Copa da InglaterraInglaterra

Wigan e a sua paixão pelo improvável ganham um título

Ganhar ou não ganhar a Premier League não é uma preocupação dos torcedores do Wigan. A preocupação é sempre se o time estará ou não estará na Premier League na próxima temporada. O time tem um histórico fantástico de escapar de rebaixamentos nos últimos anos. Nesta temporada, a equipe do técnico Roberto Martínez conseguiu ir além. Finalista da Copa da Inglaterra, o time surpreendeu o Manchester City, venceu por 1 a 0 com um gol nos acréscimos e deu uma alegria inimaginável ao seu torcedor. Um capítulo fantástico na história desse time que se acostumou a fazer o improvável.

O futebol é cheio de lições. A lição deste sábado parecia destinada ao Wigan. Decidir a final da FA Cup, a Copa da Inglaterra, era algo inédito na história do clube. O adversário, Manchester City, é um time muito melhor e muito mais rico. Mais experiente também. Boa parte do elenco foi campeão desta mesma competição há duas temporadas, tirando o time da fila. A lição parecia ser pelos gols que o time perdia, especialmente com o arisco atacante Callum McManaman. Habilidoso, ele criou as melhores chances do Wigan, mas as perdeu. Dava pinta que seria aqueles lances que fariam o time pensar “se a gente tivesse feito o gol, tudo seria diferente”. Talvez fosse. Mas a lição não foi essa.

O Wigan ostenta um feito: nunca foi rebaixado da Premier League. Sim, desde que subiu, em 2004/05, o time não caiu. Passou perto muitas vezes e nos últimos anos vem escapando por um triz. Nesta temporada, a missão é dificílima. Com 35 pontos, está há três dos times fora da zona do rebaixamento, Sunderland, Norwich e Newcastle. Joga com o Arsenal no Emirates, com os Gunners brigando por vaga na Liga dos Campeões, e o Aston Villa, que ainda é um adversário direto contra o descenso. Duas rodadas de fogo para o time de Roberto Martínez. O cenário para a tragédia está armado. Isso até a Copa da Inglaterra.

Sim, porque a Copa da Inglaterra permitiu ao Wigan sonhar. Um sonho que todo mundo daria risada se fosse dito no dia 5 de janeiro de 2013, quando o time estreou na competição. Naquele dia, empate por 1 a 1 com o Bournemouth em casa, forçando o replay. Isso mesmo: logo na primeira rodada que disputou a competição, o time tropeçou em uma equipe de divisão inferior e jogando em casa. A classificação só veio com uma vitória por 1 a 0 fora de casa. Veio então o Macclesfield Town (1×0), Huddersfield Town (4×1), a surpreendente vitória sobre o Everton (3×0), a semifinal como favorito contra o Milwall (2×0) e era chegada a hora da final contra o Manchester City. Uma parte dos torcedores do time deve ter pensado: “fizemos o possível. Agora o sonho acabou”. Mas não foi o que aconteceu.

Com poucas chances contra o City, o time do Wigan parecia perder gols que fariam muita falta. O atacante McManaman era o melhor do jogo, fazendo da vida do Manchester City um inferno – mas errando em todas as finalizações. O roteiro estava pronto: time pequeno não pode perder chances, porque o time mais forte vai lá e acaba com a festa. Bom, não foi o que aconteceu.

Depois de um primeiro tempo com algumas chances perdidas dos dois lados, o segundo tempo parecia encaminhar as coisas para o caminho esperado: o Manchester City era melhor, tentava pressionar e chegava mais ao campo de ataque. O Wigan mal chegava ao ataque. Na primeira vez que teve uma chance, conseguiu um escanteio. Uma rara chance de jogar uma bola na área e preocupar o goleiro Joe Hart e sua defesa. Só que o Wigan preferiu tocar curto. Tentou jogar com a bola trabalhada. Perdeu. O Manchester City voltou à carga.

Lições aprendidas. Escanteio é uma chance que não pode ser desperdiçada, ainda mais em um jogo como esse. Tal qual uma criança que não faz a lição de casa, o Wigan já parecia esperar a bronca da mãe. Só que tudo começou a parecer a seu favor. McManaman continuava bem e perigoso. E depois de ver Pablo Zabaleta tomar um amarelo no começo do segundo tempo, veio o segundo no final do segundo. Aos 38, o argentino fez falta violenta em um contra-ataque do Wigan. Foi expulso. E assim parecia que as coisas ficavam melhores para os Latics. Com a perspectiva de jogar uma prorrogação com um a mais, a vitória era possível.

Até que McManaman desceu pela direita e tomou um carrinho por baixo. Ele caiu e pediu pênalti. O árbitro Andre Marriner balançou a cabeça, disse que não e apontou o escanteio. O relógio já passava dos 45 minutos do segundo tempo. Bater um escanteio curto como tinha feito antes seria um desperdício. Uma burrice. Então o Wigan colocou as esperanças naquela bola alçada para dentro da área. Bem Watson, que entrou no segundo tempo, subiu de cabeça, desviou de leve, e viu a bola balançar as redes. Gol que enlouqueceu a fanática torcida do Wigan presente no estádio.

Provavelmente naquele momento eles nem mesmo lembraram que o trem era um problema para ir embora. Ali, eles viviam a história e a razão do futebol: a glória. Nos anos anteriores, a glória estava em vitórias improváveis contra times mais fortes ou em escapar de rebaixamentos que pareciam certos. Agora, um título. Um título que os torcedores sabem o quanto vale. Sabem que ninguém na cidade jamais irá esquecer.

Foi o primeiro título do Wigan na competição, a mais antiga do futebol mundial. Antes, o time tinha dois títulos da Football League Trophy, a Copa dos times da terceira e quarta divisões e algumas ligadas menores, do tempo que o time conseguia apenas feitos locais. Neste ano de 2013, o time coloca no seu museu o título da competição que tem tantos clubes participantes.

A glória da FA Cup pode ser o incentivo que falta para que a equipe novamente faça o improvável e ganhe mais uma vez o rótulo de “Incaível”. Com uma história como essa, quem é capaz de duvidar?

Mostrar mais

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo