milhões só em Neymar, em agosto de 2017, e € 180 milhões em Kylian Mbappé, contratado após um ano de empréstimo em julho de 2018. A investigação sobre o Milan foi só mais um indício que a Uefa parece tratar alguns clubes com o rigor da lei, outros recebem tratamento brando e leniente.

A Uefa terá um enorme desafio à sua frente. A entidade tem peito de bancar as punições contra tubarões como o Manchester City e o PSG e arcar com as consequências – que podem se tornar uma batalha judicial com clubes com recursos infinitos para brigar por isso? Ou deixará de punir e verá o seu sistema de controle financeiro se tornar cada vez mais inócuo e injusto? Veremos o que a entidade que dirige o futebol europeu vai agir.