Vexame para começar uma nova era

Há uma semana, as discussões sobre a seleção na Inglaterra eram quase surreais. Apesar de o time estar praticamente eliminado da Eurocopa, ainda havia dúvidas se o técnico Steve McClaren deveria ser demitido ou se receberia outra chance nas eliminatórias para a Copa do Mundo. A lógica, pasmem, era de que a Inglaterra vinha mostrando sinais de melhora recentemente e, por isso, o treinador estaria acertando a mão.
No fim de semana, aconteceu a grande reviravolta: a Rússia perdeu para Israel. O resultado parecia um presente dos céus para McClaren e resolvia o ‘dilema’ da FA. Era ‘só’ empatar com a Croácia que a vaga na Euro estava garantida. E, com base no desempenho da seleção no torneio, o futuro do treinador seria decidido.
Mas eis que a ‘justiça divina’ decidiu intervir. Nesta quarta, a Croácia foi a Wembley com um ímpeto inesperado e destruiu a seleção inglesa. O placar final de 3 a 2 até ficou barato para o time da casa, que poderia ter perdido por uma margem maior. Depois desse fiasco, ficou óbvio que McClaren deveria ser demitido – e foi o que aconteceu.
O fato é que, pelo que jogou nestas eliminatórias, a Inglaterra não merecia ir para a Eurocopa. Se a Croácia tivesse ‘pegado leve’ e se contentasse com um 0 a 0 em Wembley, os ingleses estariam na Euro, mas provavelmente dariam vexame no torneio continental.
Desfalques à parte, a seleção inglesa não mostrou consistência em nenhum setor do campo, em nenhum momento da ‘era McClaren’. O treinador conseguiu juntar todos os defeitos da seleção dirigida por Eriksson e somar outros a eles – o mais notável na defesa, que se mostrou incapaz de segurar um empate por 25 minutos, em casa, contra uma Croácia (que não é nenhum timaço) que só jogava para cumprir tabela.
Ficar de fora da Eurocopa é um preço alto a se pagar, mas pode trazer bons dividendos no futuro. Com o trauma, torna-se impossível soluções ‘acochambradas’ – como, aliás, foi a própria contratação de McClaren. Efetivar o assistente Venables (que também já foi demitido) ou contratar algum técnico inglês meia-boca são possibilidades remotas.
Agora, fala-se em nomes como Mourinho, Capello, O’Neill ou Felipão para a Seleção. Com eles, sim, a Inglaterra pode aspirar a uma posição de destaque na próxima Copa do Mundo. Em termos de elenco, o English Team pode não ser a melhor seleção do planeta, mas também não fica atrás de Alemanha e Portugal, semifinalistas da última Copa, nem da maioria dos países que estarão na Euro-2008. Se a Inglaterra tivesse se classificado, poderia até chegar às quartas-de-final da Eurocopa, mas depois pagaria com uma campanha medíocre no Mundial – isso se conseguisse a classificação. Agora, com o trauma, a Inglaterra tem a chance de começar do zero, com um técnico ‘world class’ que elimine os vícios e faça a seleção jogar o que pode. É só não repetir os erros do passado.
Sem britânicos na Euro
Pela primeira vez desde 1984, teremos um torneio europeu (ou Mundial) sem nenhum representante das Ilhas Britânicas. E olha que, naquela época, a Eurocopa só tinha oito times. Apesar desse balanço geral negro, o único dos cinco países da região que saiu realmente em baixa foi a Inglaterra. Para os outros, houve mais pontos positivos do que negativos.
A Escócia foi uma das grandes estrelas das eliminatórias e chegou perto de causar uma zebra histórica. Jogando com uma garra inacreditável, venceu a vice-campeã mundial França duas vezes. A equipe escocesa manteve-se viva até a última rodada, quando acabou sucumbindo para a Itália, mas mesmo assim fechou o torneio à frente da Ucrânia, que chegou às quartas-de-final da última Copa.
Como resultado, além de ganhar moral, a Escócia tem uma recompensa: provavelmente, estará no ‘pote 2’ das eliminatórias da Copa do Mundo. Ou seja, deve cair num grupo bem mais fácil do que enfrentou no caminho para a Euro. Pela lógica, se jogar o mesmo que no último ano, tem ótimas chances de ir para a África do Sul.
Outra seleção que saiu com um sorriso das eliminatórias é a Irlanda do Norte. Quatro anos atrás, a equipe passou o torneio inteiro sem marcar um golzinho sequer. Desta vez, ganhou no confronto direto da Espanha, da Suécia e da Dinamarca (!!!). Só não foi para a Eurocopa porque perdeu dois jogos seguidos para Letônia e Islândia, logo que trocou de técnico (Lawrie Sanchez trocou a seleção pelo Fulham). Com esses seis pontos, estaria na Euro.
A Irlanda do Norte provavelmente cairá no ‘pote 3’ das eliminatórias para a Copa do Mundo. É uma evolução notável, mas ainda é um pouco difícil pensar em Mundial. Mas, com sorte na distribuição dos grupos, e se continuar com a boa fase, nada é impossível…
Por fim, País de Gales e Irlanda não têm muito o que comemorar, mas também não deram vexame. Os dois ficaram longe da vaga, mas não dava para esperar, a sério, que eles competissem com Alemanha e República Tcheca. Ambos tiveram momentos a se esquecer – os dois foram derrotados pelo Chipre –, mas também brilharam em alguns instantes: ambos empataram com tchecos e alemães, e Gales ainda goleou a Eslováquia.
Para a Copa do Mundo, a Irlanda será ‘pote 3’. Ou seja, dependerá da sorte e de melhorar seu futebol para ir à África do Sul. Já o País de Gales ficou mesmo no ‘pote 4’ e dificilmente será mais que um coadjuvante nas eliminatórias.
CURTAS
– Como os rumores já antecipavam, o Wigan contratou Steve Bruce, que estava no Birmingham.
– Em vista das (poucas) opções disponíveis, foi uma boa escolha.
– Para o técnico, também foi bom negócio: embora o Wigan seja um clube menor, a situação no Birmingham não era boa. O clube está sem comando, e a diretoria não queria renovar o contrato de Bruce, que vencia no fim da temporada.
– Sem técnico e sem candidatos decentes para o cargo, o Birmingham passa a ser um dos maiores favoritos para o rebaixamento.
– Mas patético mesmo foi o clube tentar contratar Marcello Lippi como treinador. O italiano deve ter pensado que era trote!



